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Bernanke está de saída do Fed; saiba como isso afeta o Brasil

Autoridade monetária ganhou poder capaz de alterar a dinâmica cambial de dezenas de países; sua mudança de presidente é aguardada com ansiedade pelo mercado

Por Ana Clara Costa 25 ago 2013, 13h51

A escolha do economista que chefiará o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) nunca mobilizou a opinião pública. De Charles Hamlin, em 1914, a Ben Bernanke, a Casa Branca sempre elegeu o titular da cátedra econômica mais importante do mundo sem incitar grandes debates. Em 2013, tudo mudou. A corrida que tem como favoritos a atual vice-presidente do banco, Janet Yellen, e o ex-secretário do Tesouro, Larry Summers, conta até mesmo com bolão em Wall Street e pesquisas de opinião nos principais meios de comunicação. Em teoria, a escolha é técnica e não deveria ter ares de disputa eleitoral. Mas a torcida do mercado se mostra inevitável depois da importância que o Fed ganhou ao implementar um programa colossal de estímulos que conseguiu resgatar a economia americana da bacia das almas. Nas últimas semanas, os efeitos de um possível corte desses estímulos pesaram sobre o Brasil: o dólar saiu de 2,25 e foi para 2,45 em questão de dias. Voltou a 2,35 reais apenas depois que o Banco Central anunciou uma ofensiva de 100 bilhões de dólares para conter a alta.

No Brasil, o poder do Banco Central é constantemente ofuscado pela interferência do governo. Tal situação fez com que o BC perdesse alguma credibilidade – principalmente depois que a inflação voltou a subir. Nos Estados Unidos, o órgão era cercado de discrição, mesmo tendo proximidade política com a Casa Branca, sobretudo na gestão de Alan Greenspan, que reinou de 1987 a 2006. Contudo, durante e depois da crise financeira, o recém-escolhido Ben Bernanke conseguiu impulsionar o poder do órgão de maneira sem precedentes – mesmo não dispondo de apadrinhamento político. Bernanke, um acadêmico de Harvard, fez com que o Fed ampliasse seu escopo para além da fronteira da política monetária. “A atuação do Fed começou a se parecer com política fiscal, além de influenciar o mercado de crédito. Ele não só determinava a taxa de juros, mas tomava decisões econômicas mais amplas. E fez isso porque alguém tinha que fazer, já que o Tesouro e o Congresso não conseguiam agir rápido”, afirma o economista Kenneth Rogoff, renomado professor de Harvard.

Programa de estímulos – Uma dessas decisões que, hoje, alguns dizem ter “salvado o mundo” foi criar um programa de nome indigesto – afrouxamento quantitativo (ou quantitative easing). Ele consistia na compra mensal de 85 bilhões de dólares em títulos do Tesouro e de bancos americanos como forma de injetar dólares na economia. O plano tinha como objetivo dar liquidez às instituições financeiras para que elas pudessem emprestar mais aos clientes e estimular o consumo. No início, muitos duvidavam de seus efeitos. Mas, com a economia americana voltando a crescer num patamar de 2% em 2013, os estímulos se provaram eficazes. Em janeiro de 2014, Bernanke deixará o Fed como herói. Greenspan saiu com uma capa mais sombria – a de ser um dos culpados pela crise.

Em junho, quando uma reportagem do jornal britânico Financial Times afirmou que o Fed começaria a retirar os estímulos gradualmente, o mercado financeiro entrou em pânico. As incertezas se aprofundaram conforme membros do Fed começaram a se pronunciar sobre o tema. Em seguida, investidores correram em massa para os títulos do Tesouro americano, cujos rendimentos são atrelados à taxa de juros, que está próxima de zero desde a crise. Esses papéis são considerados o investimento mais seguro do mundo – e a simples possibilidade de o Fed retirar os estímulos fez com que o mercado acreditasse que o próximo passo seria a subida dos juros para patamares próximos do período pré-crise, o que melhoraria a rentabilidade dos títulos do Tesouro. Com isso, uma avalanche de dinheiro saiu dos mercados emergentes em direção a esses papéis, também chamados de treasuries. “Primeiro, os investidores saem de onde está mais fácil de sair. E o Brasil e a Índia são esses países. Não possuem tantas travas no mercado de câmbio como China e Rússia. São economias com câmbio flutuante”, afirma o professor de Columbia, Thomas Trebat, que dirige o centro de estudos da universidade norte-americana na América Latina.

