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Cenário de juros baixos pressiona fundos de investimento

Por Mariana Durão

Rio de Janeiro – O cenário de juros mais baixos no País aumenta a pressão para que os gestores de fundos de investimento diversifiquem suas carteiras em direção a ativos menos líquidos, como dívida corporativa, papéis de securitização e algumas ações, e de mais alto risco, a fim de garantir maior rentabilidade. O principal obstáculo a esse desafio será a expectativa arraigada de liquidez diária do investidor brasileiro, diz a presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Maria Helena Santana.

“A maior pressão será o mercado ter de desenvolver em escala maior a especialização na gestão em ativos mais arriscados, não dependentes da taxa de juros”, afirmou.

Na avaliação da xerife do mercado de capitais, no entanto, essa é uma questão que não cabe ser resolvida pela via regulatória. “Seria importante convencer o investidor de que isso (o resgate diário) representa um custo. Que ele pode estar abrindo mão de rentabilidade por exigir liquidez diária”, afirmou.

Antes da crise de 2008 a CVM identificava um movimento de gestores independentes impondo aos investidores institucionais períodos de carência maior, de 30 a 60 dias, para o resgate dos fundos. O pânico gerado pela crise financeira, no entanto, abortou esse movimento.

Ganhos de escala

Em seminário realizado hoje, no Rio de Janeiro, a CVM lançou o embrião de algumas questões regulatórias relativas à indústria de fundos, sobre as quais pretende se debruçar. Entre elas está a necessidade de viabilizar o ganho de escala aos fundos de investimento brasileiros e a consequente redução de taxas de administração, ainda muito altas no País.

A adequação da estrutura regulatória brasileira em busca de ganhos de eficiência, diz Maria Helena, ganha mais importância no momento em que os fundos mais simples estarão na berlinda por conta da redução da taxa básica de juros pelo Banco Central.

“Os fundos mais simples estarão sob pressão se comparados à rentabilidade da poupança. Não sabemos ainda o que fazer (para mudar isso) nem se será de uma hora para outra”, disse a presidente da CVM, que preferiu se abster de comentários sobre eventuais mudanças impostas pelo governo para reduzir a rentabilidade da poupança.

O diretor de Relações Internacionais da Securities Exchange Comission (SEC), Eric Pan, foi taxativo ao afirmar que a questão da economia de escala é importante, mas seu estímulo não está na alçada dos reguladores do mercado. A CVM, no entanto, pretende estudar possíveis ações nesse sentido.

Já Demosthenes Pinho Neto, vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades de Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima), acredita que será fundamental o Brasil ter um aparato regulatório mais sofisticado do que o atual, uma vez que a “queda irreversível” das taxas reais de juros reais forçará a migração da renda fixa para produtos de investimento mais complexos.