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Como o aumento da taxa de juros pode atrapalhar a retomada da economia

Com Selic mais alta, crédito fica escasso e mais seletivo, segundo economistas; expectativa do BC é estancar inflação, mas pode paralisar economia

Por Felipe Mendes Atualizado em 22 set 2021, 20h38 - Publicado em 22 set 2021, 19h39

Em busca de conter a disparada nos índices de inflação no país, o Banco Central anunciou nesta quarta-feira, 22, a elevação da taxa básica de juros, a Selic, em 1 ponto percentual, para 6,25% ao ano. A medida era vista como inevitável por economistas, mas atrasada, já que deve ser acompanhada por outros reajustes graduais no futuro. Mais do que isso, o avanço na Selic voltará a impor maiores dificuldades para empresas e pessoas físicas que trabalham com o crédito. Com os empréstimos ficando mais custosos, a expectativa é que as companhias posterguem investimentos e contratações. O resultado disso é que uma retomada mais vigorosa da economia em 2022 deve ser adiada para um tempo mais distante.

Entre as suas principais linhas de defesa de suas ideias, o ministro da Economia, Paulo Guedes, jactava-se de ter proposto um novo modelo econômico ao país. “Agora, o país virou o inferno dos rentistas”, dizia ele, aos quatro ventos. Segundo o ministro, as pessoas deveriam se acostumar com uma nova realidade, que teria uma taxa Selic mínima e, como consequência disso, o câmbio internacional ficaria mais valorizado frente ao real, sustentando o crescimento das exportações de commodities. Realmente, o dólar disparou. Quando Jair Bolsonaro assumiu o poder, a moeda americana estava cotada a 3,87 reais, algo distante dos 5,29 reais atuais — o que não acabou sendo uma vitória da previsão de Guedes. Afinal, a taxa de juros, que, desde o início do governo, chegou a cair paulatinamente, acabou precisando sofrer agora reajustes. Com as recentes altas promovidas pelo Banco Central, a Selic se aproxima da taxa herdada do governo de Michel Temer, de 6,5%, e há a sinalização de que os juros devem subir mais 1 ponto percentual na reunião de novembro.

No campo do real, o que se vê é o estresse político afugentando as expectativas de retomada mais robusta de diferentes setores da economia. “Nós não temos nenhuma onda de investimentos se sucedendo a essa crise. E essa mistura de crise política com crise econômica afeta as expectativas, o que sugere postergar qualquer decisão mais significativa de investimentos para quando a sucessão presidencial ficar mais clara”, diz o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio-fundador da consultoria MB Associados. “Sobe os juros e piora automaticamente a avaliação de risco. Todo o crédito fica mais difícil e caro”, complementa.

Empréstimos

Segundo relatório do Banco Central, a taxa anualizada dos juros da linha de capital de giro mais utilizada pelas empresas já chega a mais de 50%. É o caso, por exemplo, do Banco Original, com taxa média de 58,26%. Dentre as principais instituições bancárias, o Santander é quem oferta esse tipo de linha com juros mais altos: 39,06%. Outra linha requerida é a de cheque especial para pessoas jurídicas. Nesse caso, as taxas são costumeiramente assustadoras. A taxa anualizada da estatal Caixa Econômica Federal, por exemplo, é de incríveis 491,6%. Na mesma base de comparação, pode-se dizer que bancos como Bradesco (395,5%), Itaú Unibanco (374,4%) e Santander (366,6%) não perdem por muito.

“O impacto da alta dos juros é negativo no crescimento. Poderia ser positivo desde quando o governo anunciasse medidas que estimulassem a confiança para o futuro, o que não é o caso. Essa incerteza em relação ao que vai ser feito tanto na questão fiscal como monetária afasta investimento e afasta contratações”, diz o consultor Roberto Luís Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira dos Bancos, a Febraban. Para ele, o Banco Central demorou para começar a reajustar a Selic e erra ao fazer as correções a contento. “O Banco Central demorou a reagir e subir os juros. O resultado dessa inércia é fazer mais reajustes por um tempo maior do que o devido”. Mesmo sublinhando que não pretende soar como alarmista, Troster aposta que a taxa Selic possa voltar a vigorar em dois dígitos em 2022, algo que não acontece desde 2017.

Não menos importante que os reajustes na taxa Selic, entrou em vigor, nos últimos dias, as novas alíquotas do IOF (Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio, Seguro ou relativas a Títulos ou Valor Mobiliários) anunciadas pelo presidente Jair Bolsonaro como forma de criar espaço orçamentário para financiar o novo Bolsa Família, em 2022. Na visão de André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton, esse é outro fator a encarecer o crédito para empresas e paralisar a economia no próximo ano. “Subiu o custo do dinheiro e subiram os impostos. Isso tudo deve conspirar para uma atividade mais fraca no ano que vem. Não à toa, os economistas estão revisando o PIB para baixo para 2022. Esse processo deve ser sentido no investimento, por um lado, mas também na demanda para o consumo de bens duráveis, que deve ficar um pouco mais contida”, afirma ele. No mercado, o grupo de economistas que ainda apostam em um crescimento acima de 2% para 2022 é cada vez menor.

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