Brasil – Segundo Trebat, a deterioração dos indicadores macroeconômicos do Brasil, apesar de preocupante, não foi o que motivou a saída de investidores e a alta do dólar. “A questão fiscal é notícia velha. Quem tomou a decisão com base nisso, o fez há algum tempo. O que ocorreu nos últimos dias teve como causa a questão do Fed e mostra o estouro derradeiro da bolha brasileira. A moeda se valorizou muito graças à euforia do mercado externo em relação ao Brasil. Agora, é hora de voltar”, afirma o professor. Quando, de fato, o banco central americano começar a reduzir os estímulos, o economista acredita que os efeitos serão menos nocivos ao Brasil. “Tudo está sendo precificado agora”, diz.

Em meados de 2011, o ministro Guido Mantega criticou abertamente o Fed por sua política de estímulos, afirmando que ela criaria um desequilíbrio grave nos mercados. Agora que o fim parece próximo, o ministro sente os solavancos e segue culpando o Fed – desta vez, pela retirada dos estímulos. “O Fed vai fazer, agora, o que o Sr. Mantega pediu nos anos anteriores. É difícil entender como o Brasil poderia se sair bem se o Fed tivesse escutado essa recomendação àquela época. O fim do programa em 2011 teria significado uma recessão profunda nos Estados Unidos. E dificilmente teria sido um período fácil para o Brasil”, diz Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e um dos mais renomados pesquisadores de mercado de câmbio e divisas.

Nova era – Diante deste contexto de instabilidade cambial e frustração com os emergentes, uma nova liderança deverá assumir o Fed. O nome será anunciado pelo presidente Barack Obama em setembro. Apesar de não haver qualquer informação oficial a respeito do tema, o mercado aposta em Yellen e Summers. Se escolher Yellen, que trabalha no Fed desde 2004 e conhece os meandros da instituição, Obama agradará aos Democratas e à comunidade econômica – que apoia em peso a economista de Yale. Os jornais New York Times e Financial Times já tornaram pública sua preferência por Yellen – que, caso escolhida, será a primeira mulher a comandar a autoridade monetária do país. Os ganhadores do Nobel Paul Krugman e Joseph Stiglitz publicaram artigos endossando a colega. “Ela foi uma das minhas mais brilhantes alunas”, escreveu Stiglitz. Alguns dos principais formadores de opinião dos Estados Unidos, como John Cassidy, da The New Yorker, e Ezra Klein, do Washington Post, não falaram abertamente sobre seu apoio – mas ele é notado nas entrelinhas dos inúmeros artigos que escreveram sobre o tema desde a confirmação da saída de Bernanke.

Já Summers, líder econômico da Casa Branca em governos democratas e republicanos, tem a benção dos poderosos hedge funds de Wall Street e, dizem alguns, do ex-secretário do Tesouro Timothy Geitner. A coluna de Ezra Klein no Post foi a primeira a informar que, apesar de o mercado e a academia defenderem a entrada de Yellen na chefia do Fed, a escolha por Summers tinha ganhado espaço na Casa Branca. “Ele tem poucos apoiadores públicos porque, em todos os casos, que o apoia o faz em off, porque são pessoas da Casa Branca. E são essas as pessoas que, de fato, tomam a decisão”, escreveu o colunista.

A capacidade técnica de Yellen e Summers não é colocada em xeque por nenhum grande expoente do mercado. Contudo, a política de continuidade do órgão é fator primordial para garantir alguma estabilidade aos mercados emergentes num momento em que uma simples notícia de jornal sobre o Fed tem o poder de estourar uma crise cambial em diversos países. Yellen, neste caso, ganha destaque, já que foi ela a artífice, junto com Bernanke, do programa de estímulo colocado em prática desde 2007. Uma transição suave, quase imperceptível, é o que o mercado espera caso ela assuma. Summers, apesar de dominar a regulação americana, jamais trabalhou no Fed. Sua tendência a priorizar a política fiscal assusta algumas alas econômicas. Contudo, seu trânsito político em Washington, algo que falta a Yellen, parece suprir essa carência de experiência em política monetária. Mas, segundo Trebat, de Columbia, o ideal mesmo seria que Bernanke não saísse no atual momento. “Ele salvou o mundo. Foi pragmático e levou adiante um programa excepcional. Se eu fosse o Obama, manteria o Bernanke”, diz. Mas o acadêmico de Harvard parece ter se cansado do posto. Segundo o próprio presidente Obama parece, Bernanke ficou no cargo “muito mais tempo do que queria”.

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