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Com efeito-Trump, mundo vive ‘desglobalização’ e ‘reglobalização’ ao mesmo tempo

Enquanto as tarifas crescem em todos os cantos, as exportações batem recorde e os países retomam acordos comerciais em busca de novos mercados

Por Juliana Elias Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 jul 2026, 08h04 | Atualizado em 18 ago 2026, 17h26
Com efeito-Trump, mundo vive ‘desglobalização’ e ‘reglobalização’ ao mesmo tempo Priorizar nos meus resultados Google

A mais nova tarifa anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – uma taxa adicional de 10% a 12,5% sobre as importações de 60 países, Brasil incluso, acusados de trabalho forçado pelo governo americano – se soma e confirma uma tendência de que Trump talvez seja apenas o pedaço mais vistoso, mas certamente não o único: o aumento gradativo das medidas de protecionismo no mundo.

Elas fazem parte de um freio, a partir da década passada, na forte onda de globalização a que o planeta assistiu na segunda metade do século 20 e que teve seu auge nos anos de 1990. Foi naquela década que os grandes blocos econômicos, como a União Europeia e o próprio Mercosul, se consolidaram, os acordos de livre comércio se multiplicaram, as grandes multinacionais espalharam filiais pelo mundo todo, em busca dos sítios mais baratos, e os fluxos comerciais entre os países atingiram níveis sem precedentes.

A desglobalização

Tudo isso pareceu estancar da grande crise financeiro de 2008 em diante e, em especial, frente ao avanço avassalador, naquela década, da China e seus produtos extraordinariamente baratos, o que gestou um competidor às indústrias nacionais de uma força e um tamanho que nunca se havia visto antes.

Um jeito bem simples de medir esse processo de “desglobalização” que tomaria o planeta é o tamanho da corrente de comércio global, quer dizer, o total de mercadorias exportadas e importadas por todo o mundo: depois de crescer ininterruptamente por três décadas até atingir o equivalente a 51% do PIB global em 2008, essa corrente estancou e só andaria de lado dali para frente. Os dados são do Banco Mundial.

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O efeito China levou os países a começarem a buscar proteção às suas indústrias nacionais. A situação só piorou depois da pandemia, em 2020, quando uma sucessão de choques nos fluxos internacionais deixou todos que dependiam de alguma importação desabastecidos. É uma agenda de instabilidade geopolítica que, além dos rompimentos nas entregas da indústria causados pela própria pandemia, incluíram ainda a guerra da Ucrânia, em 2022, e a do Irã, deflagrada em fevereiro deste ano.

São eventos que acenderam uma corrida pela internalização de ao menos parte das indústrias de fornecedores que haviam sido terceirizadas para fora. As duas eleições de Trump e de sua retórica de guerra comercial, em 2016 e 2024, tanto quanto outros eventos históricos recentes, como a saída do Reino Unido da União Europeia em 2016, foram mais consequência do que causa desse desinteresse pela integração internacional.

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A reglobalização

O retorno de Trump à Casa Branca e o choque de seus tarifaços, entretanto, parecem ter criado uma miscelânea de tendências na integração global: ao mesmo tempo em que as ofensivas protecionistas seguem crescendo e se espalhando, há diversos sinais também de que os países estão, desde o ano passado, sedentos por encontrar outros caminhos por onde se reintegrar.

Os dados da Organização Mundial de Comércio (OMC) mostram, por exemplo, que o volume total de mercadorias exportadas em todo o mundo no ano passado cresceu 4,7%, uma considerável aceleração em relação a 2024, quando a alta foi de 2,9%. Foi também o maior aumento anual registrado desde 2010, atrás apenas de 2021, quando o resultado ficou distorcido por conta dos efeitos da saída da recessão global da pandemia em 2020. A taxa média de crescimento anual das exportações globais desde 2010 é de 2,2%.

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‘Boom’ de livre comércio

Há outro efeito que também ganhou um impulso notório a partir de 2025, e não por coincidência depois de Trump começar a retaliar todo o mundo com tarifas sobre as suas exportações para os Estados Unidos: a retomada dos acordos de livre comércio, conforme mostrou reportagem recente de VEJA. O Brasil, por meio do Mercosul, está dentro desta tendência. O acordo do bloco com a União Europeia, finalmente concluído e assinado em janeiro deste ano depois de 27 anos de tentativas, é só o maior e mais simbólico deles.

Também neste ano, o Mercosul já concluiu e assinou dois outros dois acordos que estavam igualmente parados parados na gaveta e agora estão concluídos e prontos para começar a valer: com Singapura e com o Efta (Associação Europeia de Livre Comércio), bloco formado por Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein. Ambos tinham começado a ser negociados ainda em 2018. Para se ter uma ideia, desde 2011 o Mercosul não assinava um acordo de livre comércio como esses. São acordos que zeram ou reduzem as tarifas de tudo o que é exportado de um país para o outro, entre os signatários.

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Canadá, Coreia do Sul e Japão são outros acordos que também estavam na gaveta e estão sendo tirados dela agora para que as negociações sejam retomadas. Todos eles começam agora a andar porque, do outro lado, estão encontrando também parceiros mais dispostos a colocar sua assinatura sob termos que, por muitos anos, pareceram impossíveis de se tornar consensuais.

“Há uma nova janela de acordos comerciais se abrindo”, diz Lucas Ferraz, que atuou nas negociações do Mercosul quando foi secretário de Comércio Exterior do Ministério da Economia, de 2019 a 2022, e hoje é coordenador do Centro de Negócios Globais da Fundação Getulio Vargas. “Até pouco tempo atrás, se falava apenas de eficiência, mas a geopolítica também entrou na jogada. Há uma busca maior por segurança econômica e por alternativas, em especial dos países mais expostos à China e aos Estados Unidos.”

Do outro lado do Atlântico, a União Europeia também tirou o pó e resolveu colocar para funcionar acordos que estavam travados com vários outros parceiros. Além do acordo com o Mercosul, que começou a ser negociado entre os dois blocos em 1999, o bloco europeu também assinou, só neste ano, novas contratos de livre comércio com a Austrália, a Indonésia e a Índia – outro parceiro com que, à exemplo do que aconteceu com o Mercosul, as tratativas se arrastavam há vinte anos sem consenso.

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Ferraz, da FGV, explica que o maior levantamento de barreiras comerciais acontece, de um lado, como uma espécie de política pontual dos diversos países para se proteger de importações predatórias, em especial da China. Para além de Trump, os próprios europeus estão entre os países que recentemente também elevaram seus impostos de importação sobre produtos como carros elétricos, aço e aqueles de pequeno valor importados diretamente pelos consumidores por meio de plataformas como Shein e Shopee.

“São países que estão muito expostos à China e que passaram a implementar uma proteção tarifária para diminuir essa dependência e estimular a produção local”, diz Ferraz. Do outro lado, afirma ele, bloqueados de entrar nos Estados Unidos pela série de novas tarifas exorbitantes que Trump passou a aplicar, os mesmos países se viram insuflados a buscar novos destinos com que negociar. Daí a desenterrar todos os acordos bilaterais que estavam até então em segundo plano foi um pulo.

“Há, pontualmente, essas elevações de tarifas e de subsídios para estimular setores internos, mas isso não isso significa que mudou a busca desses países pelo livre comércio e a percepção desses de que a abertura comercial é boa”, disse Ferraz. “É que agora eles estão buscando aqueles com que possam negociar diretamente, numa tentativa de reduzir as suas vulnerabilidades.”

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