Aos 13 anos, Wanderson Leite ainda não sabia que estava tendo sua primeira aula de empreendedorismo. Morador de Cabreúva, no interior de São Paulo, ele trabalhava em uma fábrica de lajes de cimento, onde recebia por dia trabalhado. O problema era que, muitas vezes, chegava ao trabalho depois de caminhar quatro quilômetros e ouvia do patrão que não havia serviço porque a fábrica não tinha vendido o suficiente naquela semana.
No caminho entre a casa e a fábrica, porém, Leite passava por um bairro cheio de obras. Ele percebeu que muitas delas não tinham a placa da fábrica onde trabalhava e perguntou ao chefe por que a empresa não tentava vender para aqueles clientes. A resposta foi curta: eles não haviam procurado a fábrica. Para o adolescente, aquilo não fazia sentido. Se as obras existiam, por que esperar que os clientes aparecessem?
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Foi então que ele pegou cartões de visita da empresa, colocou seu nome no verso e começou a distribuí-los nas obras que encontrava pelo caminho. Algumas semanas depois, recebeu uma comissão que quase dobrava seu pagamento daquela semana. A experiência deixou uma marca: Leite descobriu que havia valor em encontrar o cliente antes que ele procurasse a empresa.
A ideia voltou a aparecer anos mais tarde, em 2008, quando ele e a mulher se mudaram para São José dos Campos. Grávida, sua esposa o acompanhava na mudança, que deveria ser o início de uma nova fase profissional. O plano, porém, desmoronou antes mesmo de começar. O emprego que havia sido prometido por um amigo não se concretizou e o casal ficou com apenas 30 reais no bolso depois de pagar aluguel, móveis e as compras do mês.
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Sem dinheiro para investir, foi a uma lan house, imprimiu cartões simples e começou a visitar condomínios. Mais do que identificar as obras, passou a levantar informações sobre os proprietários e arquitetos responsáveis. No dia seguinte, levou duas oportunidades para a loja. Em vez de ser contratado como vendedor, recebeu uma proposta diferente: 300 reais por mês para continuar encontrando novos orçamentos. Logo vieram outras lojas e fornecedores interessados no mesmo serviço. Leite chegou a criar uma rede informal de motoboys que, durante as entregas de marmitas nos condomínios, coletavam informações sobre novas obras. Em troca, recebiam uma pequena quantia. O modelo funcionava, mas havia um limite evidente: para levar a ideia a outras cidades e, depois, ao país, seria impossível depender de centenas ou milhares de pessoas fazendo o trabalho manualmente.
Curioso por natureza, o empreendedor já tinha o hábito de transformar comportamento em dados. Quando tinha uma banda na adolescência, acompanhava no MySpace não apenas quantas pessoas ouviam suas músicas, mas quanto tempo permaneciam em cada uma delas. Em 2014, decidiu investir na criação de uma plataforma capaz de mapear obras em todo o Brasil. O sistema utilizava registros públicos relacionados a projetos, licenças e outras etapas da construção para identificar empreendimentos que estavam em andamento ou prestes a começar. Para tirar o projeto do papel, Leite colocou todo o dinheiro que tinha no negócio e investiu cerca de 200 mil reais na hoje conhecida Prospecta Obras, ficando novamente sem recursos e ainda contraindo dívidas.
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O risco, porém, criou uma vantagem competitiva. Ao saber onde uma obra estava sendo construída e, principalmente, antes que ela chegasse à loja para comprar, fornecedores poderiam se antecipar à demanda. A partir daí, a empresa passou a estruturar uma operação baseada em dados para o setor de construção civil. Leite também identificou uma lacuna nas estatísticas disponíveis sobre o mercado. Segundo ele, grande parte das pesquisas tradicionais se concentra nas incorporadoras e nos grandes empreendimentos, enquanto cerca de 90% das obras brasileiras seriam de pessoas físicas, em construções horizontais.
O projeto ganhou novas frentes. Além da plataforma voltada às empresas, Leite criou um instituto para produzir informações sobre a construção civil e, mais recentemente, uma solução direcionada a quem está construindo. A lógica é conectar os diferentes lados desse mercado: quem vende, quem compra e quem precisa entender onde estão as oportunidades.
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