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Carlos Ghosn fala pela 1ª vez após fuga para Líbano: ‘Fugi da injustiça’

Ex-executivo voltou a acusar a Nissan de complô com promotoria japonesa em um movimento "político"; o executivo não detalhou como fugiu para o Líbano

Por Larissa Quintino - Atualizado em 8 jan 2020, 11h26 - Publicado em 8 jan 2020, 10h41

Em sua primeira aparição pública desde que fugiu do Japão, o ex-presidente da aliança Renault-Nissan, Carlos Ghosn, disse nesta quarta-feira que é inocente de todas as acusações feitas pela Justiça japonesa e voltou a creditar sua prisão a um complô feito entre executivos da Nissan e o governo japonês.

De acordo com o executivo brasileiro, que também tem cidadania libanesa, a redução do desempenho da Nissan, no início de 2017, causou uma perseguição contra ele. Além disso, os executivos japoneses queriam mais autonomia nas decisões da montadora e a solução, segundo Ghosn, foi tirá-lo. “Eles acharam que tudo melhoraria, mas não foi isso que aconteceu”, afirmou. “Eles queriam virar a página Ghosn, e conseguiram. Agora há menos tecnologia, menos inovação e a companhia perdeu valor de mercado”, disse.

Ghosn disse que a decisão “mais difícil que teve na vida” foi a de fugir do Japão para o Líbano, mas precisava ter como contar seu lado da história. “Não fugi da Justiça, fugi da injustiça”, disse. Segundo ele, os “princípios dos direitos humanos foram violados” com sua prisão e a Justiça japonesa segurou seus documentos de defesa.

Além disso, ele afirma que a falta da data para o julgamento também é uma violação grave. “Eu ia passar cinco anos preso sem julgamento? Não tive direito a ampla defesa”. Ghosn disse que foi “brutalmente retirado” de sua família, como uma estratégia da Justiça japonesa para pressioná-lo a confessar crimes os quais alega ser inocente.

“Sentia que eu era refém de um país ao qual servi por 17 anos. Liderei uma companhia que estava mal. Fui considerado um modelo no Japão e, de repente, uns procuradores, uns executivos passam a dizer que sou ganancioso, frio”, afirmou, ao alegar o que considera violações do sistema japonês.

Durante a entrevista, Ghosn citou o nome de diversos executivos da Nissan envolvidos no caso, mas afirmou que não iria falar nome de oficiais japoneses para evitar problemas diplomáticos com o Líbano, para onde fugiu. Nascido no Brasil, Ghosn também é cidadão brasileiro e libanês. Ele também mostrou documentos, que segundo ele, mostram a inocência em todas as acusações. “Falaram que eu recebi compensações indevidas. Eu fiquei surpreso em saber disso. Não peguei um dólar a mais”.

Ghosn responde a quatro processos no Japão e estava em prisão domiciliar antes de fugir para o Líbano. Entre as exigências, ele não poderia deixar o Japão ou falar com sua esposa, Carole, que teve um mandato de prisão emitido por autoridades japonesas na terça-feira, 7.

“Aliança não existe mais”

Segundo Ghosn, desde o episódio de sua prisão, Nissan e Renault perderam valor de mercado e, hoje tem apenas uma aliança de fachada. “Eles estão deixando o consenso decidir, mas não há consenso se ninguém trabalhar duro para construí-lo”. De acordo com o executivo, a Nissan perdeu 10 bilhões de dólares em valor de mercado desde novembro de 2018 e a Renault outros 5 bilhões de dólares. 

Ghosn citou como exemplo de má gestão no período a perda do negócio com a Fiat Chrysler, na qual a Renault, segundo ele, estava interessada em se fundir a anos. “Como é possível perder a possibilidade se se tornar dominante no mercado automotivo? É inacreditável”. No fim do ano passado, Fiat Chrysler e o grupo francês PSA, controlador da Peugeot, fecharam uma aliança e se tornaram o quarto maior grupo do mundo em volume de venda de carros.

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