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BC decreta intervenção no Banco Cruzeiro do Sul

Por Alberto Alerigi e Luciana Otoni

SÃO PAULO/BRASÍLIA, 4 Jun (Reuters) – O Banco Central decretou nesta segunda-feira intervenção no Banco Cruzeiro do Sul, após ter identificado o comprometimento de sua situação econômico-financeira e “grave violação de normas” pela instituição.

O BC informou ainda que foi identificada “insubsistência em itens do ativo”. O problema estaria relacionado à contabilização irregular na carteira de crédito e as falhas foram identificadas pelo BC entre março e abril, disse uma fonte a par do assunto.

O Cruzeiro do Sul atua principalmente no crédito consignado e na oferta de empréstimos de curto prazo a empresas atrelados a recebíveis. A carteira total de financiamentos da instituição era de 7,6 bilhões de reais no fim do primeiro trimestre.

A situação do banco é isolada e teria sido resultante de “problemas de gestão e administração”, disse uma fonte a par do assunto à Reuters. Assim, segundo a mesma fonte, não há preocupação com a solidez do sistema financeiro nacional.

As primeiras notícias sobre dificuldades do Cruzeiro do Sul surgiram na semana passada, quando o BTG Pactual foi mencionado como candidato a comprar o banco.

Nos dois últimos pregões na bolsa paulista da semana passada, as ações preferenciais da Cruzeiro do Sul, que possuem liquidez bastante reduzida, desabaram 37 por cento. A negociação de papéis do banco foi suspensa pela Bovespa.

Segundo informou o BC nesta manhã, os bens dos controladores e dos ex-administradores do Cruzeiro do Sul foram tornados indisponíveis.

O BC instituiu o Regime de Administração Especial Temporária (Raet) no Cruzeiro do Sul por 180 dias, por meio do qual os dirigentes da instituição por um conselho de diretores ou por uma pessoa jurídica. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) foi nomeado como administrador especial do banco.

Uma fonte qualificada do governo informou que será feito um “balanço de abertura” para verificar a contabilidade do Cruzeiro do Sul. Num segundo momento serão tomadas providências para correção de supostas irregularidades, etapa em que poderá ser considerada a venda integral ou parcial do Cruzeiro do Sul.

“Há vários pleitos de grupos econômicos que querem entrar no sistema (financeiro nacional)”, disse a fonte, sem especificar se há interesse direto de algum grupo pelo Cruzeiro do Sul.

Em paralelo, será instaurada uma comissão de inquérito para averiguar as causas que deram origem aos problemas no banco. Caso se detecte indícios de crime financeiro, o BC fará denúncia ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e abrirá também processo administrativo punitivo.

O BC informou que a intervenção não afeta o andamento dos negócios do Cruzeiro do Sul, “que continua a funcionar normalmente, podendo realizar todas as operações para as quais está autorizado”, e que o regime preserva relação de credores e devedores com a instituição.

A autoridade monetária também instituiu o regime especial pelo mesmo prazo em outras empresas do grupo Cruzeiro do Sul, que incluem Cruzeiro do Sul Corretora de Valores e Mercadorias, Cruzeiro do Sul DTVM, e Cruzeiro do Sul Companhia Securitizadora de Créditos Financeiros.

O Cruzeiro do Sul tinha no fim de 2011 ativos que representavam 0,22 por cento do total do sistema financeiro brasileiro e 0,35 por cento dos depósitos, segundo o BC.

Segundo o BC, intervenções por motivos similares aos do Cruzeiro do Sul foram decretadas na década dos anos 1990 nos bancos Bamerindus, Econômico e Nacional.

O FGC concederá uma entrevista coletiva na sede do Cruzeiro do Sul em São Paulo nesta tarde para falar sobre a situação do banco.

ROMBO CONTÁBIL

O Cruzeiro do Sul foi comprado em 1993 pela família Indio da Costa e no mesmo ano ingressou no mercado de crédito consignado.

Jornais publicaram nesta segunda-feira que o BC teria encontrado rombo acima de 1 bilhão de reais nas contas do Cruzeiro do Sul, com registro de créditos fictícios no balanço. A intervenção foi decretada, segundo jornais, após terem fracassado negociações para compra do banco pelo BTG Pactual.

O Cruzeiro do Sul teve prejuízo de 57,9 milhões de reais no primeiro trimestre, ante lucro de quase 32 milhões de reais no quarto trimestre de 2011 e de 41 milhões de reais um ano antes.

O banco vendeu mais de 300 milhões de dólares em títulos nos mercados internacionais no ano passado, mas essa fonte de recursos secou em decorrência da crise de dívida que atingiu muitos países da Europa.

Em outubro do ano passado, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Banco Morada, com base em relatório de interventor que apontou situação de insolvência do banco e violação de regras legais.

A liquidação extrajudicial do Morada foi a primeira feita pelo BC desde o Banco Santos, em maio de 2005, e ocorreu depois que a autoridade monetária detectou em 2010 fraude em vendas de carteiras de crédito do Banco Panamericano, que acabou sendo assumido pelo BTG Pactual.

(Reportagem adicional de Guillermo Parra-Bernal, em São Paulo)