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Com inflação e instabilidade fiscal, Copom aumenta Selic para 7,75% ao ano

Ajuste de 1,5 ponto percentual é o mais agressivo desde 2002 e taxa básica de juros chegou ao maior patamar em quatro anos

Por Luana Meneghetti Atualizado em 27 out 2021, 19h31 - Publicado em 27 out 2021, 18h36

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central aumentou em 1,5 ponto percentual a taxa básica de juros (Selic), em sua sexta alta consecutiva. Assim, a Selic que era de 6,25% atinge agora 7,75% ao ano, a maior taxa desde setembro de 2017. Com a decisão desta quarta-feira, 27, esse é o sexto aumento consecutivo da taxa. Uma nova alta já havia sido indicada pelo colegiado na reunião passada, porém, com a inflação passando dos dois dígitos e a deterioração fiscal — após as manobras no teto para bancar o Auxílio Brasil –, o mercado estimava uma alta mais agressiva, o que acabou ocorrendo. 

Apesar do desempenho mais positivo das contas públicas, o Comitê avalia que recentes questionamentos em relação ao arcabouço fiscal elevaram o risco de desancoragem das expectativas de inflação, aumentando a assimetria altista no balanço de riscos. Isso implica maior probabilidade de trajetórias para inflação acima do projetado de acordo com o cenário básico”, disse o colegiado em comunicado, afirmando que pode realizar um novo aumento na mesma magnitude, ou seja, em 1,5 ponto percentual, na próxima reunião.

O Copom não aumentava a taxa de juros em mais de um ponto percentual desde dezembro de 2002, quando elevou a Selic em 3 pontos percentuais de uma única reunião. Na ocasião, a autoridade monetária tentava conter a escalada do dólar e da inflação após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições. Desde março, quando a taxa estava na mínima histórica, de 2% ao ano, o Copom começou o ciclo de alta nos juros, dada a pressão inflacionária generalizada da economia. Porém, com a piora fiscal, a necessidade de intensificar o ritmo da alta ficou mais evidente.

O Comitê entende que essa decisão reflete seu cenário básico e um balanço de riscos de variância maior do que a usual para a inflação prospectiva e é compatível com a convergência da inflação para as metas no horizonte relevante, que inclui os anos-calendário de 2022 e 2023. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”, afirma o colegiado em comunicado. 

Esse comunicado do Copom era um dos  mais aguardados e também mais incertos sobre a decisão em meio às complicações fiscais e da recuperação econômica, ainda lenta. No documento, o comitê chama atenção para a trajetória fiscal, o que segundo analistas é um recado ao governo e ao aumento dos gastos. “O agravamento do quadro fiscal, com possibilidade de furo do teto por conta do aumento com os gastos assistencialistas em 2022 e o impacto futuro que tais medidas terão sobre a inflação, foram fundamentais para a decisão do Banco Central”, afirma Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest. 

Apesar de bastante aguardado pelo mercado, o aumento dos juros tem diversas consequências. Uma delas é para o crescimento da economia, já que a Selic mais alta encarece o custo de capital das empresas e contém o consumo. A projeção do PIB ao final do ano é de 4,97%, menor que a previsão anterior de 5%, e de 1,40% no próximo ano. O ritmo de crescimento deve se manter baixo até 2024, de acordo com o último Boletim Focus.

A alta dos juros também tem efeitos  sobre a dívida pública da União, pois parte desta dívida está indexada à Selic. “Assim, mudanças nos juros impactam o custo de carregamento. Como o país apresenta uma situação fiscal difícil, o risco pode aumentar marginalmente”, analisa a Suno Research.

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O cenário fiscal e o controle da inflação são vistos pelos analistas como um dos principais desafios para o reestabelecimento do superávit primário na estabilização da dívida/PIB. A dívida bruta deve encerrar em 83,3% do PIB neste ano com projeções de que essa relação dívida/PIB aumente nos próximos anos. A projeção do IFI é de 84,8% do PIB em 2022, chegando a 86,2% em 2025. A projeção do Itaú é mais agressiva e já crava 86% do PIB no próximo ano, ante a estimativa anterior de 83,2% do PIB.

A piora no cenário elevou as projeções do Itaú de um IPCA a 9% no fim de 2021, ante a previsão anterior de 8,7%. As projeções da Órama são menos pessimistas, de 8,35%. Segundo a Órama, a interrupção chinesa de compras de carne bovina brasileira fez com que o preço de algumas commodities recuassem. Na mesma tendência, o preço do frango cedeu na primeira metade de outubro. O subgrupo “carnes” é responsável por cerca de 20% do grupo “alimentação no domicílio”, o que mais pesa na cesta do IPCA.  “alimentos não deverão ser motivadores de novas pressões altistas até o fim do ano”, avalia a Órama.

Embora os alimentos possam diminuir a pressão nos preços no curto prazo, a inflação segue influenciada por outros fatores. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 1,20% no mês de outubro, acumulando alta de 10,34% em dose meses. Na segunda-feira, 25, um dia antes da divulgação do resultado do IPCA de outubro, a Petrobras anunciou a realização de um novo reajuste, de 7% no preço da gasolina, e de 9% no diesel. Os aumentos ainda devem refletir nos próximos resultados do IPCA. 

A principal responsabilidade com o BC é em relação a inflação. Com o IPCA já muito distante da meta de 2021, que tem como centro os 3,75% e com teto de 5,25%, o olhar se volta para o controle inflacionário no próximo ano. Em 2022, a meta é de 3,5% ao ano, com um limite de 5%. Segundo o último Boletim Focus, a estimativa para o IPCA no próximo ano está em 4,4%, se aproximando do teto da meta. “Esse aumento sinaliza o posicionamento do BC, de aperto monetário mais forte, visto que as sucessivas altas de 1 ponto percentual não surtiram efeito esperado na inflação, os preços não arrefeceram. Espera-se que com esse aumento a inflação volte a patamares mais controlados, mas muitos temas ainda podem fazer pressão sobre a inflação, como a questão fiscal e a permanência de equipe econômica”, Davi Lelis especialista da Valor Investimentos.

Instabilidade política

O Brasil poderia sentir menos esses efeitos com a entrada de investidores estrangeiros em momento de alta da Selic. A alta de juros no Brasil, frente às taxas próximas de zero em muitos países, torna os ativos brasileiros mais atrativos para o investidor estrangeiro. Com a maior entrada de mais dólares na economia, o real se valoriza ante o câmbio e diminui as pressões inflacionárias. Mas os riscos fiscais e as instabilidades políticas vêm afugentando os investidores estrangeiros.

Na semana passada, após as notícias sobre o rompimento do teto, o câmbio foi acima de 5,70 reais. Na avaliação do mercado, o dólar deve encerrar o ano em 5,40 reais, anteriormente a projeção rondava a casa de 5,20 reais, uma desvalorização de 3,9% da moeda brasileira, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O Banco Central tem atuado intervindo no mercado de câmbio por meio leilões de swap cambial tradicional e de reservas físicas para conter a alta e diminuir a volatilidade. 

Os rumos da política monetária nos Estados Unidos também devem ditar os rumos da economia por aqui. Com a sinalização do Fed para iniciar o processo de tampering em novembro, redução gradual de compra de ativos, a esperança de uma melhora no cenário econômico pela via de o “Brasil se tornar mais atrativo aos investimentos estrangeiros” vai por água abaixo. Inclusive, com o aumento por lá deve ocasionar fuga de capital de países emergentes como o Brasil, levando a novas desvalorizações no real e mais pressões inflacionárias. Assim, a única saída no momento é continuar os aumentos na taxa de juros. 

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