Crédito na América Latina fica mais escasso diante de riscos políticos, climáticos e financeiros
Relatório da Moody’s aponta custos de financiamento ainda elevados, incertezas regulatórias e eventos climáticos como fatores de pressão
O ambiente de crédito na América Latina deve continuar seletivo em 2026, apesar da queda da inflação em várias das principais economias e do início de ciclos de redução de juros por parte de bancos centrais.
Segundo análise da Moody’s, os custos de financiamento e o peso do serviço da dívida permanecem elevados, enquanto o crescimento econômico segue moderado.
A agência de classificação de risco afirma que empresas e setores mais dependentes de políticas públicas, concessões e regulação estão particularmente expostos às incertezas.
Ciclos eleitorais, mudanças regulatórias, polarização política e oscilações nos preços de commodities devem continuar influenciando as condições de crédito na região.
O risco é maior para companhias cujos investimentos, receitas ou acesso a financiamento dependem de decisões do governo.
Nesse cenário, a estabilidade dos marcos regulatórios e jurídicos ganha importância para reduzir a possibilidade de intervenções que afetem os negócios.
A volatilidade dos preços de energia é apontada pela Moody’s como um dos principais canais de transmissão dos riscos geopolíticos para a economia latino-americana.
Mudanças nos preços de petróleo, gás e eletricidade podem afetar custos, margens e capacidade de pagamento de empresas de diferentes setores.
Eventos climáticos aumentam pressão sobre empresas
Os riscos climáticos também devem ganhar peso na avaliação de crédito. A Moody’s destaca que eventos extremos podem provocar interrupções na produção, no transporte e no fornecimento de energia, além de aumentar os investimentos necessários para adaptação da infraestrutura.
O fenômeno El Niño deve continuar contribuindo para condições climáticas adversas pelo menos até o início de 2027, segundo a análise.
Secas, enchentes e chuvas intensas podem afetar especialmente agricultura, mineração, logística e transporte.
A escassez de água é outro fator de preocupação. Além de interromper operações, pode elevar custos e exigir novos investimentos em infraestrutura, principalmente em setores que dependem de grandes volumes de recursos hídricos.
Data centers abrem espaço para investimentos
Apesar do cenário mais restritivo, a expansão da inteligência artificial cria oportunidades em alguns mercados. A Moody’s considera os data centers, infraestrutura necessária para o processamento e armazenamento de dados, um segmento com potencial de crescimento na América Latina.
O interesse dos investidores permanece elevado, e projetos do setor vêm atraindo financiamento bancário, capital privado e estruturas específicas de financiamento de projetos.
A expansão, porém, enfrenta obstáculos. A disponibilidade de energia, o licenciamento ambiental e regulatório e o cumprimento dos prazos de construção serão determinantes para a viabilidade dos empreendimentos.
Brasil, México e Chile aparecem entre os mercados com potencial para receber investimentos em data centers, embora cada um apresente condições próprias de infraestrutura, energia e regulação.
Governança também afeta o risco de crédito
A Moody’s destaca ainda o papel da gestão financeira e da governança na capacidade das empresas de enfrentar períodos de maior restrição de crédito.
Decisões sobre liquidez, endividamento e alocação de capital podem alterar o perfil de risco das companhias. Problemas de transparência, concentração acionária ou interferência governamental na estratégia e na administração também podem aumentar a volatilidade da qualidade de crédito.
Para a agência, a combinação entre financiamento mais caro, crescimento moderado, incertezas políticas e regulatórias e eventos climáticos exige maior capacidade de gestão de caixa e de adaptação por parte das empresas latino-americanas.







