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Cenário econômico caminha para uma ‘estagflação’, diz Mendonça de Barros

O ex-secretário de política econômica do governo FHC projeta perda de força da economia e do ministro Paulo Guedes em 2022

Por Felipe Mendes Atualizado em 15 set 2021, 17h25 - Publicado em 15 set 2021, 15h42

O economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio-fundador da consultoria econômica MB Associados, tem um currículo extenso de serviços prestados a diferentes setores da economia. Grande conhecedor do agronegócio, ele foi secretário de política econômica do Ministério da Fazenda entre 1995 e 1998 e secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior da Presidência da República, em 1998, ambas ocasiões durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, além de ter desenvolvido o projeto de Novo Mercado para a bolsa de valores de São Paulo. Para ele, a antecipação do clima eleitoral no país tende a travar a economia em 2022 e provocar uma ‘estagflação’ no país. “Estima-se que 45 bilhões de dólares de exportadores estejam estacionados lá fora. Não trazem para cá porque o cenário está muito inseguro”, diz. “Para todo lugar em que eu olho, vejo redução dos investimentos e não aumento. O cenário que temos hoje, logicamente, caminha para uma estagflação.”

Apesar do recuo do presidente Bolsonaro, como o mercado financeiro viu as manifestações com pautas antidemocráticas no último 7 de setembro? Até onde eu percebo, com extrema apreensão. Não só pela importância do acontecido, mas pelo fato de que agora é difícil manter a ideia de que (o discurso contra as instituições) é só um jeito de falar do presidente. É muito mais do que isso, evidentemente. A escalada de falas antidemocráticas extrapolou todos os níveis. Acho que tem uma mudança na forma como os stakeholders (os agentes de mercado) vão encarar esse problema.

Esse posicionamento do presidente pode colocar em risco a retomada da economia? A situação da economia em geral e das empresas, em particular, tendem a uma piora sistemática, não importando o setor de atuação. Já havia uma percepção universal de piora no ambiente econômico para este ano e para o próximo. Aquele otimismo que se tinha em relação ao cenário fiscal diminuiu muito. E vai diminuir ainda mais, uma vez que há uma percepção de que parte da melhora na relação dívida e PIB é graças à aceleração da inflação e isso é temporário. A dívida nominal vai começar a crescer conforme a taxa Selic for aumentando. Há uma percepção, ainda, de que a arrecadação real, que deu um salto grande, não vai durar pelos próximos meses. Tudo isso porque a atividade está começando a desacelerar, especialmente na indústria. Fora isso, outra percepção é de que a queda nas despesas não-financeiras não vai se repetir, muito pelo contrário. Ou seja, não dá para projetar uma melhora sistemática na questão fiscal como o mercado imaginava.

O ano eleitoral pode ser um entrave para a aprovação de reformas no Congresso? Sem dúvida. Já há um distanciamento claro entre o Senado e a Câmara. É evidente que a Câmara está passando projetos a toque de caixa, projetos de má qualidade, como foi no caso da Eletrobras e do Imposto de Renda, que é um desastre completo. No Senado, onde a situação de suporte ao governo é bem diferente e mais frágil, esse tipo de proposta vai encontrar mais resistência. Acho que a última aprovação de projeto com ‘jabutis’ foi a da Eletrobras. Daqui para frente, ou aprova na Câmara e veta no Senado, ou não aprova em lugar algum. Por mais otimismo que tenha o cidadão em achar que as reformas vão avançar, eu diria que isso parou, né?

E o governo ainda terá um longo caminho para chegar em um acordo pelo Orçamento de 2022… Vai ter uma enorme dificuldade de fazer o Orçamento para o ano que vem. Quanto mais intrigas com o Judiciário, mais o tempo irá passar, e teremos a possibilidade de repetir o que aconteceu no ano passado. Vamos chegar ao fim do ano sem Orçamento definido. Nós temos um grande problema fiscal. Estamos correndo o risco de escorregar de novo, com um Ministério da Economia cada vez mais enfraquecido e sem capacidade de propor qualquer coisa mais razoável.

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Muitos chamam o parcelamento dos precatórios de calote. O ministro da Economia, Paulo Guedes, discorda dessa visão. Um eventual acordo pode acabar gerando uma ‘bola de neve’ para o futuro? Um eventual refinanciamento, ainda que tendo uma roupagem legal, não resolve duas coisas. Vira uma bola de neve, sim. O precatório é uma dívida líquida e certa do Tesouro Nacional. De alguma forma, arrolar o precatório é um calote, porque isso não pode ser estendido para outras áreas. Além da bola de neve, tem uma incerteza que irá se somar a outras incertezas fiscais e de outras naturezas, que, por sua vez, tem como implicação direta em aumentar o risco-país, os prêmios de risco que diversos tipos de mercados têm de pagar. Enfim, há uma piora vindo por todos os lados.

