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Com Haddad fora, Durigan assume a Fazenda com desafio de evitar novas turbulências

Sob desconfiança do mercado, novo chefe da pasta do governo Lula tem a missão de conter a deterioração fiscal

Por Juliana Elias Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 mar 2026, 06h00 | Atualizado em 20 mar 2026, 11h05
Com Haddad fora, Durigan assume a Fazenda com desafio de evitar novas turbulências Priorize VEJA no Google

Há duas certezas sobre quem comandará a economia nos últimos meses do governo Lula 3. A primeira: não será Fernando Haddad. Ministro da Fazenda desde o início do mandato, ele deixa o cargo para cumprir a legislação eleitoral, que obriga pré-candidatos a se afastarem das funções públicas seis meses antes da disputa — Haddad atende à convocação de Lula, de ocupar os palanques de São Paulo na corrida pelo governo estadual. A segunda certeza: o sucessor de Haddad herdará um quadro fiscal deteriorado e de alto risco. Caberá ao novo ministro administrar um desequilíbrio entre receitas e despesas cuja correção vem sendo postergada e tende a ser empurrada até o limite, com potencial de explodir no próximo ciclo de governo — seja ele comandado por Lula, seja comandado por seu adversário nas urnas. Como se não bastasse, o substituto ainda terá de lidar com a perda de fôlego da atividade econômica e tentar fazer com que indicadores favoráveis, como o desemprego em mínimas históricas e um ganho de renda, se convertam, de fato, em melhora na percepção da população sobre o governo.

arte Duringan

Esse é o conjunto de variáveis que deve cair no colo de Dario Durigan, nome escolhido por Haddad para sua sucessão. Durigan chegou ao governo em junho de 2023 e, desde então, vinha ocupando a secretaria-­executiva da Fazenda, o posto imediatamente abaixo do ministro, de onde acompanhou de perto a formulação e a execução da política econômica. A escolha segue a lógica da hierarquia e sinaliza continuidade, sem espaço para guinadas — algo que pode ser lido como virtude ou limitação, a depender do ponto de vista. “É um período de transição e, com a experiência que acumulou nesses três anos, o Dario saberá como operar a Fazenda”, diz Felipe Salto, economista-chefe da gestora Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda de São Paulo. A continuidade, no entanto, também reduz as expectativas de avanço na agenda fiscal. “O fiscal é o grande problema econômico do país e o medo é que, em um ano eleitoral, isso piore”, afirma o economista Márcio Garcia, professor da PUC-Rio.

Embora conte com o respaldo de quem o conhece de perto, Durigan chegará ao cargo sob desconfiança fora de seu círculo e diante de um quadro econômico desafiador. “O país tem uma fragilidade fiscal relevante, com déficits primários e nominais e uma dívida alta e crescente”, afirma Salto. O desequilíbrio das contas públicas é, sem dúvida, uma das principais heranças de Haddad. Apesar de ter conduzido avanços importantes — como a aprovação da reforma tributária em 2023 —, o ministro não conseguiu cumprir a promessa de reequilibrar as finanças. Desde o início do governo, as despesas cresceram quase 16% acima da inflação, enquanto a dívida bruta subiu de 71,7% para perto de 80% do PIB, um nível característico de períodos de choque severo, como guerras ou pandemias. Até então, só em 2020, no auge da crise sanitária, o indicador havia atingido ponto semelhante.

Campanha petista aposta no debate da segurança pública para atrair o eleitorado preocupado com criminalidade
MISSÃO POLÍTICA - Fernando Haddad: a pedido de Lula, ministro deixa o cargo para concorrer ao governo de São Paulo (Arthur Menescal/Bloomberg/Getty Images)
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A pressão sobre as contas públicas ajuda a manter os juros em níveis elevados, realimenta a inflação e corrói o capital político do próprio Lula. Na quarta-feira 18, o Banco Central iniciou um ciclo de afrouxamento e reduziu a taxa básica de juros, a Selic, pela primeira vez em dois anos, para 14,75%. Ainda assim, o número segue muito distante de um nível compatível com uma economia mais equilibrada. Segundo especialistas, em um cenário fiscal mais sólido, os ganhos recentes poderiam ter maior impacto político. O desemprego, hoje perto de 5%, está no menor nível da série histórica e a renda segue em alta. Esses avanços, porém, não têm se convertido em melhora na avaliação do governo. Uma pesquisa feita pela Genial/Quaest divulgada no início de março mostrou que a desaprovação do governo voltou a subir, alcançando 51%, enquanto a percepção econômica permaneceu negativa: 48% dos entrevistados disseram que a situação do país piorou e 64% afirmaram consumir menos que há um ano. “Os avanços econômicos são insuficientes”, diz o cientista político Paulo Ramirez, professor da ESPM e da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “É como se tivesse dado para servir a picanha só de entrada, mas não como prato principal”, acrescenta Ramirez, em referência à pitoresca promessa de Lula na campanha de 2022, quando disse que faria o brasileiro comer a nobre proteína com fartura novamente.

