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China desafia o gelo, a Rússia e os EUA com uma nova rota para a Europa

Caminho entre China e Europa promete reduzir pela metade o tempo de viagem

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 ago 2026, 14h22 | Atualizado em 18 ago 2026, 14h24
China desafia o gelo, a Rússia e os EUA com uma nova rota para a Europa Priorizar nos meus resultados Google

A China está testando uma alternativa que pode mudar a geografia do comércio entre a Ásia e a Europa.

A nova ligação marítima atravessa o Ártico, passa pela costa norte da Rússia e chega ao Reino Unido. A promessa é reduzir de cerca de 40 para 20 dias o tempo de transporte entre os dois mercados.

O movimento ganha importância em um momento em que as principais rotas tradicionais estão mais vulneráveis.

Os conflitos no Oriente Médio elevaram os riscos no estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela relevante do petróleo e do gás comercializados no mundo, e no Bab el-Mandeb, porta de entrada do mar Vermelho e acesso ao Canal de Suez.

A nova rota chinesa, porém, está longe de substituir Suez. Ela é sazonal, depende das condições do gelo e passa por uma área sob controle russo.

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Mais do que uma revolução imediata no comércio mundial, o projeto representa uma aposta de Pequim em uma rota alternativa e, ao mesmo tempo, amplia a presença chinesa em uma das regiões mais estratégicas do planeta.

Uma viagem que pode cair de 40 para 20 dias

A rota anunciada pela empresa chinesa Sea Legend começa em Ningbo, no litoral leste da China, segue para o norte, entra no Oceano Ártico pela costa russa e depois desce em direção ao norte da Europa, com destino final em Felixstowe, na Inglaterra.

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O trajeto foi testado pela companhia em outubro de 2025. Segundo informações divulgadas pela agência estatal chinesa Xinhua, a viagem levou cerca de 20 dias.

A comparação ajuda a explicar o interesse. Um navio que utiliza o Canal de Suez pode levar aproximadamente 40 dias no percurso entre China e Europa. Pelo sul da África, contornando o cabo da Boa Esperança, a viagem pode chegar a 50 dias.

A economia de tempo pode ser especialmente interessante para cargas de maior valor ou que dependem de prazos mais curtos, como baterias de lítio e equipamentos solares.

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Mas há uma diferença fundamental: o Ártico não oferece uma rota disponível o ano inteiro nas mesmas condições.

O que está por trás da nova rota

A chamada Rota da Seda do Gelo utiliza a Rota Marítima do Norte, corredor que acompanha a costa ártica da Rússia.

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Moscou controla o acesso à passagem e exige autorização para a navegação. A administração da rota está ligada à Rosatom, estatal russa responsável pelo setor nuclear.

Isso cria uma situação peculiar. A China, que busca reduzir sua dependência de rotas tradicionais, passa a depender de uma infraestrutura marítima localizada sob influência direta da Rússia.

A aproximação entre os dois países ganhou força desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022. Sob sanções ocidentais, Moscou passou a buscar alternativas para ampliar suas relações comerciais com a Ásia, enquanto Pequim aumentou sua participação econômica no Ártico.

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Em 2017, o presidente chinês Xi Jinping já havia defendido uma cooperação com Moscou para desenvolver a rota.

O gelo que está derretendo abre espaço para navios

Há uma ironia importante nessa história: a mudança climática que torna o Ártico mais acessível também é responsável por uma das maiores transformações ambientais do planeta.

O aquecimento do Ártico vem reduzindo a cobertura de gelo marítimo e ampliando, durante determinados períodos do ano, as áreas navegáveis.

Um estudo divulgado em julho por pesquisadores da Universidade de Southampton apontou uma redução de 5,8% na extensão máxima do gelo marinho do Ártico entre 2024 e 2025. Foi a maior queda registrada na série analisada pelos pesquisadores.

Isso não significa, porém, que o Ártico tenha se transformado em um oceano livre para a navegação.

Durante o inverno, o gelo continua sendo um obstáculo significativo. Por isso, a rota chinesa funciona atualmente como uma alternativa sazonal, e não como substituta permanente das grandes rotas marítimas.

Além disso, o aumento da navegação na região alimenta uma contradição ambiental: o derretimento do gelo facilita o transporte marítimo, mas a atividade econômica adicional pode aumentar emissões e pressionar ainda mais um ecossistema extremamente vulnerável.

Por que Suez continua sendo muito mais importante

O Canal de Suez permanece muito mais previsível e estruturado para o comércio internacional.

A passagem pelo Egito conecta o Mediterrâneo ao mar Vermelho e é uma das principais ligações entre os mercados asiáticos e europeus. Ao longo das últimas décadas, portos, empresas de navegação e cadeias logísticas foram organizados em torno dessa infraestrutura.

O problema é que o corredor depende da estabilidade política de uma região marcada por conflitos.

Os ataques de grupos armados no entorno do mar Vermelho já levaram grandes empresas de navegação a alterar seus itinerários em diferentes momentos. Quando os navios evitam Suez e passam pelo sul da África, a viagem fica mais longa, aumenta o consumo de combustível e crescem os custos de transporte.

A crise no Oriente Médio reforçou para governos e empresas uma preocupação que já vinha crescendo: concentrar o comércio mundial em poucos corredores deixa a economia global vulnerável a guerras, bloqueios e acidentes.

E o estreito de Ormuz?

