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Com Brexit sem acordo, Reino Unido parte para tratados bilaterais

Assinatura com o Japão marca estratégia para desviar a atenção da quebra da legislação na saída da União Europeia

Por Luisa Purchio 11 set 2020, 19h02

Nesta sexta-feira, 11, o Reino Unido fechou o seu primeiro acordo comercial após o Brexit, sinalizando que a saída do país do bloco europeu caminha para um divórcio sem acordo. A parceria foi firmada entre Motegi Toshimitsu, ministro das Relações Exteriores do Japão, e Liz Truss, ministra do Comércio Internacional do Reino Unido. Em comunicado, ela comemorou a parceria fora do âmbito da União Europeia, sinalizando que esse é o primeiro de muitos acordos bilaterais. “Para a Grã-Bretanha, este acordo é um sinal, e sinal que estamos de volta como uma nação comercial independente. Quando deixamos a União Europeia, o fizemos com a promessa de olhar muito além de nossas próprias costas e fechar acordos comercias abrangentes com amigos e aliados com ideias semelhantes”, disse em comunicado. “É o nosso primeiro acordo como nação comercial independente e oferece uma ideia do que podemos alcançar fora da EU.” O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, por sua vez, comemorou em seu Twitter: “Retomamos o controle da nossa política comercial e continuaremos a prosperar como nação comercial fora da EU”.

O objetivo da parceria é aprimorar o relacionamento comercial entre o Japão e a Grã-Bretanha, que no ano passado significou mais de 30 bilhões de libras esterlinas em transações. Entre as medidas previstas, estão ampliar os produtos isentos de tarifas e a proteção a produtos tipicamente ingleses como cordeiro galês, vinho espumante e o queijo “Yorkshire Wensleydale”. Para especialistas ouvidos por VEJA, o impacto desse acordo na economia da União Europeia é mínimo porque adiciona apenas 0,07% ao PIB do Reino Unido, e ele teria sido feito firmado para desviar a atenção do mundo sobre a quebra da legislação internacional por parte da Grã-Bretanha, que deseja modificar cláusulas presentes no Brexit. “É um espetáculo secundário, um ato para desviar a atenção das negociações que vão mal”, diz Matt Qvortrup, professor de ciência política da Universidade de Oxford. De acordo com ele, a violação da lei internacional tem sido considerada ultrajante mesmo por políticos conservadores que apoiam o Brexit. Ontem mesmo Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, disse que a instituição não ratificaria um acordo comercial com um país que quebra tratados. “Esse acordo com o Japão foi anunciado para salvar sua imagem. É muito simbólico e um sinal do desespero do governo britânico”, disse Qvortrup.

No comunicado, Liz Truss reafirmou o desejo da Grã-Bretanha de se aproximar dos países que fazem parte do Tratado do Trans-Pacífico. “Na prática, isso significa que o país está saindo de um casamento com a União Europeia para manter vários relacionamentos com outros países”, diz Paulo Roberto de Almeida, diplomata e professor universitário. “Durante 500 anos a maior zona econômica de todas as transações internacionais foi o norte-atlântico. Agora, a partir do século XXI, toda a zona pacífica vai dominar o maior volume de investimentos, tecnologia e serviços”, diz ele. Mesmo que após o Brexit a Grã-Bretanha possa firmar acordos bilaterais com diversos países, a saída da União Europeia ainda é complicada porque o impasse sobre a falta de uma fronteira entre a Irlanda do Norte, que pertence ao Reino Unido, e a República da Irlanda, que pertence a União Europeia, ainda não se resolveu.

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