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Brasil tem de ir além da pesquisa para impulsionar inovação

Governo tem de criar um ambiente de colaboração entre universidades e setor privado, avalia Robert Wolcott, diretor do Kellogg Innovation Network

Não adianta somente destinar recursos à pesquisa se a intenção é fomentar a inovação no país. O governo tem de ir além e promover o intercâmbio entre universidades e empresas. Desta maneira, o conhecimento gerado na academia contribuirá para expandir a produtividade e o potencial de crescimento de longo prazo de uma nação. Incorporar essa lógica é um dos desafios do Brasil. A avaliação é de Robert Wolcott, diretor do Kellogg Innovation Network – fundação voltada à inovação da Kellog School of Management – e especialista no tema.

Para Wolcott, que também é conselheiro do Centro de Inovação Nórdico, o país deveria se inspirar na Noruega, Suécia ou Finlândia, que, como o Brasil, têm forte presença estatal na economia, mas souberam usar essa característica para induzir a inovação. Contudo, é imprescindível não se prender a um modelo específico. “O correto é retirar de cada experiência o que seria mais eficiente para a economia brasileira”, avalia. O caminho, em sua visão, é a combinação das lições de outros países com as vantagens competitivas nacionais. “Aí, sim, começa a se construir um ganhador”, prevê.

Wolcott – que vem a São Paulo em novembro para participar de debate da revista inglesa The Economist sobre o futuro do país – falou com exclusividade ao site de VEJA.

Países que destinam valores semelhantes para pesquisa têm resultados muito diferentes quanto aos números de patentes que registram. O que explica essa disparidade?

Essa é uma questão extensa. As pessoas tendem a assumir que basta destinar fundos para pesquisa para produzir inovações no mercado. Isso não é necessariamente verdadeiro. É claro que é muito bom ter um setor de pesquisa forte. Contudo, a realidade é que existem outros pontos críticos para traduzir conhecimento científico em sucesso mercadológico. Não é uma ação natural. Depende em grande parte da existência de empreendedores e de grandes empresas capazes de levar novos conceitos e tecnologias ao mercado, e assim enriquecê-los. Muitos governos ao redor do mundo têm dificuldades de incorporar essa lógica às suas políticas.

Em que bons exemplos o Brasil poderia se inspirar para que, um dia, possamos sonhar com um Vale do Silício brasileiro?

Escrevi recentemente um artigo sobre essa ideia de se criar um Vale do Silício brasileiro. Várias nações, na verdade, tentam recriar o Vale do Silício. A realidade, entretanto, é que isso não vai acontecer em outro país nem outras regiões dos Estados Unidos. O Vale do Silício é um ecossistema único e peculiar. Certamente, há muitas coisas que podemos aprender com ele, mas não deveríamos tentar replicá-lo. Em vez de olhar apenas para um modelo específico, quer seja o desta região, de Israel, quer seja de Cambridge, o correto é retirar de cada experiência o que seria mais eficiente para cada local.

O Brasil tem um setor público forte e tributos elevados. Considerando a forte presença do estado na economia, o governo poderia olhar para a experiência dos países nórdicos (Dinamarca, Suécia, Finlândia, Islândia, Noruega). Eles também têm impostos altos, mas dispõem de excelentes serviços públicos e gastam muito tempo e dinheiro apoiando empreendedorismo e inovação na região. Não tem sido perfeito, mas eles têm alcançando resultados de longo prazo muito bons e têm ajudado a criar companhias de tecnologia bem-sucedidas.

O correto é retirar de cada experiência o que seria mais eficiente para a economia brasileira. Quando se combinam as características de um país com as lições aprendidas de outros, aí, sim, começa a se construir um ganhador.

Quais são os passos necessários para o Brasil avançar neste campo?

Empreender no Brasil é muito difícil em função das leis trabalhistas que impõem custos pesados ao empregador e outras regulações. Essas estruturas legais, aliadas à burocracia, criam desafios enormes aos pequenos empresários. O primeiro desafio é trabalhar essas leis.

Eu adicionaria, no entanto, um ponto a essa discussão em que o Brasil está indo bem. Quando se olham os rankings das universidades da América Latina, a Universidade de São Paulo (USP) aparece sempre no topo. Ter universidades fortes não é o único ingrediente para fomentar um setor empreendedor, mas é um elemento crítico. O ideal é nutrir essas universidades não somente para fortalecer a pesquisa, mas também com plataformas onde haja encontros que permitam a criação de novos negócios. Isso tem sido feito de várias maneiras ao redor do mundo.

Recentemente, o governo anunciou o Plano Brasil Maior, que reduz impostos da folha de pagamento de alguns setores. Na ocasião também foi anunciada a intenção de se criar uma agência de inovação. Como isso poderia impulsionar o investimento em inovação no país?

Eu não sei detalhes dos planos, mas posso falar de maneira geral que há muitos casos ao redor do mundo em que países criaram agências para administrar o investimento em pesquisa e inovação. Algumas, como a de Taiwan, foram bem-sucedidas. Lá, a agência funciona como uma rede de encontros entre empresas e universidades. Há também casos, no entanto, em que os governos colocaram muito dinheiro nestas agências, que, no limite, podem até ter gerado mais produção acadêmica, mas que não converteram necessariamente o investimento em crescimento de longo prazo. Eu vejo como uma saída mais adequada ter o governo como um criador de condições para essas redes fluírem.

Segundo o IBGE, as estatais investem mais em inovação que as empresas privadas no Brasil. Por que isso acontece?

Uma organização que tem acesso mais fácil a um capital com menos risco estará mais disposta a inovar. Mas a questão é o desempenho desses investimentos. Há várias companhias que investem menos em inovação e têm melhores resultados.

Uma pesquisa realizada em 2009 pelo Global Entrepreneurship Monitor mostrou que os empresários brasileiros estão pouco familiarizados com a inovação. O senhor acha que isso acontece porque o país tem um imenso mercado interno e as empresas nacionais ainda não são forçadas a competir globalmente?

Tradicionalmente, essa tem sido a razão. Em lugares cada vez mais abertos ao mercado global, a situação tem mudado. Vamos ver um pouco mais dessa mudança acontecendo no Brasil nos próximos anos porque as empresas nacionais estão não apenas procurando competir em outros mercados como também tem visto o interesse de estrangeiras no país crescer. Isso será paradoxalmente positivo para o Brasil no sentido de que empresas locais terão desafios e oportunidades de ficarem mais inovadoras. Se ninguém vê necessidade de mudar, é difícil de fazer as pessoas perseguirem mudanças.