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Casos Oi, Redecard e Gafisa aumentam ativismo de minoritários

Por Juliana Schincariol

RIO DE JANEIRO, 16 Mai (Reuters) – Em movimento inédito no Brasil, acionistas minoritários estão se unindo para tentar mudar rumos em grandes empresas, como Oi, Gafisa e Redecard.

O ativismo de pequenos investidores, comum em mercados desenvolvidos como os de Estados Unidos e Europa, está sendo liderado aqui por gestores independentes de recursos e por investidores internacionais. O desafio deles é tentar arrebanhar as pessoas físicas.

“Este é um grande diferencial no mercado brasileiro, as assets ficam sozinhas, ao lado de alguns fundos estrangeiros”, disse o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Alexandre Di Miceli.

No entanto, o gradual amadurecimento do mercado doméstico, e decisões da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que impuseram derrotas a acionistas controladores nos últimos anos, estão motivando pequenos investidores a ser mais exigentes na defesa de seus direitos.

Os motivos das reivindicações recentes são diversos. No caso da Gafisa, os minoritários queriam o voto múltiplo na eleição do Conselho de Administração para eleger os novos conselheiros, numa campanha liderada pela Polo Capital Management.

“Considerando todos os desacertos experimentados ao longo dos últimos anos, (…) pareceria sensato que o Conselho considerasse que, em um certo momento, os acionistas devem ter o poder de decidir o seu futuro”, disse a Polo, em comunicado.

Na sexta-feira, foram eleitos membros dos conselhos fiscal e administrativo da companhia e entre eles estão Claudio Carvalho de Andrade e Mauricio Pereira, indicados pela Polo. Guilherme Affonso Ferreira e José Écio Pereira, reeleitos, também estavam entre as indicações da gestora.

A vitória dos minoritários ocorre num momento em que a construtora faz mudanças agudas de estratégia, após ter tido as ações duramente castigadas no mercado por desempenho abaixo do esperado, especialmente nas operações da Tenda, sua unidade voltada para o segmento econômico.

“Em empresas como a Gafisa, as chances de mudar são maiores, uma vez que possuem estrutura muito pulverizada. E estamos falando de empresas de porte médio, na melhor das hipóteses”, disse Di Miceli.

Neste aspecto, um caso que ganhou os holofotes nos últimos meses e que pode ir na contramão desse argumento, é o da Redecard, vigésima segunda maior empresa da Bovespa em valor de mercado. Seu controlador Itaú Unibanco está fazendo uma oferta pública de aquisição (OPA) a 35 reais por ação, para fechar o capital da empresa de cartões.

Na sexta-feira, serão decididos os novos passos da OPA, depois que a gestora norte-americana Lazard Asset Management, que representa mais de 10 por cento das ações da empresa no mercado, pediu um novo laudo de avaliação da companhia, desta vez pelo Credit Suisse, segundo uma fonte próxima ao assunto.

O banco informou ao mercado que desistirá de oferta pela Redecard caso um possível novo laudo de avaliação sobre a operadora de meios de pagamento não inclua o preço máximo de 35 reais por ação.

Para o presidente da Associação de Investidores no Mecado de Capitais (Amec), Mauro Rodrigues da Cunha, os casos atuais ainda são exceção. “O ativismo é muito menor do que deveria ser, em parte pelo desalento que os investidores estão sentindo com decisões”, disse.

Um exemplo de insucesso parcial foi o da Oi. Desde 2006, a companhia vem tentando levar adiante uma reestruturação, em meio a protestos de minoritários, que consideraram as relações de troca de ações propostas desvantajosas. Na última vez, em fevereiro a CVM negou a maioria das reclamações de investidores e a reorganização societária foi concluída.

Entre os fundos que reclamaram à CVM sobre o assunto, estavam fundos do Credit Suisse Hedging-Griffo, a Tempo Capital Principal Fundo de Investimentos e a gestora de recursos Dynamo.

Para o diretor da CVM Roberto Tadeu Antunes Fernandes, a autarquia tenta evitar o abuso dos controladores. Segundo ele, no caso da Oi, a CVM cumpriu a lei.

“A aplicação da lei e as circunstâncias levam alguns minoritários a se sentirem prejudicados”, disse em sua posse, em 7 de maio.

À medida em que as pessoas vão tendo maior consciência dos seus direitos, cria-se uma espécie de repreensão regulatória e legal, ao questionar se a regulação é apropriada, disse Claudio Andrade, sócio da Polo Capital, que criou o site Transparência e Governança, para debater assuntos relacionados a estes temas.

“Eu não sei se hoje há mais questionamentos (…) (O maior ativismo) é um indicador de que temos mais operações controversas, mais conflitos”, disse Andrade.