Brasil deve retaliar tarifaço dos EUA? Veja os riscos da Lei da Reciprocidade
Presidente da Câmara, Hugo Motta, declarou apoio nesta sexta-feira à proposta do governo de usar a Lei da Reciprocidade
Uma eventual retaliação do Brasil às tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos ganhou força nesta sexta-feira, 17, após o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, declarar apoio ao uso da Lei da Reciprocidade pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Economistas e especialistas ouvidos por VEJA Negócios avaliam que uma resposta comercial pode ampliar as tensões entre os dois países e pressionar a inflação, mas defendem que, se houver retaliação, ela seja concentrada em setores com menor impacto sobre a economia brasileira.
Para Bruno Medeiros Durão, especialista em direito bancário, o Brasil poderia direcionar eventuais tarifas para produtos que têm peso relevante nas exportações americanas e contam com fornecedores alternativos em outros mercados.
Entre os exemplos citados estão máquinas e equipamentos industriais, produtos químicos e equipamentos eletrônicos. “A tendência é que o Brasil escolha setores que aumentem a pressão econômica sobre os EUA, mas com o menor impacto possível para consumidores e empresas brasileiras”, afirma Durão.
Gustavo Pessoa, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), acrescenta que produtos agrícolas, além de combustíveis como etanol e gasolina, também poderiam entrar na lista de uma eventual retaliação, por serem produzidos em larga escala no Brasil e, na avaliação dele, apresentarem menor potencial inflacionário.
Retaliar é a melhor alternativa?
Na avaliação de Pessoa, as tarifas americanas tendem a produzir, no curto prazo, um efeito deflacionário sobre alguns produtos exportados pelo Brasil.
Segundo o economista, parte da produção que deixaria de ser enviada aos Estados Unidos permaneceria no mercado doméstico, ampliando a oferta e pressionando os preços para baixo. “Por outro lado, isso pode aumentar o desemprego no médio prazo, porque a produção tende a diminuir, reduzindo a necessidade de mão de obra”, afirma.
Caso o governo opte por acionar a Lei da Reciprocidade, Pessoa defende uma estratégia seletiva. Segundo ele, uma resposta ampla poderia elevar os custos de produção, pressionar a inflação e reduzir o consumo. “Se houver retaliação, ela precisa se concentrar em setores específicos. Caso contrário, o risco de um repique inflacionário aumenta”, diz Pessoa.
Os economistas ressaltam, no entanto, que esse cenário depende de uma eventual resposta do governo brasileiro, que ainda não foi anunciada.
Sem uma retaliação, a avaliação de Pessoa é que os principais efeitos tendem a ser o cenário base já citado, o qual reflete queda dos preços de alguns produtos voltados à exportação e uma possível redução do nível de emprego nos setores mais afetados.
Carlos Eduardo Oliveira, conselheiro do Corecon-SP, também defende uma aplicação seletiva da Lei da Reciprocidade. “O objetivo da Lei da Reciprocidade é aumentar o poder de negociação do país, e não necessariamente promover uma escalada comercial que prejudique a economia brasileira”, afirma.
Para o médio prazo, os especialistas reconhecem que o cenário permanece incerto. Uma escalada da disputa comercial pode pressionar a inflação e, dependendo da intensidade, dificultar o ciclo de queda dos juros.
“Uma alta da Selic pode não acontecer se as tarifas forem bem aplicadas. Entretanto, se o governo perder a mão, a economia pode entrar em descompasso e exigir uma elevação dos juros”, afirma Durão, especialista em direito bancário.
Apesar das diferentes avaliações sobre uma eventual retaliação, os especialistas convergem na defesa da continuidade das negociações entre Brasília e Washington.
Segundo Oliveira, ainda há espaço para ampliar a lista de exceções, negociar acordos setoriais e revisar parte das medidas anunciadas. “Como Brasil e Estados Unidos possuem uma relação comercial relevante para ambos os lados, uma solução negociada continua sendo uma possibilidade concreta”, conclui.







