CEO do Itaú faz alerta sobre crédito mesmo após lucro bilionário
Executivo estima um corte de 0,25 ponto percentual na Selic nesta noite e vê espaço para outra redução de juros
O CEO do Itaú (ITUB4), Milton Maluhy Filho, afirmou que o banco manterá uma postura cautelosa na concessão de crédito diante do cenário macroeconômico marcado por juros elevados e alto endividamento das famílias. Em entrevista coletiva concedida à imprensa nesta quarta-feira, 5, o executivo reforçou que, mesmo nesse ambiente desafiador, não espera um aumento da inadimplência na carteira de crédito da instituição.
O Itaú voltou a apresentar um trimestre robusto, com baixa inadimplência, elevada rentabilidade e crescimento das provisões em ritmo inferior ao avanço da carteira de crédito, refletindo a estratégia mais conservadora adotada nos últimos anos.
O banco reportou lucro líquido recorrente de 12,4 bilhões de reais no segundo trimestre de 2026, alta de 7,8% em relação ao mesmo período do ano passado. O resultado ficou em linha com a expectativa do consenso reunido pelo BTG Pactual, que projetava lucro de 12,5 bilhões de reais no período.
A carteira de crédito da instituição financeira atingiu 1,5 trilhão de reais ao fim de junho, crescimento de 9,6% em 12 meses. Para os próximos trimestres, Maluhy afirmou que continua enxergando um ambiente desafiador para o crédito, o que exigirá disciplina na concessão de novos financiamentos. Segundo o executivo, a guerra no Oriente Médio voltou a pressionar a inflação global e pode levar o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, a elevar os juros em duas ocasiões até o fim de 2026.
Na avaliação do CEO, esse cenário encarece o custo do dinheiro em todo o mundo e tende a manter as taxas de juros elevadas, especialmente em economias emergentes, como o Brasil. Ao mesmo tempo, ele observa que a atividade econômica brasileira começa a perder força e que a inflação segue em trajetória de desaceleração, embora ainda permaneça acima do teto da meta.
“O cenário de desaceleração da atividade econômica permite mais dois cortes de 0,25 ponto percentual na Selic. No entanto, a inflação acima do teto da meta e o ambiente externo continuam exigindo juros elevados, o que não é positivo para os nossos negócios”, afirmou.
O que o Itaú deve fazer diante do cenário de juros elevados?
Segundo Maluhy, juros elevados reduzem a disposição das empresas para investir e aumentam as incertezas na concessão de crédito. Por isso, o Itaú continuará priorizando segmentos considerados mais seguros, como o crédito consignado privado (CLT) e o financiamento imobiliário.
As operações de média e alta renda devem continuar. No entanto, nem mesmo esse segmento escapou da seletividade do banco diante do cenário de juros adverso. Maluhy Filho explica que o banco fará uma analise sobre o perfil do cliente. Após essa etapa, mesmo que ele pertença a alta ou média renda, se estiver muito endividado, a concessão de crédito será negada. “Fazemos isso como responsabilidade com cliente, não queremos ver ninguém correndo o risco de se complicar financeiramente”, comentou.
Essa política de concessão restritiva tem dado resultados, levando a taxa de atrasos do banco ao menor nível de sua história. A inadimplência do Itaú permaneceu em 1,9% da carteira de crédito, mesmo patamar registrado no segundo trimestre de 2025, reforçando a avaliação da administração de que a qualidade dos ativos continua sob controle.
Para a pessoa física e o grande varejo, a estimativa é de continuidade nos baixos níveis de inadimplência. O executivo, no entanto, fez uma ressalva para a carteira de crédito de Pequenas e Médias empresas. Segundo ele, a inadimplência do varejo da pessoa jurídica tende a subir ao longo do tempo. “A nossa melhor projeção hoje é que a inadimplência para a carteira de Pequenas e Médias Empresas tenha alta de 0,1 ponto percentual no próximo trimestre, mas ela deve estabilizar abaixo do que já foi no ano passado”, afirmou o executivo.
Em meio à estratégia de priorizar linhas de menor risco, o Itaú registrou margem financeira gerencial de 33,4 bilhões de reais, avanço de 5% na comparação anual. As Provisões para Devedores Duvidosos (PDD) somaram 10,1 bilhões de reais, alta de 7,4% em relação ao mesmo período do ano passado. A cifra revela que o crescimento das provisões ficou abaixo da expansão de 9,6% da carteira de crédito, reforçando a percepção de que o banco continua administrando de forma conservadora o risco de crédito.
Com esse desempenho, o Itaú voltou a elevar sua rentabilidade. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) passou de 23,3% no segundo trimestre de 2025 para 24,3% no mesmo período de 2026, um dos níveis mais elevados entre os grandes bancos brasileiros.
O bom resultado agradou os analistas do mercado financeiro. Por volta das 15h, as ações do Itaú subiam 2,23%, aos 43,04 reais. Nem mesmo a mudança na projeção espantou o mercado. No começo do ano, o banco estimava um crescimento de 5% a 9% nas receitas com prestação de serviços. No entanto, a companhia revisou essa perspectiva para alta de 2% a 5% na última noite.
Durante a teleconferência, o executivo comentou que essa redução faz parte do avanço tecnológico da empresa. Com o uso de inteligência artificial e de outras tecnologias, o custo para servir diminui, o que permite o banco reduzir parcialmente ou integralmente as tarifas bancárias a depender da conta. “Isso não tem grandes impactos nas demais áreas do guidance. Por isso, reforçamos a tese de que vamos entregar um resultado na parte de cima das projeções”, conclui o executivo.
Em suma, o Itaú reportou um lucro em linha com o consenso do mercado, mostrando outra vez um resultado robusto com inadimplência controlada. Esses números foram obtidos por meio de uma concessão de crédito cautelosa, que deve continuar ao longo do ano diante de um cenário arisco para as instituições financeiras.







