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Com aumento do uso do milho como fonte de etanol, produção no Brasil dá um novo salto

Trata-se da uma ampliação na vantagem nacional em biocombustíveis

Por Bruno Andrade Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 27 jun 2026, 08h00
Com aumento do uso do milho como fonte de etanol, produção no Brasil dá um novo salto Priorizar nos meus resultados Google

Desde que se tornou um símbolo de inovação nacional, nos anos 1970, o etanol brasileiro esteve associado quase exclusivamente à cana-de-açúcar. Essa lógica começou a mudar nos últimos anos. Graças aos avanços tecnológicos do agronegócio, o milho se converteu em uma fonte competitiva de biocombustível e passou a ocupar espaço estratégico no setor energético. Antes restrito principalmente à alimentação animal e à indústria, o grão ganhou um novo destino nas usinas de etanol, como mostram dados do Balanço Energético Nacional. No mercado de combustível hidratado, vendido diretamente nos postos, a participação do etanol de milho aumentou de 13% para 24% nos últimos quatro anos. O avanço acompanha o crescimento da produção: a safra brasileira de milho, que há duas décadas era inferior a 50 milhões de toneladas, deve superar 130 milhões de toneladas na safra de 2025-2026, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento. Esse movimento também transformou a geografia dos biocombustíveis. Antes concentrada em regiões próximas às áreas tradicionais de cana, a indústria passou a acompanhar a força agrícola do Centro-Oeste, onde a oferta de milho e a infraestrutura da produção de grãos criaram condições para a instalação de novas usinas.

Infográfico sobre a produção de etanol de milho no Brasil. O gráfico de linha mostra a produção de 1,6 bilhão de litros em 2019/2020 para 8,2 bilhões em 2024/2025. O crescimento em cinco anos é de 412%. A participação no etanol brasileiro é de cerca de 24%. Há mais de 25 unidades em operação. O mapa do Brasil destaca Mato Grosso como principal estado produtor

O avanço está diretamente ligado à transformação da agricultura brasileira. A criação da segunda safra de milho, conhecida como safrinha, período em que o grão é cultivado após a colheita da soja no mesmo ciclo agrícola, impulsionada por sementes mais eficientes, máquinas modernas e novas técnicas de cultivo, aumentou a oferta e criou novas oportunidades de uso. O modelo ganhou força principalmente no Centro-Oeste, onde a soja é plantada no início do ciclo e colhida no começo do ano, abrindo espaço para o cultivo do milho na sequência. Segundo Edwal Portilho, presidente da Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás, esse sistema elevou a produtividade da safrinha em 50% atualmente, na comparação com 2021. O aumento permitiu tirar mais grãos das terras sem depender da abertura de novas áreas, fortalecendo uma cadeia que passou a buscar novos mercados. “Assim, o que era uma cultura complementar passou a se tornar uma das principais engrenagens do agronegócio brasileiro”, afirma Portilho.

A vantagem está na eficiência energética da matriz de biocombustíveis: quando somadas as cadeias da cana e do milho, o Brasil apresenta alta produtividade e mantém competitividade internacional. “Do ponto de vista econômico, as duas cadeias se complementam”, diz Adenauer Rockenmeyer, do Conselho Regional de Economia de São Paulo.

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SAFRINHA - Colheita na fazenda: ganhos com o avanço da produtividade
SAFRINHA - Colheita na fazenda: ganhos com o avanço da produtividade (Marcos Vergueiro/Secom-MT/.)

Durante anos, o país ficou atrás dos Estados Unidos na produção de etanol de milho, principalmente pela escala e pela maturidade da indústria americana. Essa diferença começou a diminuir com a adoção de sementes geneticamente modificadas e a adaptação do cultivo para a entressafra da soja, aumentando o rendimento brasileiro. O etanol brasileiro exportado para os Estados Unidos ainda é principalmente o de cana, que tem uma eficiência energética superior. A disputa de mercado entre os dois países também envolve tarifas, com Washington questionando a entrada do nosso combustível, enquanto o Brasil argumenta que a tributação interna mais alta exige mecanismos de equilíbrio.

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Essa briga comercial não interfere no bom momento do etanol de milho, negócio que passou a atrair grandes investidores. Um dos exemplos é a Inpasa, grupo do Paraguai que se tornou o maior produtor da América Latina. O movimento também é impulsionado pela dinâmica do mercado de açúcar. Com a maior rentabilidade do adoçante, parte das usinas prioriza essa produção em determinados momentos, abrindo espaço para uma fonte alternativa de etanol. Mesmo com a recente acomodação dos preços do petróleo, a expectativa de instituições financeiras como o banco Goldman Sachs é de que a cotação permaneça acima dos níveis registrados no início de 2026, mantendo a competitividade dos biocombustíveis. “O que estamos vendo é a construção de uma matriz de etanol mais diversificada, resiliente e conectada à expansão agrícola do Centro-Oeste”, afirma Rafael Chaves, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas. Aliás, a cana mantém a liderança, com 700 milhões de toneladas produzidas por ano. Em meio à transição energética e à busca de alternativas aos combustíveis fósseis, a combinação das duas culturas fortalece a segurança do país, reduz a dependência de uma única cadeia produtiva e amplia a competitividade da economia.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

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