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Concurseiros estudam até 8 horas diárias e abrem mão da vida pessoal

Tanta pressão chega a causar problemas físicos e emocionais, como ganho de peso, depressão e transtorno de ansiedade

Realizar o sonho de passar em um concurso público envolve sacrifício e disciplina. Concurseiros ouvidos por VEJA contam que chegam a estudar até oito horas por dia, inclusive aos fins de semana. Para seguir uma rotina tão rígida é preciso abrir mão de pequenos prazeres, como festas, baladas e passeios com amigos e familiares. A recompensa para tantas renúncias é conseguir um emprego bem remunerado e com estabilidade, um ideal perseguido por um número cada vez maior de brasileiros.

Marco Antonio Araújo, vice-presidente da Associação Nacional de Proteção e Apoio ao Concurso Público (Anpac), diz que o aumento do desemprego ampliou a concorrência na busca por vaga no serviço público. “Tanto o desempregado como o jovem que não conseguiu entrar no mercado de trabalho passaram a ver o concurso como uma opção, principalmente por conta dos salários e estabilidade ofertados. O número de concurseiros vem aumentando ano a ano”, afirma Araújo.

Um desses concurseiros é o designer de produtos Luigi Simões, 26 anos, que desde 2016 estuda para passar no concurso da Polícia Federal. Ele conta que tomou essa decisão depois de ter ficado desempregado pela terceira vez no mesmo ano. “Minha família vem de uma linhagem na carreira policial. Tentei quebrar essa tradição, me formando em outra área. Mas depois que fiquei desempregado pela terceira vez no mesmo ano, decidi que queria ser policial”, conta.

A rotina de Simões inclui até cinco horas de estudos na parte da manhã e mais outras à tarde, totalizando de sete a oito horas por dia. Ele diz preferir estudar em casa e tirar dúvidas com professores do curso preparatório que frequenta pela internet.

Simões diz que abrir mão do lazer é apenas a ponta do iceberg das dificuldades enfrentadas pelos concurseiros. “A gente abre mão de muita coisa, o lazer é apenas uma delas. A convivência familiar é prejudicada, assim como a saúde física e emocional.”

Segundo ele, a rotina de estudos é ampliada assim que o edital do concurso é publicado – a partir dele o candidato fica sabendo quais serão os temas que serão cobrados nas provas. “Tem gente que emagrece ou engorda 10 quilos só neste período. Alguns deixam de comer, enquanto outros acabam comendo mais.”

O advogado Natan Chaves Neto, 27 anos, estuda há três anos para passar em no  concurso da Defensoria Pública ou do Ministério Público. Ele havia emagrecido cinco quilos com a ajuda de uma nutricionista, mas recuperou o peso perdido depois de passar para a segunda fase de um concurso. “Eu gosto de praticar esportes, mas quando chega perto de prova, não consigo treinar. Aí vou para o curso e como mais ainda, o pessoal dá bolo.”

Chaves diz que que sua namorada também é funcionária pública e por isso entende a rotina disciplinada que precisa levar. “A única coisa que não dá para fazer muito é ir para a balada e chegar às 4 da manhã. Se dedico um dia para descansar, no outro levanto cedo para estudar, então, se chegasse de madrugada, acabaria dormindo pouco.”

Apesar de abrir mão das baladas, Chaves afirma que a vida do concurseiro não é mais difícil do que a de uma pessoa que está no mercado de trabalho batalhando para subir na carreira. “Não é um esforço maior do que a pessoa que busca um crescimento faz. A diferença é que o concurseiro se esforça, mas não sente que está galgando na carreira.”

Araújo, da Anpac, diz que a variação de peso é apenas um dos efeitos colaterais da dura rotina dos concurseiros. Segundo ele, muitos ficam com depressão ou síndrome de ansiedade. “Alguns tentam esquecer o restante da vida e se concentrar apenas no concurso, como se fosse possível anular todo o resto. Essa é uma estratégia muito ruim.”

O vice-presidente da Anpac recomenda que os concurseiros tentem combinar os estudos sem abrir mão da vida pessoal. “É possível estudar uma boa quantidade de horas sem abandonar os exercícios, o contato com a família, filhos. Se ele se fechar apenas no concurso, vai acabar adoecendo. Pode adoecer antes mesmo de passar no concurso.”

A vontade de passar no concurso a qualquer custo pode gerar um outro problema: a utilização irregular de medicamentos para aumentar a concentração. Araújo diz que alguns concurseiros usam medicação recomendada para quem tem déficit de atenção para conseguir prestar mais atenção nas aulas preparatórias. “São remédios que só devem ser usados com recomendação médica. Não pode usar sem prescrição, a pessoa fica ‘ligada’, mas depois certamente vai sofrer algum efeito rebote.”

Projeto de vida

Araújo diz que o concurso tem que ser encarado como um projeto de vida, não apenas uma meta financeira. “Quando você estabelece uma vocação e um propósito, o esforço se torna merecido e reconhecido. Quando não se tem um propósito, a pessoa trabalha e não sabe o motivo. Acaba desistindo.”

Chaves Neto afirma que sempre quis uma carreira no serviço público, preferencialmente na Defensoria ou Promotoria. “Não busco apenas um emprego estável. Sou apaixonado por essas carreiras, pois quero ajudar as pessoas e a sociedade.”

Dicas para passar no concurso

Segundo o vice-presidente da Anpac, não há uma receita única para passar no concurso público. “Não existe apenas um, mas vários fatores que trabalhados da forma correta vão ajudar na aprovação do candidato.” Veja abaixo alguns dos fatores: 

Escolha da carreira

Araújo diz que é preciso escolher uma carreira com a qual o candidato tem afinidade. “Isso vai facilitar no estudo das disciplinas do edital. Também é importante para a vocação: não adianta estudar, ser aprovado, tomar posse e ser um funcionário público infeliz. A vocação deve nortear a escolha, não o salário.”

Disciplina para estudar

O candidato deve estabelecer uma rotina diária de estudos. “O estudo deve ser constante. A persistência traz resultados positivos. Estudar os conteúdos do edital é fundamental.”

Segundo Araújo, o aluno deve estudar com foco e determinação. “De preferência, monte um plano de estudos.”

Atualização constante

Muitas provas pedem conhecimento de leis que são atualizadas constantemente. Araújo diz que o candidato deve tomar cuidado para não estudar leis antigas, que podem levá-lo a errar na prova. Uma alternativa são os cursos preparatórios, que mantêm os alunos atualizados.

Resiliência

O vice-presidente da Anpac diz que é preciso ter resiliência para entender que a reprovação faz parte do processo, que termina com a posse. “Não é um erro fatal ser reprovado. Estudar pela prova reprovada é uma ótima técnica, aprende-se com os erros.”

Sala de aula de curso preparatório da escola Meu Curso para concurso público

Sala de aula de curso preparatório da escola Meu Curso para concurso público (//Divulgação)