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Com abertura prevista para setembro, Cine Marquise firma acordo com Dolby

Sala principal do espaço será equipada com tecnologia de ponta em som e vídeo; complexo funciona no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista

Por Felipe Mendes Atualizado em 14 jul 2021, 12h43 - Publicado em 14 jul 2021, 09h21

Tradicional complexo cultural em São Paulo, o Conjunto Nacional receberá em breve um novo ponto de encontro para os cinéfilos. Vizinho à Livraria Cultura, o Cine Marquise deve abrir as portas em setembro onde o Cinearte ficou instalado por décadas. Com uma das maiores salas de cinema de rua do país – são 313 lugares –, o espaço acaba de firmar uma importante parceria com a Dolby: será o maior centro de inovação e treinamento da multinacional para o desenvolvimento de soluções tecnológicas de som e vídeo para o mercado exibidor na América Latina.

Com operação encerrada em fevereiro de 2020, antes que a pandemia de Covid-19 chegasse ao país, o espaço voltará a funcionar sob a gestão da Tonks, empresa de consultoria e análise, responsável pela publicação da revista Exibidor e pela realização da convenção Expocine, um dos principais eventos da indústria cinematográfica. Embora não tenha reaberto para o público ainda, uma unidade franqueada da rede de cafeterias Cheirin Bão, também administrada pela Tonks, já está funcionando no mesmo espaço em que se encontrava a bilheteria do antigo cinema. Enquanto isso, a companhia tem feito os últimos ajustes para a reabertura das duas salas de exibição do complexo: uma com capacidade para receber 313 pessoas e a outra, mais privativa, para 82.

CEO da Tonks e diretor do Cine Marquise, Marcelo Lima conta que o grupo já estava procurando um cinema de rua há pelo menos uma década. O fechamento do Cinearte, então, surgiu como uma oportunidade. “A gente queria transformar o local em um espaço de treinamento para os outros cinemas. Quando recebemos a notícia do fechamento do Cinearte, resolvemos procurar o proprietário do prédio para saber se estava disponível”, revela o executivo. Outro objetivo com a aquisição é ampliar o alcance da Expocine. “Só que apareceu a pandemia e isso assustou os proprietários. Mesmo assim, fomos insistindo até que assumimos oficialmente o espaço em outubro de 2020.”

Lima externa que os planos para o desenvolvimento do negócio são baseados em três pilares. O primeiro deles, claro, é a arrecadação por meio da venda de ingressos e festivais de cinema. O segundo, por sua vez, é oferecer uma alimentação que vá além de pipoca e refrigerante: haverá uma bomboniere com cervejaria no complexo, além da cafeteria. Outro pilar importante será a utilização do espaço para a realização de eventos corporativos. “Vamos brigar, no bom sentido, para ocupar o cinema das 7 da manhã até meia-noite”, afirma. “Por meio dessa parceria com a Dolby, nós vamos entrar com tecnologia de ponta, utilizando a nossa maior sala também como um showroom para o mercado de cinema, para treinamentos, encontros e tudo mais.”

Sem abrir mais detalhes das negociações, o executivo conta que almeja fechar cinco cotas de patrocínio. “A gente tem customizado as contrapartidas de acordo com o interesse das marcas, podendo ser os direitos de nome (naming rights, em inglês) das salas, passando por um espaço dentro do cinema, alguma ação publicitária ou interação nos auditórios”, afirma. Ele revela que o foco das negociações tem sido com empresas privadas, mas não descarta parcerias com estatais. Antes de encerrar a operação, o Cinearte era patrocinado pela Petrobras, ao passo que a Caixa manteve parceria com outro cinema de rua tradicional em São Paulo, o Belas Artes. Mas, com a troca no governo, as estatais foram aconselhadas pelo governo a retirarem o apoio cultural, o que causou problemas ao fluxo de caixa dos estabelecimentos. “Queremos firmar um relacionamento de longo prazo com as empresas, para que as parcerias não sejam momentâneas”.

Projeto Cine Marquise
Projeto de arquitetura das áreas comuns do Cine Marquise, em fase final de obras no Conjunto Nacional –  Carolina Klingelfuss/Divulgação

Quem visita o espaço pode estranhar a ausência de uma das principais coisas para o funcionamento de um cinema: a bilheteria. Profundo conhecedor do mercado, Lima admite estar fazendo uma aposta ousada. O Cine Marquise não terá um espaço dedicado para a venda de bilhetes para os filmes. Os ingressos para as sessões poderão ser adquiridos por meio de totens de autoatendimento espalhados no espaço ou junto a bomboniere. “Não é uma solução largamente utilizada no Brasil, mas que é bastante difundida na Oceania e a na Ásia. Estamos aposentando de vez a bilheteria. Assim, compra-se os ingressos e os itens de alimentação num lugar só.”

Para financiar o término das obras, o Cine Marquise lançou uma campanha no portal Catarse. A meta da empresa é arrecadar 500 mil reais, mas somente cerca de 7 mil reais foram levantados até o momento. Pelo apoio, cada cinéfilo pode garantir regalias como kit de ingressos, vale-pipoca e até ter seu nome gravado em placa de aço fixada na entrada do cinema. Questionado se o avanço dos streamings pode ser prejudicial para a recuperação do público no mercado exibidor brasileiro, Lima se mostra confiante. “O pessoal vai voltar para o cinema. Isso está claro. O receio de que os streamings possam acabar com os cinemas não existe. Ficou provado que lançar o filme no streaming é ruim para o próprio dono do filme”, diz. Hoje, segundo levantamento da consultoria Comscore, 586 cinemas e 2.462 salas estão operando normalmente – isso corresponde a cerca de 70% das mais de 3,5 mil salas do país.

A inflação sobre a energia elétrica e a valorização do dólar são fatores que podem, segundo Lima, encarecer o valor médio do ingresso no país. Com isso em mente, o executivo prega pelo fim da meia-entrada em eventos culturais. “A meia-entrada já ficou difundida de tal forma que só trouxa não paga. É uma lei que ninguém fiscaliza. Hoje, não faz mais sentido ela existir”, afirma. “Se a meia-entrada acabar, o preço do ingresso despenca entre 30% e 35%, pelo menos.” Um projeto que prevê a extinção do benefício tramita no Congresso.

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