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Cameron cresce com veto à UE, mas coalizão pode ruir

Premiê britânico ganha pontos no Partido Conservador, contrário à participação da Grã-Bretanha na União Europeia, mas irrita aliados liberais democratas

Acusado nos últimos meses por membros de seu próprio partido de promover um governo “em cima do muro” e insosso, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, 45 anos, decidiu reagir e presenteou seus pares com o maior rompimento da história da relação entre a Grã-Bretanha e a União Europeia. O resultado, à primeira vista, é um premiê com força política robusta e renovada no país. Contudo, essa popularidade é localizada, pode durar pouco e ter efeitos negativos no longo prazo.

Em 9 de dezembro, em reunião fechada durante a cúpula da UE, Cameron resolveu fazer um afago aos conversadores britânicos. Peitou o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a chanceler alemã, Angela Merkel, sob o argumento da “defesa dos interesses” do Reino Unido. Depois do bate-boca, veio a decisão de vetar o acordo de aperto fiscal na zona do euro. Como resultado, o premiê foi tratado durante a semana como o “novo buldogue inglês” – um grande elogio a um líder que precisava marcar terreno para ganhar aprovação interna, sobretudo de membros de seu partido, o Conservador.

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O movimento de Cameron abriu espaço, no entanto, para uma batalha campal dentro do governo de coalizão. Os liberais democratas ficaram enfurecidos com o súbito rompimento com o bloco econômico europeu, sem que antes o premiê tivesse buscado uma saída diplomática. “Eu diria que Cameron decidiu pelo veto na base da política partidária. E a decisão causou todo tipo de problema aos liberais democratas – o partido mais pró-Europa da Câmara dos Comuns”, explica o professor de política da Universidade de Londres, Simon Griffiths.

Não à toa, o vice-primeiro-ministro Nick Clegg, um liberal democrata, não tem escondido sua insatisfação com a atuação de Cameron, dizendo-se “amargamente desapontado” – o que só adiciona combustível à já turbulenta política interna britânica. “O acordo de coalizão com os liberais democratas está menos garantido hoje – e menos propenso a sobreviver os cinco anos até a próxima eleição geral – do que já esteve”, prevê Griffiths.

Repaginação – Antes de romper politicamente com a União Europeia, Cameron era visto com desconfiança por setores mais à direita do conservadorismo britânico e estava com sua liderança ameaçada no próprio partido. Sua ascensão a primeiro-ministro, em 2010, foi feita à base de uma repaginação quase completa da agenda conservadora. A lista de temas que passou a defender incluía defesa do meio ambiente, campanhas de inclusão social, como o “hug a hoodie” (abrace um encapuzado, em referência aos jovens ingleses marginalizados), e apoio ao movimento gay.

Relações públicas de formação aristocrática e laços familiares com a realeza, Cameron emprestou sua imagem ao que se propunha ser um novo conservadorismo. A escolha teve seu preço. Sua vida foi devassada por três documentários da BBC, que mostraram seus estudos em Eton – uma das escolas mais caras e exclusivas da Grã-Bretanha – e sua falta de engajamento político na Universidade Oxford, onde estudou filosofia, política e economia.

Sua carreira meteórica, de relações públicas a político profissional, foi vista como uma necessidade dentro dos quadros conservadores, abatidos após 13 anos no poder do New Labour, ou novos trabalhistas, do qual faziam parte os ex-premiês Tony Blair e Gordon Brown. O partido conservador, que precisava de uma cara nova e de um discurso atualizado, encontrou em Cameron um ponto de mudança. Ele se tornou líder em 2005.

Cameron fez o conservadorismo renascer das cinzas com uma campanha midiática, que chegou a incluir uma webcam que acompanhava seu dia a dia em casa – apelidada de webcameron – e uma viagem de trenó ao Ártico, com direito a equipe de TV para gravar suas reações ante os sinais do aquecimento global.

O veto ao tratado da União Europeia foi sua maior guinada à direita até agora, superando a cartilha do conservadorismo britânico dos ex-primeiros-ministros Margaret Thatcher (1979-1990) e John Major (1990-1997), que primaram pela diplomacia com o bloco em vez do rompimento – apesar de toda ambiguidade de sentimento dos britânicos em relação à Europa.