Boicote de Trump à Bombardier pode favorecer a Embraer? Entenda
Eventuais restrições à fabricante canadense podem abrir espaço para brasileira, mas efeito depende da duração das medidas e de novos pedidos
Na última terça-feira, 8, o governo dos Estados Unidos anunciou a proibição, daqui a três semanas, da importação de produtos canadenses como laticínios, motocicletas e a maior parte das bebidas alcoólicas. A medida amplia a guerra comercial entre os dois países e acontece um dia depois de o Canadá impor tarifas de 27 bilhões de dólares canadenses (20 bilhões de dólares) sobre os produtos americanos.
Já no dia anterior, na segunda-feira, 7, o presidente americano Donald Trump havia pedido um boicote à Bombardier, fabricante canadense de jatos executivos. A empresa emprega mais de 3 mil pessoas em nove instalações nos EUA e compra componentes de cerca de 2,8 mil fornecedores americanos.
Uma possível dificuldade à empresa aeroespacial canadense acende dúvidas sobre como a situação pode beneficiar uma concorrente direta: a brasileira Embraer. Para Fernando Ferrer, sócio e head da mesa de renda variável da Lifetime Investimentos, o impacto, no entanto, depende de quanto tempo as medidas de Trump permanecerão em vigor.
Segundo Ferrer, o histórico recente da política comercial do presidente americano indica que as tarifas têm sido usadas principalmente como instrumento de negociação, e não necessariamente como mudanças permanentes na política comercial dos EUA. Esse fator reduz a possibilidade de uma eventual restrição à Bombardier provocar uma mudança estrutural no mercado de jatos executivos.
Outro ponto é o ciclo longo da indústria aeronáutica. A Embraer já possui uma carteira de pedidos, conhecida no mercado como backlog, próxima de 35 bilhões de dólares. O valor corresponde a cerca de quatro a cinco anos de produção da companhia. Assim, mesmo que a fabricante brasileira ganhe espaço com uma eventual redução da presença da concorrente, o aumento da produção não ocorreria de forma imediata.
“Claramente não é ruim para a Embraer”, afirma o especialista. Todavia, ele não vê uma relação positiva direta no curto prazo. “Para fazer um efeito material na companhia, essas tarifas deveriam perdurar por muitos anos e deveríamos ver um aumento importante da carteira de pedidos da companhia, coisa que ainda não tem acontecido”, conclui.
A avaliação é semelhante à de Davi Lelis, especialista e sócio da Valor Investimentos. Para ele, a possível perda de clientes da Bombardier pode, de fato, abrir espaço para a Embraer, mas esse ganho de participação de mercado tende a aparecer mais adiante. A aviação executiva da companhia brasileira já opera com uma carteira robusta de pedidos e, portanto, não teria capacidade disponível para absorver rapidamente uma nova demanda.
Lelis destaca que a Embraer entregou 65 aeronaves — sendo 45 jatos executivos e 20 aviões comerciais — no segundo trimestre de 2026, o melhor resultado em 16 anos. A empresa trabalha com uma previsão de quase 200 entregas anuais no segmento. Por isso, mesmo que clientes da Bombardier migrassem imediatamente para a concorrente brasileira, a capacidade de produção seria um limitador no curto prazo. Na visão do especialista, um eventual ganho mais concreto poderia começar a aparecer entre 2028 e 2030.
Há ainda um segundo fator que coloca limites ao possível benefício. A Embraer também tem forte exposição ao mercado americano, especialmente na aviação executiva, segmento em que, segundo Lelis, cerca de 75% das vendas são destinadas aos EUA. Isso significa que uma política comercial mais restritiva de Trump poderia atingir a empresa brasileira caso as atuais isenções fossem alteradas.
Até o momento, as aeronaves civis, motores e componentes da Embraer ficaram fora das tarifas impostas pelo governo americano aos produtos brasileiros. Então, a manutenção dessa isenção é um ponto relevante para a companhia. “O boicote à Bombardier abre uma janela competitiva para a Embraer, mas o ganho concreto é de médio prazo”, diz.





