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Crédito caro faz empresas venderem bilhões em dívidas atrasadas

Com fintechs e varejistas entrando no jogo, mercado de carteiras inadimplentes pode chegar a 40 bilhões de reais em 2026

Por Machado da Costa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 16 set 2026, 12h30
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Empresas brasileiras estão encontrando uma forma de transformar calote em caixa. A venda de carteiras de clientes inadimplentes movimentou 17 bilhões de reais apenas no primeiro semestre deste ano e deve ganhar força nos próximos meses, puxada principalmente por fintechs, varejistas e instituições financeiras que preferem receber menos agora a carregar por mais tempo dívidas de difícil recuperação.

A estimativa da Recovery, empresa do grupo Itaú especializada na compra e cobrança dessas carteiras, é que o mercado termine 2026 com cerca de 40 bilhões de reais em créditos cedidos. Se a projeção se confirmar, será um salto relevante sobre os 34 bilhões de reais negociados em 2025 — ano que, por sua vez, já havia registrado crescimento de 21,4% sobre 2024.

A conta também mostra o tamanho da aceleração esperada daqui para frente. Como os primeiros seis meses movimentaram 17 bilhões de reais, aproximadamente 23 bilhões terão de ser vendidos no segundo semestre para que a previsão seja alcançada. É justamente nessa reta final que a Recovery espera uma maior presença de instituições que até pouco tempo tratavam a cobrança de dívidas dentro de casa.

O número de empresas que recorreram a esse mercado já aumentou. Foram 30 cedentes entre janeiro e junho, contra 26 no mesmo período de 2025. Entre as fintechs, o contingente passou de oito para dez empresas. No varejo, quase dobrou, de quatro para sete. Indústria, agronegócio e setor imobiliário também começaram a aparecer, embora ainda com participação menor.

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A lógica é relativamente simples. Ao vender uma carteira, a empresa aceita um desconto sobre o valor originalmente devido, recebe dinheiro à vista e transfere para uma especialista o trabalho — e o risco — de tentar recuperar aqueles créditos. Num ambiente de juros elevados e bancos mais seletivos, o mecanismo passou também a funcionar como uma alternativa de liquidez para companhias que precisam liberar caixa.

Há ainda uma pressão regulatória adicional sobre o setor financeiro. Desde 2025, as instituições passaram a conviver com novas regras do Banco Central para reconhecimento de perdas esperadas com crédito, em um processo de transição que ainda produz efeitos sobre o capital das instituições em 2026. Para fintechs e outros agentes financeiros, manter créditos deteriorados por longos períodos tornou-se uma discussão cada vez mais relevante para balanço, resultado e gestão de risco.

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O estoque de brasileiros com dificuldades para pagar as contas ajuda a alimentar esse mercado. Em agosto, 73,71 milhões de consumidores estavam inadimplentes, o equivalente a 43,9% da população adulta, segundo CNDL e SPC Brasil. Embora o número tenha recuado em relação a julho, a quantidade de dívidas em atraso cresceu 10,28% em doze meses. Só os bancos respondiam por 65,8% dos débitos registrados.

A consequência já aparece também na cobrança. A Recovery administra mais de 144 bilhões de reais em créditos inadimplidos e possui mais de 33 milhões de pessoas com dívidas ativas em sua base. A empresa compra, em geral, créditos que já passaram do estágio em que bancos e varejistas consideram eficiente manter estruturas próprias de recuperação.

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Para quem vende, é uma forma de limpar a carteira e antecipar dinheiro. Para quem compra, o negócio depende de pagar pela dívida um preço suficientemente baixo para ainda ganhar dinheiro recuperando parte dela. Quanto pior a capacidade de pagamento do consumidor, maior tende a ser o desconto exigido pelo comprador.

É essa combinação — mais inadimplência, crédito caro, necessidade de caixa e empresas dispostas a terceirizar dívidas antigas — que pode levar o mercado aos 40 bilhões de reais neste ano. Mais do que o tamanho da cifra, porém, o movimento mostra como a dívida vencida deixou de ser apenas um problema de cobrança e passou a ser tratada como um ativo financeiro negociável por um número crescente de empresas.

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