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Brasil caminha para ultrapassar os EUA e se tornar o maior exportador agrícola do planeta

A força do agro brasileiro, porém, ainda está longe de ser explorada em toda a sua dimensão

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 9 ago 2026, 08h00 | Atualizado em 12 ago 2026, 13h04
Brasil caminha para ultrapassar os EUA e se tornar o maior exportador agrícola do planeta Priorizar nos meus resultados Google

O mapa do comércio agrícola mundial está prestes a mudar. Depois de mais de um século de liderança dos Estados Unidos, o Brasil caminha para assumir, pela primeira vez, o posto de maior exportador agrícola do planeta. Em 2025, os produtores americanos venderam 171 bilhões de dólares ao exterior, apenas 2 bilhões a mais que os brasileiros. Para 2026, o governo Trump projeta 177,5 bilhões de dólares em remessas internacionais, enquanto o Brasil, mantido o ritmo atual, poderá fechar o ano com 180 bilhões de dólares. A escalada nacional começou a ser construída décadas atrás, com investimentos em tecnologia e sucessivos ganhos de produtividade, num processo em que a Embrapa, o braço de pesquisa do agro nacional, teve papel decisivo. A essa transformação doméstica somou-se uma oportunidade externa: as disputas comerciais entre Estados Unidos e China abriram caminho para os produtos brasileiros, e o resultado é uma mudança no jogo de forças do setor que poucos consideravam possível até pouco tempo atrás.

A virada começou em 2018, durante o primeiro mandato de Donald Trump. As tarifas impostas por Washington levaram Pequim a reduzir a dependência dos fornecedores americanos e a direcionar uma parcela maior de suas compras para o mercado brasileiro. Nos anos seguintes, uma sucessão de crises internacionais voltou a mexer com o comércio de alimentos. A peste suína africana dizimou parte do rebanho chinês, enquanto a guerra entre Rússia e Ucrânia provocou oscilações nos mercados de grãos e fertilizantes. O agro brasileiro soube reagir a cada novo choque global, apoiado na disponibilidade de terras, no conhecimento técnico e na força de sua produção. Essa combinação permitiu ao país ocupar os clarões abertos no cenário internacional, tornando-se líder nas exportações de soja, café, açúcar e carne bovina e avançando sobre produtos fortes dos Estados Unidos, como milho e algodão. “Os conflitos deram ao Brasil a oportunidade, mas o país só ocupou esse espaço graças à sua competência”, diz Larissa Wachholz, coordenadora do Programa Ásia do Centro Brasileiro de Relações Internacionais.

A capacidade de responder ao aumento global da demanda por alimentos começou a ser construída muito antes das recentes turbulências geopolíticas. Da década de 1970 em diante, investimentos em pesquisa agrícola transformaram áreas antes consideradas impróprias para o cultivo em algumas das mais produtivas do mundo. O desenvolvimento de variedades adaptadas ao clima tropical, a correção dos solos ácidos do Cerrado e a adoção de novas técnicas de manejo permitiram elevar a produtividade e incrementar a oferta de grãos sem depender apenas da abertura de novas áreas. Ao longo desse processo, sistemas que integram soja, milho, algodão e pecuária passaram a permitir até três safras anuais em uma mesma propriedade, uma vantagem difícil de ser reproduzida em países de clima temperado, como os Estados Unidos. “Quando você explica para um americano o que é uma terceira safra, ele simplesmente não entende, porque na geografia deles isso é impossível”, afirma Patrícia Arantes, diretora-executiva da Sociedade Rural Brasileira. “O Brasil é o maior caso de sucesso do agronegócio mundial.”

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A agricultura sempre conviveu com riscos que fogem ao controle do produtor, do clima às oscilações dos preços. Nos últimos anos, graças à agenda protecionista de Trump, os agricultores americanos ganharam problemas adicionais justamente quando a competição com o Brasil se tornou mais acirrada. Segundo a American Farm Bureau Federation, as principais culturas dos Estados Unidos devem acumular perdas de 32 bilhões de dólares em 2026. As exportações para a China encolheram — no caso da soja, a queda chegou a 40% —, enquanto os custos de produção subiram.

Infográfico sobre avanços na produtividade agrícola. O Brasil teve aumento de 16% entre 2015 e 2025, contra 9% dos Estados Unidos. A safra brasileira de grãos saltou de 95 para 170 milhões de toneladas, com área plantada de 33 para 47 milhões de hectares e produtividade de 2,9 para 3,6 toneladas por hectare

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A situação se agravou de fevereiro para cá, com a escalada do conflito envolvendo o Irã. O temor de interrupções no Estreito de Ormuz, rota de cerca de um quinto do petróleo vendido no mundo, fez o diesel disparar até 60% nos postos americanos. Para os agricultores, o impacto foi imediato: o combustível abastece tratores e colheitadeiras e pesa no transporte das safras. Com receitas pressionadas pelas vendas menores ao exterior e despesas maiores dentro das fazendas, os produtores americanos se tornaram menos competitivos no momento em que o Brasil arrancava para ampliar a presença nos mercados globais. “As decisões abruptas na política comercial e a incerteza em relação às tarifas tornam o cenário extremamente desafiador”, diz Mike Lavender, diretor da National Sustainable Agriculture Coalition, organização americana dedicada a discutir políticas para a agricultura sustentável.

REVÉS - Trump em feira agrícola nos EUA: agenda protecionista prejudicou produtores locais
REVÉS - Trump em feira agrícola nos EUA: agenda protecionista prejudicou produtores locais (Saul Loeb/AFP)
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No centro da disputa entre brasileiros e americanos está o maior comprador de alimentos do mundo. A China se tornou um mercado cada vez mais importante à medida que o aumento da renda e a urbanização foram transformando a dieta de sua população, ampliando o consumo de carnes, leite e alimentos processados. Com um quinto dos habitantes do planeta e menos de 10% das terras agricultáveis, o país não consegue produzir tudo o que consome e acumula um déficit comercial agrícola de 125 bilhões de dólares, o maior do mundo. Cerca de 80% da soja consumida pelos chineses vem do exterior, e 70% dessas compras têm origem brasileira. Na carne bovina, metade das importações chinesas provém do Brasil. Somente no primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para a China somaram 58 bilhões de dólares, quase 20% acima do montante registrado um ano antes.

UNIÃO - Lula com o presidente chinês Xi Jinping: o agro aproxima os dois países
UNIÃO - Lula com o presidente chinês Xi Jinping: o agro aproxima os dois países (Tingshu Wang/Getty Images)
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A força do agro brasileiro, porém, ainda está longe de ser explorada em toda a sua dimensão. O setor responde por quase metade das exportações do país e sustenta boa parte do superávit comercial, mas soja e carnes concentram cerca de 40% das vendas externas. A dependência se estende aos compradores: a China é, de longe, o principal destino e já procura reduzir as importações de soja como parte de sua política de segurança alimentar. Ao mesmo tempo, existe uma ampla fronteira a ser explorada na agregação de valor. Nos Estados Unidos, alimentos processados, bebidas, frutas e vegetais representam 38% das exportações agrícolas. No Brasil, apenas 7%. Depois de mostrar sua capacidade de produzir mais e melhor, o agronegócio brasileiro precisa agora ampliar mercados, fortalecer a indústria de alimentos e fazer com que uma parcela maior da produção deixe o país valendo mais. O campo já provou que consegue multiplicar safras. A nova fronteira é multiplicar o valor de cada uma delas.

Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007

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