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BC tem autonomia e não sofre pressão política, diz Mantega

Integrantes do governo esforçam-se para negar a interferência no Banco Central. Contudo, essa percepção não decorre apenas da última decisão do órgão, mas sim de um processo que já dura meses

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, rechaçou nesta quinta-feira a avaliação de que o Comitê de Política Monetária (Copom) sofreu pressão política para cortar, nesta quarta, a taxa básica de juros de 12,5% para 12% ao ano, numa decisão surpreendente. Ele declarou que o BC não sofreu qualquer tipo de pressão do governo para baixar a taxa Selic em 0,50 ponto porcentual. “Isso é bobagem. O Copom não sofre pressão política”, afirmou nesta tarde, ao deixar o prédio do Ministério da Fazenda, em Brasília, para embarcar para São Paulo. “O que eles (BC) fizeram é muito positivo e o que vale é a avaliação deles. É melhor esperar a ata do Copom que eles explicam aquilo que foi feito”, disse. Mantega acrescentou que a instituição tem autonomia para tomar as decisões de política monetária.

Negativas – Após a decisão desta quarta-feira, o governo se esforça para afastar a percepção instalada de que o BC transformou-se em mera extensão do Palácio do Planalto. Horas antes, a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti (PT), garantiu que existe “total autonomia” no BC. Na parte da manhã, partiu da própria presidente Dilma Rousseff a negativa de que o órgão tenha perdido sua independência. Em Minas Gerais, ela afirmou que a decisão do BC foi técnica, baseada na avaliação da crise econômica internacional. “O governo federal, desde o governo do presidente Lula, aliás, antes do governo de Lula, optou por uma relação entre o governo e o Banco Central de autonomia. Então, nós olhamos e interpretamos também esses movimentos. Eu acredito que foi a situação internacional que mudou o sentido do que estava acontecendo”, afirmou. “O Copom responde pelo Copom. Eu respondo pelo governo”, frisou.

Ainda que exista um esforço coordenado em Brasília para aclamar as críticas do mercado, o fato concreto é que os economistas já deixaram há tempos de “comprar” as teses defendidas pelo Banco Central. Este processo não decorre apenas da decisão última tomada pelo colegiado – considerada a “gota d’água”, de tão absurda -, mas sim de um processo, que já soma alguns meses, pontuado por decisões consideradas equivocadas, péssima comunicação com os agentes econômicos e sinais de estranha semelhança entre o que pensam os integrantes da equipe “de governo” de Dilma e os diretores do BC supostamente indepedente.

Críticas do mercado – Ainda que não de forma intencional, a presidente acabou por repetir o mesmo argumento apresentado nesta quarta-feira pelo BC para justificar a polêmica decisão: de que a deterioração do cenário externo e seu impacto no país abrem espaço para uma redução das pressões inflacionárias”. O mercado, de forma unânime, discorda. “Eles (os diretores do BC) querem dar a mesma resposta que deram em 2008, antecipando-se a uma crise que não é a mesma daquele ano”, avalia o economista da Tendências Consultoria, Juan Jensen. “Não acho que o cenário internacional seja ‘desinflacionário’. Os preços das commodities estão em queda, mas o real também começa a desvalorizar – e uma coisa anula a outra”, acrescenta.

Parte dos analistas ouvidos pelo site de VEJA até esperava uma queda de juros nesta reunião, mas de 0,25 ponto porcentual. Tal medida já teria sido criticada. Ao optar por uma alta ainda maior, que não encontra respaldo nos últimos indicadores econômicos, cresceu a desconfiança de pressões políticas vindos do Planalto e do Ministério da Fazenda. Os analistas citam que a confiança do consumidor e do empresário estão em níveis historicamente elevados; o crédito voltou a crescer; o mercado de trabalho permanece muito aquecido; e a renda continua em uma trajetória de alta muito forte. “Baixar juros agora é dar combustível para a inflação”, afirma Jensen.

Experimentalismo – Reforçam as desconfianças de ingerência política o fato de este BC de Dilma ter mudado de estratégia várias vezes ao longo do ano. No mínimo, dizem os especialistas, estes diretores parecem gostar de experimentar – o que, por si só, é temerário da parte de uma autoridade monetária. Inicialmente, o órgão começou a aumentar juros de forma tímida, apostando, primeiro, nas medidas macroprudenciais como forma de controlar o câmbio e a inflação. Ao perceber sua ineficácia, iniciou uma trajetória de aumento gradual dos juros, que passaram de 11,25% a 12,5% entre janeiro e julho deste ano. Agora, tal estratégia parece ter sido desmontada.

Problema ns comunicação – O mercado critica ainda, não de hoje, as estratégias de comunicação do Banco Central – aspecto fundamental a quem cabe coordenar as expectativas dos agentes econômicos. “Há uma dificuldade crescente de entender o BC”, reclama o economista Guilherme Maia, da gestora de recursos M. Safra. Nesta quinta-feira, o ex-presidente do órgão, Gustavo Loyola, também tocou neste ponto. Para ele, mudanças de interpretação precisam ser comunicadas de forma transparente ao mercado. “O BC não convenceu. Não há evidências de que o mundo vai entrar em recessão tão rapidamente. Além disso, a inflação está acima da meta e as expectativas para o próximo ano apontam que ela também está distante dos 4,5%”, afirmou.

(com Agência Estado)