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Como Pedro Guimarães instaurou uma ‘cultura do medo’ dentro da Caixa

Seis em cada 10 funcionários da Caixa relatam ter sofrido assédio moral no ambiente de trabalho durante a gestão de Guimarães

Por Felipe Mendes Atualizado em 30 jun 2022, 15h22 - Publicado em 30 jun 2022, 13h28

Muito antes de ser acusado por assédio sexual, o agora ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, era conhecido por perseguir funcionários e cercear a liberdade de expressão dentro da companhia. Desde que assumiu a liderança da instituição financeira, em janeiro de 2019, o economista adotou uma gestão “linha dura” pela qual o assédio moral se tornou rotina entre os funcionários. Segundo Maria Rita Serrano, representante dos funcionários no conselho de administração da Caixa, Guimarães esvaziou os modelos de gestão de recursos humanos e criou um clima de instabilidade nos corredores da estatal. “As denúncias de assédio moral, de pressão por resultados e de perseguição aos trabalhadores foram uma constante”, aponta ela.

Apoiador de primeira hora do presidente da República Jair Bolsonaro, Guimarães foi autorizado a promover mudanças drásticas na governança da corporação. Em seu mandato, trocou 105 dos 120 principais executivos da companhia. Na busca por resultados positivos, instaurou uma ‘cultura do medo’ na instituição. “Essa prática de trocar constantemente pessoas nos cargos de direção se expandiu para o banco inteiro. Há diretorias em que já se trocou dez vezes o responsável pela área. Há área que já está no sexto vice-presidente”, reitera Serrano. “Não havia um processo de avaliação. A prática adotada era a seguinte: ‘Se não concordar comigo, eu tiro’. E nós estamos falando de empregados de carreira. Na maioria dos desligados, foram anos dedicados ao banco.”

Segundo uma pesquisa realizada entre novembro e dezembro de 2021, pela Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal, a Fenae, 6 em cada 10 funcionários da Caixa relatam ter sofrido assédio moral no ambiente de trabalho. O levantamento contou com o depoimento de 3.034 trabalhadores do banco, tanto aposentados quanto da ativa. Entre os funcionários da ativa, 56% disseram ter sofrido esse tipo de assédio. Fora isso, 70% dos entrevistados já testemunharam assédio moral no ambiente da estatal.

Ao menos dois terços dos funcionários da Caixa relatam ter o conhecimento de algum colega de trabalho que esteja passando por situações como angústia, depressão ou pânico. “Desde 2019, a gente vê crescer as pressões nos trabalhadores e as denúncias de assédio moral na empresa. O assédio se dá em todos os níveis, não só nos locais de trabalho, mas também na alta administração da empresa. E isso se reflete no clima e nas condições de saúde dos trabalhadores da Caixa”, afirma Sérgio Takemoto, presidente da Fenae. “A gente espera que, com a saída do Pedro, passemos a conviver com um novo modelo de gestão, que valorize os trabalhadores da Caixa.”

Alguns desses casos constrangedores se tornaram públicos. Em dezembro de 2021, por exemplo, Guimarães ordenou que os diretores e vice-presidentes da companhia fizessem flexões durante uma cerimônia pública. Na época, o Sindicato dos Bancários acionou o Ministério Público do Trabalho, que notificou Guimarães posteriormente. A alegação era que a gestão do ex-presidente da Caixa foi repleta de “sobrecarga de trabalho, assédio moral e ameaças de descomissionamento”.

Em uma live de apresentação do Auxílio Emergencial, durante a pandemia, negou-se a fazer o seu pronunciamento depois que anunciaram o nome dos vice-presidentes participantes antes do seu. E depois ameaçou que não teria mais eventos assim se não fossem mais bem organizados.

Além de casos que ficaram mais conhecidos e expostos ao público externo como esses, diversos episódios exóticos passaram a fazer parte do folclore interno, tema das conversas de corredor do banco estatal. Como a situação em que gritou com técnicos que instalaram os equipamentos de uma sala de conferências por vídeo, em São Paulo, por não gostar da marca do televisor usado. Também era comum pedir a empregados que nadassem com ele, em eventos corporativos. Constrangia as pessoas a entrar no mar juntas, para mostrarem lealdade.

Segundo Serrano, a gestão “linha dura” de Guimarães foi um reflexo da ligação direta do economista com Bolsonaro. “Esses casos de assédio têm a ver com a política do governo. É um perfil vinculado ao do governo, um perfil autoritário, de perseguição às entidades e aos trabalhadores, de cerceamento das liberdades. Não à toa o ex-presidente da Caixa é muito próximo ao presidente Bolsonaro”, afirma. “Isso faz parte da política do governo”.

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