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BC: sem contrapartidas, auxílio emergencial pode ter efeito negativo

Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, diz que economia pode crescer menos que o esperado e que todo mundo precisa ser vacinado

Por Josette Goulart Atualizado em 5 mar 2021, 09h54 - Publicado em 9 fev 2021, 13h06

Depois de um mês do fim do auxílio emergencial, a pauta voltou com força nesta semana, inclusive contando com o aval do presidente Jair Bolsonaro. Primeiramente, o presidente dizia que o Brasil ia quebrar se tivesse mais uma rodada de auxílio. Agora, ele já vê como necessário para que o país atravesse a nova onda de casos de Covid-19. Mas o assunto está preocupando mesmo é a área técnica do governo. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse nesta terça-feira, 9, que, se for adotado um pacote de estímulo sem contrapartidas, há um risco de a resposta do mercado superar o efeito do estímulo. Ou seja, o tiro pode sair pela culatra.

Há muito pouco espaço para ação, temos que entender isso”, disse Campos Neto em evento na manhã desta terça-feira. “Se você fizer um novo pacote sem uma contraparte, a mensagem é que a dívida vai continuar a crescer e o prêmio de risco que os investidores vão cobrar. E isso poderá ter uma implicação para a política monetária do BC.”

  • As tais contrapartidas seriam, por exemplo, seriam a aprovação pelo Congresso Nacional de medidas para controle de gastos. Mas o novo comando da casa, apesar de dizer durante e depois da eleição para o cargo que prioriza o ajuste, já não tem mostrado agora a mesma preocupação com a agenda. Na segunda-feira, o novo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP), falou em uma “excepcionalização temporária” no Orçamento. Ou seja, um pagamento urgente antes mesmo da aprovação de mais recursos para um novo programa social. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM), foi ainda mais claro e, em entrevista à Globonews, declarou que não é possível condicionar a concessão do benefício a medidas de ajuste fiscal.

    Os posicionamentos dos presidentes da Câmara e do Senado mostram que, mesmo com o otimismo para aprovação das pautas do governo em função do novo comando, não necessariamente vai sair de lá o que a parte técnica do governo almeja.

    As preocupações fiscais do mercado têm afetado o câmbio, que por sua vez estimulam a inflação, que por sua vez pode obrigar a um aumento dos juros. Campos Neto disse que a economia só vai retomar de fato se houver investimento privado e que, para isso, é preciso “credibilidade, credibilidade, credibilidade”. O mercado está muito sensível, por exemplo, a pequenas mudanças na inflação. Ele acredita que vários fatores temporários ajudaram na alta dos preços dos alimentos, como até mesmo o auxílio emergencial, que deu mais poder de compra às pessoas. “Muitos dos fatores por trás da inflação parecem ser temporários, mas já reconhecemos que há uma disseminação e dissemos que estamos vigilantes sobre como isso vai se desenvolver no futuro”, afirmou. Nesta terça-feira, o IBGE apresentou um arrefecimento da inflação em janeiro, primeiro mês sem o auxílio emergencial. O IPCA ficou em 0,25%, após quatro meses de crescimento. 

    Outro ponto importante destacado por Campos Neto é que ele acredita que haverá uma queda da atividade econômica neste primeiro trimestre maior do que a esperada, em função dos novos casos da Covid. Mas ele crê que a vacinação vai ser rápida no Brasil, assim que as vacinas estiverem disponíveis. “Obviamente precisamos vacinar todo mundo”, disse.

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