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Como as empresas se prepararam para a turbulência econômica

Em meio a uma recessão técnica e já acostumadas às instabilidades, empresas estão menos alavancadas do que há seis anos atrás, avalia a Moody's

Por Luana Meneghetti Atualizado em 3 dez 2021, 16h05 - Publicado em 3 dez 2021, 09h11

Vez ou outra o Brasil se depara com uma crise econômica. Diante aos altos e baixos, o entendimento é que as companhias brasileiras já vêm se preparando há algum tempo para os cenários adversos. Em meio a uma recessão técnica oficial e já acostumadas às instabilidades locais, as empresas brasileiras estão preparadas para enfrentar a turbulência dos próximos anos, diz a Moody’s, agência de classificação de risco. A análise da agência se refere às companhias que acessam o mercado de dívida, que emitem bônus ou debêntures, por exemplo.

Embora o cenário não seja nada otimista para o próximo ano, com projeção de inflação em 5% e a taxa básica de Juros (Selic) em 11,25%, o que impacta diretamente na contratação de novos investimentos para o Brasil e consequentemente em menor geração de empregos, e com um país que já conta com 14 milhões de desempregados, as empresas “já fizeram a lição de casa”, tendo aproveitado as quedas na taxa de juros entre 2019 e 2020 para alongarem seus prazos de endividamento. Segundo Bernardo Costa, gerente de classificação da Moody’s, hoje as companhias estão com níveis de alavancagem mais baixos, com posições de caixa mais robustos e cronogramas de amortização das dívidas mais longos, o que tem ajudado a mitigar o efeito do aumento da taxa de juros na capacidade dessas empresas honrarem seus pagamentos.

De acordo com relatório da XP, desde 2015 as empresas do Ibovespa apresentam redução de endividamento superior a sete vezes na dívida líquida/Ebtida. Esse indicador mostra o nível de endividamento da empresa e é interpretado em vezes, que significa quantas vezes a empresa vai precisar multiplicar o caixa para honrar a dívida. Quanto menor, melhor é a saúde financeira da empresa. O mercado considera positivo quando esse indicador não ultrapassa 2 vezes. Em 2019, essa relação foi de 2,5 vezes a dívida/Ebtida, em média, nas empresas que compõem o Ibovespa. A estimativa da Veedha Investimentos é de que fique em 1,48 vez dívida/Ebtida, para este ano, e de 1,57 vez, para 2022.

Na análise da Constância Investimentos, além das organizações do Ibovespa, as duzentas empresas mais representativas da bolsa estão no nível de endividamento mais baixo em dez anos. “A alavancagem hoje é de quase 1/3 de 2015 e metade de 2016”, diz Gustavo Akamine, analista da Constância Investimentos.

Concomitantemente, a partir de 2016, com a queda dos juros e a recuperação das commodities, as margens operacionais (Ebtida) das empresas também saltaram de 12% para 22% em 2019. “De fato, a situação das empresas no Brasil é melhor do que anos atrás, com endividamento baixo e margens (lucro em relação à receita) mais altas”, diz a XP em relatório. Para Rodrigo Moliterno, analista da Veedha Investimentos, as grandes empresas, que possuem mais liquidez, estão preparadas para enfrentar a alta de juros e do dólar, mas as novas e de capital intensivo vão ter mais dificuldades.

A alavancagem é menor tanto em empresas exportadoras, ligadas as commodities, quando nas ligadas à economia interna. André Querne, sócio da Rio Gestão, explica que as empresas de commodites fizeram investimentos pesados no passado e chegaram em 2015 muito alavancadas, em meio um cenário bastante instável, com a alta de juros e a crise que culminou no impeachment da presidente Dilma Rouseff em 2016. Com a retomada gradual da economia, elas recuperaram o fôlego e hoje estão com suas dívidas baixas e forte geração de caixa. “Vale, Gerdau, Petrobras estão nesse bom momento. Até por isso, nós estimamos a Petrobras pagando dividendo de 20% nos próximos anos, por estar sobrando muitos recursos para distribuir aos acionistas”, diz.

Segundo Querne, o processo de taxa de juros baixa no último ano também favoreceu as empresas domésticas na captação na bolsa para o ajuste de suas dívidas. A bolsa vivenciou uma debandada de investidores institucionais e físicos para o mercado acionário no último ano com a queda dos rendimentos na renda fixa. Hoje, o cenário se inverteu. Mas, as empresas estão bem mais preparadas para enfrentar os períodos de turbulência fiscais e pré-eleitorais em comparação com seis anos atrás. Por enquanto, os caixas estão robustos para a maioria delas.

Apesar disso, o gerente da Moody’s alerta que será necessário reverter o cenário. As empresas precisam ter maior visibilidade de inflação e juros baixos no médio e longo prazo, o que não vem acontecendo. No Boletim Focus, a projeção da Selic para 2023 e 2024 rondam a casa de 7%. “É difícil prever um cenário a médio prazo com juros abaixo de 4% e isso é muito prejudicial, porque aumenta o custo de investimento para as empresas e tem consequências em toda a economia”, diz Costa.

Além disso, a desvalorização do real frente ao dólar preocupa. A alta da moeda americana pressiona o endividamento das empresas que possuem custos atrelados ao dólar. As companhias aéreas, por exemplo, possuem 35% dos seus custos e obrigações em dólar e também é um dos setores mais impactados com as restrições da pandemia.

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