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Brasileiros pagam caro e não sabem economizar energia

Hábitos de controle de consumo, que já estiveram em alta nas crises de 2001 e 2002, foram esquecidos pelos brasileiros, que desconhecem a composição da conta de luz

Por Luís Bulcão, do Rio de Janeiro - 6 set 2012, 21h45

Apesar de cerca de 80% da eletricidade do Brasil serem gerados pela simples vazão de sua rica bacia hidrográfica, a conta de luz dos brasileiros figura entre as mais caras do mundo – a tarifa industrial registrada pela Agência Internacional de Energia e comparada em relatório divulgado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) é a quarta maior do planeta, atrás apenas de Itália, Turquia e República Tcheca.

De acordo com o professor Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ, o alto preço da energia no país se deve a compromissos de correção monetária que favoreceram as empresas após o setor elétrico ter sido privatizado. “A geração hidroelétrica é barata. Há uma discrepância de preço com países como Canadá e Estados Unidos. Existem algumas distorções que precisam ser resolvidas”, afirmou. No entanto, parte da culpa pelo alto preço, segundo especialistas que participaram do seminário Inserção de novas fontes renováveis e redes inteligentes no planejamento energético nacional, realizado nesta quarta-feira pela Coppe, recai sobre a falta de representação do consumidor no processo de gerenciamento energético, que conta com diversos atores governamentais e do mercado. Quando o governo e as empresas não conseguem entrar em acordo sobre quem deve arcar com determinado custo, ele é invariavelmente repassado ao consumidor.

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“O consumidor é a voz calada. É o mudo. Tudo o que você dá para ele pagar, ele paga”, afirma Hermes Chipp, diretor geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Segundo Chipp, é preciso haver maior participação dos conselhos dos consumidores nas decisões. “Os conselhos de consumidores têm que se estruturar no país e começar a participar. Hoje quem defende o consumidor é a Aneel e o ONS. São instituições que não têm interesse comercial. O operador quer fazer a segurança ao menor custo. A Aneel é a fiscalizadora. Não é suficiente. O Conselho do Consumidor precisa entender melhor as questões. Precisa saber o que traz de benefícios para fazer os pleitos adequados”, diz.

Outro fator que contribui para a conta salgada: o brasileiro praticamente abandonou o gerenciamento da demanda por energia depois de superados os tempos de crise, como no início da década, quando era necessário controlar o consumo para não ser penalizado na conta. Ou seja: perdemos a capacidade de economizar. De acordo com o presidente do Conselho de Administração da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), Luiz Eduardo Barata Ferreira, a utilização mais coordenada da energia poderia contribuir de forma substancial para a queda do preço. “Um aspecto positivo da crise de 2001/2002 (crise do Apagão) é que a população aprendeu a tomar conta do gerenciamento de energia. Tenho absoluta convicção de que isso acabou, isso se perdeu”, considera. Para Ferreira, falta política de conscientização para que o consumidor passe a contribuir para a eficiência energética. “Se as pessoas não sabem quanto custa, elas não vão economizar”, destaca.

Chipp considera haver um tabu quando se fala em políticas de gerenciamento de demanda elétrica. “Nós lidamos com o desenvolvimento de tecnologias e metodologias para o lado da oferta. Para o lado da demanda, não há discussão. Quando se fala em demanda, parece o anúncio de uma crise: vai ter racionamento. E não é isso. Gerenciar demanda é reduzir custos para todos. É um jogo em que dois lados podem ganhar”, afirma. Para ele, poderia haver maior eficiência energética caso o consumidor compreendesse melhor a composição tarifária e fosse estimulado a contribuir para o uso inteligente da eletricidade.

“Se eu não consumir ar condicionado ou chuveiro na ponta (horário de pico), vou economizar energia. Mas para isso precisa ter incentivo na tarifa. Hoje não há, só há incentivo na transmissão”, critica Chipp.

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