DESCONFIANÇA - Aprovação do arcabouço fiscal pela Câmara em 2023: regras caíram em descrédito
DESCONFIANÇA - Aprovação do arcabouço fiscal pela Câmara em 2023: regras caíram em descrédito (Lula Marques/Agência Brasil)

Símbolo recorrente do debate econômico, as carnes encareceram 12% desde o início do atual mandato, em 2023. Para este ano, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes projeta consumo doméstico de 7,6 milhões de toneladas, ou 6% abaixo do pico observado em 2024, quando se aproximou de 8 milhões. A combinação de preços elevados, juros nas alturas e aumento da carga tributária ajuda a explicar por que indicadores positivos não se traduzem em sensação de melhora. “A percepção das pessoas é de que o governo está desconectado da realidade, porque o que elas enfrentam no dia a dia é diferente do que os números sugerem”, diz José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos. A verdade é que não há, no mercado financeiro ou em Brasília, quem aposte em soluções milagrosas no apagar das luzes de um governo em ano eleitoral, ainda mais sob a condução de um ministro de caráter transitório. “Ficam os questionamentos sobre se as regras fiscais continuarão a ser seguidas ou se o novo ministro terá a mesma musculatura política de Haddad para construir acordos”, diz Cristina de Mello, economista da PUC-SP.

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Colegas de Durigan que conviveram com ele na Fazenda descrevem um profissional já adaptado à rotina da política econômica após três anos ao lado de Haddad, e com capacidade de transitar também no terreno político. “Ele tem vigor acadêmico, compromisso político-social e grande capacidade de diálogo”, afirma Marcelo Neves, professor de direito público da Universidade de Brasília e orientador de seu mestrado em Estado e Constituição. Neves o define como “um social-democrata, de centro-esquerda, mas pragmático”. Na dissertação “Desobediência Democrática no Brasil”, Durigan analisou episódios como a greve dos caminhoneiros de 2018 para sustentar que formas de contestação popular podem funcionar como instrumento de acesso a direitos em um país onde a legislação muitas vezes falha em garanti-los. “A desobediência à brasileira mira menos as liberdades clássicas e mais as precárias condições econômicas e sociais em que parcela da população vive”, escreveu Dario Durigan.

Embora não seja, em tese, uma atribuição formal do secretário-executivo — cargo mais voltado para a coordenação interna das secretarias e para a gestão cotidiana do ministério —, Durigan assumiu em diversos momentos um papel ativo na articulação política das principais agendas da Fazenda. Isso envolveu tanto a interlocução com outras áreas do governo, como a Casa Civil, quanto a negociação com as cúpulas da Câmara e do Senado. Projetos relevantes, como a reforma tributária do consumo e a proposta de taxação das rendas altas, contaram com sua atuação desde a formulação técnica até a construção de apoio no Congresso.

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CADÊ A PICANHA? - Açougue: o consumo de carne caiu no Brasil
CADÊ A PICANHA? - Açougue: o consumo de carne caiu no Brasil (Adriano Vizoni/Folhapress/.)

Durigan não é filiado ao PT, embora tenha se integrado com rapidez às gestões do partido. Aos 41 anos, construiu uma trajetória técnica e de baixa exposição pública. Formado em direito pela USP, fez carreira nos bastidores do setor público, onde atuou como assessor jurídico da Casa Civil de 2011 a 2015 e, na sequência, integrou a equipe de Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo, em 2015 e 2016. Depois, passou pela Consultoria Jurídica da União, de 2017 a 2020. Mais recentemente, antes de chegar à Fazenda, migrou para o setor privado e assumiu a diretoria de políticas públicas da Meta no Brasil, de 2020 a 2023.

A relação de confiança construída ao longo dos anos abriu caminho para que Haddad o convidasse a assumir a secretaria-executiva da Fazenda no governo Lula. “Não sei se o Dario é um petista, mas certamente é um ‘haddadista’”, resume um ex-colega dos tempos de prefeitura. Naquele período, Durigan chegou a participar da iniciativa “Voto no Haddad, me pergunte por quê”, que promovia encontros e distribuía materiais para defender o prefeito. “Dario sempre foi um profissional respeitado pela seriedade com que trata temas regulatórios e pela forma de conduzir o diálogo institucional”, afirma o consultor Fernando Gallo, ex-responsável por políticas públicas do Twitter no país.

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RECORDE - Carteira de Trabalho: o desemprego está nas mínimas históricas
RECORDE - Carteira de Trabalho: o desemprego está nas mínimas históricas (Aloisio Mauricio/Fotoarena/Ag. O Globo/.)

Agora, mais do que imprimir uma marca própria, caberá a Durigan administrar uma economia pressionada, com margem de manobra estreita e novos riscos no horizonte. A piora do panorama internacional — com o aumento das tensões geopolíticas — adiciona uma camada de complexidade que Haddad mal chegou a enfrentar e que tende a cair integralmente em seu colo. Mas o problema não vem só de fora. No front doméstico, o risco de uma nova greve de caminhoneiros volta a rondar o país. Haddad se despede do cargo em meio a esse emaranhado de pressões, deixando pouco espaço para ajustes. Nesse quadro, a missão de Durigan será evitar que a situação se agrave mais. O pano de fundo também não ajuda: a economia perdeu fôlego no ano passado, especialmente no segundo semestre, e deve crescer menos ainda em 2026, sem o impulso do agronegócio que sustentou a atividade em ciclos recentes. Em ano eleitoral, a equação se torna mais complexa, com o governo propenso a adotar medidas que agravem o desequilíbrio fiscal. A rigor, o desafio de Durigan começou antes mesmo de ele assumir o cargo.

Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987

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