“Plantar florestas nativas pode movimentar até US$ 26 bi por ano no Brasil”, diz presidente da Biomas
Em entrevista ao programa VEJA+Verde, Fábio Sakamoto explicou como funcionam os projetos de restauração florestal para crédito de carbono
Criada em 2022 por seis grandes empresas – Itaú, Santander, Rabobank, Vale, Marfrig e Suzano –, a Biomas nasceu com a ambição de restaurar 2 milhões de hectares de florestas nativas em vinte anos, por meio de projetos privados de reflorestamento voltados ao mercado de carbono, afirma seu CEO, Fábio Sakamoto. Em entrevista ao programa VEJA+Verde, ele diz que a empresa busca ocupar um nicho ainda incipiente: plantar florestas em larga escala, com governança robusta, para vender créditos de carbono de “alta integridade” a empresas e países que precisam compensar emissões.
Sakamoto calcula que o mercado global de créditos de carbono deve movimentar cerca de 1 trilhão de dólares por ano até 2035, e que o Brasil pode abocanhar entre 16 bilhões e 26 bilhões de dólares anuais em investimentos diretos ligados à restauração florestal, caso aproveite sua vantagem comparativa. “O Brasil é provavelmente o país que mais pode se beneficiar dessa agenda verde”, diz, lembrando que a combinação de florestas tropicais exuberantes, experiência florestal, mercado de capitais e governança coloca o país à frente de concorrentes da América Central, África e Sudeste Asiático.
O modelo de negócios da Biomas se apoia em projetos de remoção de carbono, considerados por compradores internacionais como os créditos de maior integridade: em áreas de pasto degradado, com baixa aptidão agrícola, a empresa planta florestas nativas e comprova, ao longo de décadas ou até mais de 100 anos, o volume de carbono retirado da atmosfera. Uma área de um hectare na Amazônia, exemplifica Sakamoto, pode sequestrar de 600 a 800 toneladas de carbono ao longo do ciclo do projeto, gerando créditos vendidos a empresas com metas climáticas, em especial gigantes de tecnologia e serviços financeiros.
No Brasil, há entre 70 milhões e 120 milhões de hectares de pastagens degradadas, segundo estimativas citadas por Sakamoto, um “estoque” de áreas de baixa produtividade que poderiam ser convertidas em florestas para fins de carbono, sem competir com a agricultura de alta aptidão. A estratégia, diz ele, harmoniza-se com o agronegócio: o aumento da produtividade pecuária em áreas boas permitiria liberar terras marginais, hoje subutilizadas, para projetos de restauração que trazem fluxo de caixa em dólares a proprietários rurais.
O primeiro projeto da Biomas, em andamento no sul da Bahia, envolve 1.242 hectares fragmentados de Mata Atlântica, próximos a Eunápolis e Porto Seguro, e se articula com 14 comunidades locais para definir benefícios sociais e formas de uso compatíveis com as regras de carbono. Além do carbono, os compradores passaram a exigir indicadores de biodiversidade e impacto social: biólogos monitoram fauna, flora e conectividade entre fragmentos florestais, e a empresa precisa demonstrar, ao longo do tempo, melhora nesses parâmetros.
Sakamoto afirma que o gargalo para a expansão do setor está menos na capacidade técnica e mais nas “regras do jogo”, tanto no mercado regulado brasileiro quanto na implementação do Artigo 6º do Acordo de Paris, que permite a venda de créditos entre países. Ele defende que o Brasil avance em acordos bilaterais, como os firmados por Singapura com outros países, e assuma uma postura mais “inovadora e liderante” na regulação do mercado de carbono: “Para investir em projetos que duram 40, 60, 100 anos, é preciso previsibilidade regulatória”, afirma.
O Veja+Verde, conduzido pelo editor Diogo Schelp, traz empresários, personalidades, gestores públicos e especialistas para apresentar suas visões e soluções sobre um dos maiores desafios para a sobrevivência da humanidade: conciliar desenvolvimento econômico e social com preservação do meio ambiente. O programa pode ser assistido toda quinta-feira, às 17h, nos canais Samsung TV Plus canal 2059, LG Channels canal 126, TCL Channel 10031 e Roku 221, além de estar disponível no YouTube de VEJA.