O ministro Guedes disse em evento do BTG Pactual, na terça-feira, 14, que o governo não pode ser responsabilizado pela “Covid-19”. Como o senhor analisa a condução da economia frente à pandemia? No fundo, a gente pode analisar isso de uma forma simples: veio a Covid e o tombo que a economia brasileira levou foi parecido com que todos os outros países tomaram. No ano passado, muito por consequência do Congresso, aprovou-se uma expansão fiscal para dar suporte ao país para sair do buraco. E, de fato, a saída começou. Entretanto, lidou-se mal com a Covid e aquela recuperação no segundo semestre do ano passado perdeu o gás. É possível ver isso desde os índices de expectativas, com o que está acontecendo com a indústria, os problemas da cadeia de produção que não permite aumentar muito a oferta. O barco da recuperação está começando a vazar água por todos os lados. O que é completamente diferente do que acontece nos EUA, na Europa e em países da Ásia. Eles tiveram a primeira parte dessa história parecida. Caíram no buraco. Mas estão saindo, com um pacotão de investimentos, ligados a uma agenda de futuro, investindo em carros elétricos, energia, descarbonização, biotecnologia etc. Isso certamente levará a uma recuperação sustentável. É o contrário do Brasil.

As empresas podem represar os investimentos por conta das incertezas? Com certeza. Nós não temos nenhuma onda de investimentos se sucedendo a essa crise. E essa mistura de crise política com crise econômica afeta as expectativas, o que sugere postergar qualquer decisão mais significativa de investimentos para quando a sucessão presidencial ficar mais clara. Isso é o que nós estamos vendo, uma mistura do político com o econômico de tal forma que a economia embicou para baixo. Isso é inequívoco. A gente vai finalizar o ano e entrar no ano que vem com uma economia muito desacelerada. Não é nem fora de discussão termos uma pequena recessão no início de 2022. Não é certa, evidentemente, mas o grau de desaceleração, de incerteza, de gente preocupada com o que fazer, entrando no modo defensivo, é evidente. Além disso, os gestores dos fundos de investimento estão cada vez mais priorizando o investimento lá fora. É dinheiro brasileiro sendo realocado lá fora, onde as condições são melhores. Estima-se que 45 bilhões de dólares de exportadores estejam estacionados lá fora. Não trazem para cá porque o cenário está muito inseguro. Para todo lugar em que eu olho, vejo redução dos investimentos e não aumento. Se isso acontece é estagnação, claramente. O cenário que temos hoje, logicamente, caminha para uma estagflação (considerando também a forte alta da inflação).

A alta dos juros pode ser uma razão para esse postergamento dos investimentos? Independentemente de ser empresa ou consumidor, quem estiver endividado vai dançar. Quem está alavancado (com empréstimos a pagar) por qualquer razão, seja física ou jurídica, vai ter problemas inesperados. Sobem os juros e cai automaticamente a avaliação de risco. Todo o crédito fica mais difícil e caro. Com essa alta da inflação, essa incerteza e alta dos juros, a taxa de retorno de qualquer projeto se reduz. Há conjuntos de projetos em que a taxa de retorno seria ‘OK’ quando os juros longos estavam 6,5%, mas já não são mais ‘OK’ quando passam para 11%. Por isso, as empresas, naturalmente, vão postergar o que puderem postergar. O resultado é diminuir o volume de financiamentos e de projetos. A implicação é que a taxa de investimentos, que está ancorada em torno de 20% há anos, provavelmente vai continuar assim.

Em 2018, o ministro Guedes respaldou o governo em relação às reformas que fariam o Brasil voltar ao prumo. Na sua opinião, ele sairá ‘menor’ do que quando entrou? Certamente. E até porque o ministro é cada vez mais cabo eleitoral e menos ministro. Ele insiste em se colocar dessa forma. Acho que está ficando cada vez mais claro que, mesmo com condições políticas melhores no Congresso, o seu ministério sempre foi fraco em formular projetos. Agora, então, no meio desse tumulto, é só olhar a salada indigesta que foi feita na área tributária como um todo. O que ele queria mesmo era a CPMF. Tentou várias vezes e não deu. Depois inventou essa junção do PIS e Cofins que não vai para lado nenhum. E aprova um projeto de Imposto de Renda, que é uma colcha de retalhos. Eu acho que ele foi se atrapalhando cada vez mais e perdeu capacidade operacional. Fora isso, ele está com alguma dificuldade de falar para o país. Dizer que não tem problema aumentar a alíquota da energia elétrica… Como assim? A imensa maioria das famílias tem dificuldade de pagar conta de energia elétrica. Qual é o problema de ter 8% de inflação e aumentar a energia elétrica? É um baita problema.

Qual é a sua previsão para a economia brasileira em 2022? A economia está começando a embicar para baixo, vindo de uma recuperação, que, no segundo semestre do ano passado, foi robusta, mas já nivelou no topo e agora começa lentamente a escorregar. Por isso, nós temos um consenso no mercado de que o PIB do ano que vem será fraco. Os otimistas estão colocando a taxa de crescimento em 2%, nós estamos apostando em 1,4%, mas eu acho que vai ser menos que isso. Vai ser um ano complicado, porque vai misturar a sucessão presidencial com suas incertezas, vai radicalizar e a economia está no rumo de enfraquecer com algum significado.

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