Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

Manifesto da Fiesp foi adiado, mas relação de governo com ex-aliados piora

Texto em defesa da democracia faz governo subir o tom contra bancos e gera mal-estar no meio empresarial; circulação do texto seria amanhã

Por Felipe Mendes Atualizado em 30 ago 2021, 19h33 - Publicado em 30 ago 2021, 19h02

O rosto do ministro da Economia, Paulo Guedes, amanheceu estampado nesta segunda-feira, 30, em paredes da Avenida Faria Lima, centro financeiro da cidade de São Paulo. A mensagem, no entanto, não era positiva. Em vez de tecer apoio ao mandatário dos rumos fiscais do país, a ‘colagem’ destacava um Guedes envolto à mensagem “Faria Loser”, indicando com o trocadilho o ministro como um ‘perdedor’. É uma peça típica que seria feita por opositores do ministro. O problema maior para Guedes é que, mesmo entre os seus mais fortes apoiadores, ele já contou com maior popularidade. Nada prova melhor isso do que as relações estremecidas com o setor produtivo e financeiro, o último exatamente de onde vem suas origens.

Uma prova disso é o manifesto prometido para ser divulgado nos próximos dias em que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, cobra harmonia entre os três poderes. O texto, que deveria circular nesta terça-feira, 31, está sendo interpretado como contrário ao presidente Jair Bolsonaro, que tem destinado ataques ao Judiciário. Coube ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), colocar ‘panos quentes’ à divulgação do texto em conversa por telefone com o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, outrora um fiel apoiador do governo federal. A veiculação da peça foi postergada, segundo nota da federação enviada a VEJA, a fim de receber novos signatários. “Em 24 horas, recebemos mais de 200 adesões, das mais representativas entidades brasileiras. Dezenas de outras entidades também manifestaram interesse em participar”, informou.

A carta foi endereçada pela entidade paulista para outras associações na última quinta-feira, dia 26. No dia seguinte, segundo a Fiesp, cerca de 200 federações já tinham aderido ao manifesto. Dentre elas, a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), o que causou consternação e uma dose de revolta entre membros do governo. Os presidentes dos bancos públicos, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, foram contrários a endossar um texto cuja finalidade, ainda que de forma velada, se volta contra o presidente Bolsonaro. Pedro Guimarães, o diretor-presidente da Caixa, levou a insatisfação a Bolsonaro, Guedes e ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Ficou-se acordado que, assim que a divulgação ocorrer, os bancos públicos irão se destituir da federação. Confusão formada.

Nesta segunda-feira, Guedes acusou a federação de sugerir um tom mais crítico ao governo no manifesto. A Febraban negou peremptoriamente. Em comunicado divulgado após a insinuação do ministro, a entidade disse que “desde sua origem, a Febraban não participou da elaboração de texto que contivesse ataques ao governo ou oposição à atual política econômica”, informa trecho da nota. “O conteúdo do manifesto pedia serenidade, harmonia e colaboração entre os Poderes da República e alertava para os efeitos do clima institucional nas expectativas dos agentes econômicos e no ritmo da atividade. A Febraban submeteu o texto a sua própria governança, que aprovou ter sua assinatura no material. Nenhum outro texto foi proposto e a aprovação foi específica para o documento submetido pela Fiesp.” Guedes disse que a discórdia em relação ao tom do texto teria levado a Fiesp a suspender a publicação.

De fato, o conteúdo da publicação não deveria ter causado tanta repercussão entre as figuras públicas. Intitulada “A Praça é dos Três Poderes”, o manifesto é bastante moderado e não cita sequer uma vez o nome de Bolsonaro. Apenas pede “diálogo, pacificação política, estabilidade institucional e, sobretudo, foco em ações e medidas urgentes e necessárias para que o Brasil supere a pandemia, volte a crescer, a gerar empregos e possa reduzir as carências sociais que atingem amplos segmentos da população”.

A verdade é que desde o início da tramitação da segunda fase da reforma tributária, que decidiu taxar lucros e dividendos e acabar com a dedução de lucros sobre capital próprio, o que o próprio ministro classificou como “erro de dosagem”, os empresários estão mais ariscos com o governo Bolsonaro. Em almoço realizado em 8 de julho, as desavenças ficaram claras. Mesmo com o apoio do empresário João Carlos Camargo, que — aproveitando um vácuo deixado pelas desavenças dentro do movimento Brasil 200 — fundou o grupo Esfera para se contrapor ao Lide, criado há muitos anos pelo atual governador João Doria, e para servir de ponte para Bolsonaro e Guedes com as lideranças empresariais, o governo não tem conseguido reparar o apoio de parte da classe que o elegeu.

Continua após a publicidade

Publicidade