A preocupação é ainda maior quando o assunto é energia.

O estreito de Ormuz, entre Irã e Omã, é uma das passagens marítimas mais importantes do mundo para petróleo e gás. É por ali que os grandes produtores do Golfo Pérsico acessam os mercados internacionais.

Em períodos de normalidade, uma parcela significativa do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados internacionalmente passa pelo estreito.

Qualquer interrupção provoca efeitos que vão muito além do transporte marítimo. Petróleo mais caro significa aumento dos custos de combustíveis, transporte, indústria e agricultura em diversos países.

Mas a rota chinesa pelo Ártico tem uma limitação decisiva: ela não resolve o problema de Ormuz.

O corredor foi pensado principalmente para cargas entre Ásia e Europa. Não substitui as rotas utilizadas para transportar petróleo e gás do Golfo Pérsico para os grandes mercados consumidores.

A China ganha uma alternativa estratégica

Para Pequim, portanto, o valor da Rota da Seda do Gelo não está apenas na economia de dias de viagem.

Existe também uma questão de segurança.

A China é uma das maiores potências comerciais do mundo e depende de uma extensa rede marítima para importar matérias-primas e exportar produtos. Quanto mais alternativas tiver, menor será sua vulnerabilidade a bloqueios, guerras ou interrupções em determinadas rotas.

O Ártico oferece justamente uma possibilidade adicional.

A região também é estratégica por suas reservas minerais, petróleo, gás e pela posição geográfica entre América do Norte, Europa e Ásia.

A China tem status de observadora no Conselho do Ártico desde 2013. O aumento do transporte comercial dá uma dimensão econômica mais concreta a um interesse que Pequim mantém há mais de uma década.

A Rússia também tem muito a ganhar

Para Moscou, a expansão da rota representa uma oportunidade de transformar o Ártico em um corredor comercial permanente.

A Rússia possui a maior extensão territorial no Ártico e controla boa parte da infraestrutura necessária para atravessar a região.

A guerra na Ucrânia, entretanto, tornou o acesso aos mercados europeus mais difícil. A China passou a ocupar papel ainda mais importante para a economia russa.

O desenvolvimento da Rota Marítima do Norte permite a Moscou estreitar sua ligação comercial com a Ásia e, ao mesmo tempo, reforçar sua posição estratégica no Ártico.

Há, porém, um dado que mostra o tamanho do desafio.

Segundo levantamento da seguradora Allianz Commercial citado pela imprensa internacional, apenas 23 navios porta-contêineres utilizaram a Rota Marítima do Norte em 2025, contra 15 em 2024.

Ainda é uma fração minúscula do comércio marítimo mundial.

O projeto também preocupa os Estados Unidos

É aqui que a nova rota deixa de ser apenas uma história sobre logística.

O Ártico está se transformando em uma área de disputa entre grandes potências.

Estados Unidos, Rússia, China e Canadá ampliam sua atenção sobre a região, enquanto países europeus também tentam aumentar sua presença.

Sete dos oito países que fazem parte do Conselho do Ártico são membros da Otan. A Rússia é a exceção.

Em fevereiro de 2026, a aliança militar lançou a operação Arctic Sentry, voltada à segurança da região e à resposta ao aumento das atividades russas e chinesas.

Nesse cenário, um corredor comercial regular entre China e Rússia pelo Ártico inevitavelmente ganha dimensão estratégica.

Para Washington, o receio não é apenas econômico. É a possibilidade de Moscou e Pequim criarem uma infraestrutura comercial e logística que aumente sua influência em uma região cada vez mais acessível.

O Ártico vai substituir Suez?

Não por enquanto.

A nova rota tem vantagens evidentes: é mais curta, pode reduzir o tempo de transporte e cria uma alternativa para empresas que não querem depender exclusivamente do Canal de Suez.

Mas existem obstáculos importantes.

O primeiro é o gelo. A passagem continua sendo muito mais difícil durante os meses de inverno.

O segundo é a infraestrutura. O Ártico não possui a mesma rede de portos, serviços, manutenção, seguros e capacidade logística disponível nas principais rotas comerciais.

O terceiro é político. A rota passa por território sob controle russo em um momento de forte tensão entre Moscou e o Ocidente.

O quarto é ambiental. O crescimento da navegação em uma região particularmente sensível ao aquecimento global tende a enfrentar resistência de organizações ambientais e governos.

Por isso, analistas avaliam que a nova rota deve ser vista mais como um plano B para o comércio mundial do que como uma substituta imediata de Suez.

Uma nova disputa está surgindo no topo do mundo

A grande mudança talvez não esteja nos contêineres que cruzarão o Ártico, mas no que eles representam.

Durante séculos, as principais rotas comerciais estiveram concentradas em regiões como o Mediterrâneo, o Oriente Médio e o oceano Índico. Agora, o aquecimento do planeta está alterando as condições de navegação no extremo norte.

Isso cria uma situação inédita: uma das consequências mais graves da mudança climática também está abrindo uma nova fronteira econômica e geopolítica.

A China quer aproveitar essa transformação. A Rússia quer controlá-la. Os Estados Unidos e seus aliados acompanham o movimento de perto.

Suez não está prestes a perder seu lugar no mapa do comércio mundial. Mas o simples fato de Pequim conseguir testar uma rota que reduz quase pela metade a distância marítima entre China e Europa mostra que a geografia econômica do planeta pode estar começando a mudar.

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