CEO do Bradesco faz promessa ao mercado apesar da alta da inadimplência
Ações da companhia caem no pregão com mercado preocupado com qualidade do crédito concedido diante de cenário desafiador
O CEO do Bradesco (BBDC4), Marcelo Noronha, afirmou que o banco deve entregar, em 2026, todos os indicadores de crescimento (guidance) próximos ao limite superior das projeções divulgadas ao mercado. A declaração foi feita durante entrevista coletiva à imprensa nesta quinta-feira, 6, após o banco reportar alta na inadimplência e nas provisões em um cenário macroeconômico desafiador para o crédito, marcado por juros elevados e alto endividamento de famílias e empresas.
Na avaliação do executivo, a estratégia adotada desde o início de 2024 continua produzindo resultados consistentes e deve permitir ao banco cumprir suas metas mesmo em um ambiente econômico mais restritivo.
Na quarta-feira, 5, o Bradesco reportou lucro líquido recorrente de 7,05 bilhões de reais no segundo trimestre de 2026, alta de 16,2% em relação ao mesmo período do ano passado. A rentabilidade do banco, medida pelo retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês), alcançou 16,2%, avanço de 1,6 ponto percentual em 12 meses.
O banco registrou o décimo trimestre consecutivo de crescimento do lucro e da rentabilidade, dando continuidade ao plano de transformação conduzido por Noronha. A carteira de crédito expandida encerrou o segundo trimestre em 1,13 trilhão de reais, crescimento de 11,6% na comparação anual. Na pessoa física, a expansão foi de 8,4%, enquanto na pessoa jurídica o avanço chegou a 14,1%.
Durante a coletiva, Noronha afirmou que o banco continuará priorizando linhas de crédito consideradas mais seguras e manterá uma postura seletiva nas novas concessões. Segundo ele, o cenário econômico deve permitir mais um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), levando os juros para 13,75% ao ano.
“Os indicadores de inflação mostram desaceleração em razão da taxa real de juros elevada. A Selic em dois dígitos ajudou a reduzir a inflação e, por isso, enxergamos espaço para mais um corte de 0,25 ponto percentual”, afirmou.
Inadimplência e provisões seguem no radar
Apesar da melhora operacional, o ambiente de crédito continua desafiador. A inadimplência acima de 90 dias subiu 0,2 ponto percentual na comparação anual e encerrou o trimestre em 4,3%.
Como consequência, as Provisões para Devedores Duvidosos (PDD) cresceram 22,6% em relação ao mesmo período do ano passado, totalizando 9,98 bilhões de reais.
Questionado por VEJA Negócios sobre a alta das provisões e da inadimplência, Noronha afirmou que parte desse movimento decorre da implementação da Resolução CMN nº 4. 966, que exige o reconhecimento antecipado das perdas esperadas à medida que a carteira de crédito cresce.
Sobre a inadimplência, o executivo destacou que parte relevante do aumento está relacionada a operações garantidas pelo Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) e pelo Fundo Garantidor de Operações (FGO).
“Esses atrasos tendem a ser ressarcidos entre 120 e 180 dias pelos fundos garantidores, por se tratarem de programas governamentais. Como esse prazo é superior a 90 dias, a inadimplência acaba sendo pressionada temporariamente”, explicou.
Mesmo com essa justificativa, a reação do mercado foi negativa. Por volta das 11h30, as ações do Bradesco recuavam 2,16%, cotadas a 17,66 reais. Na avaliação dos analistas do Safra, as provisões vieram acima das expectativas e poderiam ter sido ainda maiores caso refletissem integralmente o aumento da inadimplência e a migração de operações para os estágios 2 e 3 de risco.
“Isso indica um nível de estresse maior do que o sugerido apenas pela linha de provisões, além do aumento de 0,3 ponto percentual da inadimplência de curto prazo na comparação trimestral”, afirmam Daniel Vaz e Rafael Nobre, em relatório.
O que esperar do Bradesco no 2º semestre?
Para os próximos trimestres, Noronha afirmou que o banco continuará expandindo a carteira em linhas consideradas mais seguras, como crédito imobiliário, operações com garantia e cartões voltados ao público de maior renda.
Em contrapartida, o Bradesco pretende reduzir o ritmo de crescimento em modalidades de maior risco, como o crédito pessoal. “Vamos crescer em um ritmo menor nessa linha, inclusive na alta renda. É uma linha sem garantias e queremos reduzir sua participação na carteira”, afirmou.
A expectativa é de desaceleração do crescimento da carteira no segundo semestre. Hoje, a expansão de 11,6% supera o guidance divulgado pelo banco, que prevê crescimento entre 8,5% e 10,5% em 2026. “Esperamos uma convergência de todas as linhas para dentro do guidance, próximas ao topo das projeções”, concluiu.
Em suma, o Bradesco voltou a apresentar crescimento do lucro e da rentabilidade, reforçando a recuperação iniciada em 2024. Ao mesmo tempo, o avanço da inadimplência e das provisões continua sendo o principal ponto de atenção para os investidores. A administração, porém, sustenta que parte dessa pressão decorre de mudanças regulatórias e de operações garantidas por fundos públicos e mantém a expectativa de encerrar 2026 com os indicadores próximos ao limite superior das metas divulgadas ao mercado.







