Carta ao leitor: O endividamento que se transformou em uma encrenca nacional
Inadimplência entre cidadãos e de apuros financeiros no meio corporativo precisa ser devidamente reconhecida e enfrentada
Diante de uma economia empacada há anos, o governo da Alemanha anunciou medidas para tentar reverter a crise. O pacote reconhece que a carga tributária por lá é pesada, incluindo redução em um terço do imposto de renda das pessoas jurídicas. Também contempla desburocratização e investimento de meio trilhão de euros para modernizar a infraestrutura, como mostra a reportagem “A receita alemã” (pág. 48). A batalha é dura: o país enfrenta custos elevados, em especial de energia, e talvez o mais difícil, a competição chinesa, que abate a indústria germânica. A Volkswagen que o diga — os chineses, parceiros por décadas, agora tomam o seu espaço com carros de qualidade e mais baratos.
Há bastante desse contexto no Brasil, como a concorrência dos chineses e os custos altos de energia. Some-se a isso o dinheiro encarecido pelos juros reais campeões do mundo. Mas Brasília, por ora, está longe de se mover para algo parecido com o que faz Berlim. Aferrado aos avanços do produto interno bruto à média de mais de 2% nos últimos anos, o governo Lula não admite que haja uma crise e faz de tudo para manter algum crescimento, mesmo pagando preço cada vez mais alto por isso. O principal indicador é a dívida pública, que já aumentou 11 pontos, para 83% do PIB, e tende a subir mais.
O endividamento virou, novamente, uma grande encrenca nacional. Entre os cidadãos, 84 milhões estão com compromissos acima do limite. No meio empresarial, isso se reflete em números recordistas de dívidas, recuperações judiciais e extrajudiciais, quando não falências. São 9 milhões de CNPJs negativados nos birôs de crédito. A reportagem de capa, “Vítimas da farra” (pág. 16), traz dados e depoimentos de três empresários que estão vivendo o drama de arcar com dívidas, enxugar operações e buscar saídas para sobreviver à fase atual.
Do governo, o que mais se espera é uma política coordenada que crie espaço para a redução dos juros. Mas esse ajuste ainda não parece estar a caminho.
Publicado em VEJA, setembro de 2026, edição VEJA Negócios nº 30





