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Batalha contra inflação em 2011 está perdida; BC mira agora o ano que vem

Diversos fatores eliminam a eficácia da alta dos juros contra a elevação dos preços neste ano; desafio agora é inflação de 2012

Por Beatriz Ferrari - 2 mar 2011, 20h37

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de elevar a taxa básica de juros (Selic) em 0,5 ponto porcentual já era esperada pelo mercado. Poucos acreditavam em uma alta de 0,75 pp. Independentemente das apostas, a avaliação geral dos analistas é que, mesmo com esta decisão, a batalha contra a inflação neste ano já está perdida. A tarefa do BC, de agora em diante, é ‘ancorar’ as expectativas para 2012 – ou seja, impedir que uma crença generalizada de que a inflação também será muito alta no ano que vem transforme-se, por si só, em fator que alimenta a evolução dos preços.

A previsão para a inflação ao final do ano, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), vem subindo há doze semanas segundo o boletim Focus, o levantamento que o BC faz junto aos principais bancos e consultorias do país. A última pesquisa aponta uma elevação de 5,8%, bem distante do centro da meta de 4,5% ao ano fixado pelo governo – mas ainda dentro da faixa de tolerância de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo. Uma estimativa desta magnitude é considerada preocupante, pois estamos apenas no início de 2011. Enquanto isso, a expectativa para a Selic de final de ano segue há quatro semanas em 12,50%. “Neste ano já não dá mais tempo de cumprir o centro da meta. O tamanho do choque que o governo precisaria dar seria muito grande e não se justificaria”, explica Homero Guizzo, da LCA Consultores.

Existem várias razões para não acreditar em um IPCA perto do centro da meta em 2011. Parte da inflação que o país vivencia este ano é “importada”, isto é, deriva dos preços altos das commodities agrícolas no mercado internacional. Há ainda o problema adicional da instabilidade política no Oriente Médio e Norte da África, que tem impulsionado as cotações do petróleo para níveis pré-crise financeira. “Não adianta subir juro aqui porque o preço do açúcar na bolsa de Nova York não vai baixar”, resume o economista Fábio Silveira, da RC Consultores. Diante disso, o Banco Central se vê hoje diante da tarefa de evitar que esses fatores externos contaminem os preços dos serviços e as expectativas de inflação futura.

A questão fiscal também tem ‘culpa no cartório’. A opinião dos especialistas em contas públicas é que o corte de 50 bilhões de reais no Orçamento de 2011 veio com “um ano de atraso” e não pode ser chamado de “política fiscal contracionista”. “Os gastos crescem menos, mas ainda crescem e muito em 2011. Em termos nominais, será uma expansão de cerca de 10%. Logo, a política fiscal, no máximo, não ‘jogará contra’ a monetária neste ano, como ocorreu em 2010”, defende Marcelo Fonseca, economista da gestora de recursos M. Safra.

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Por fim, a desaceleração da demanda ao longo dos próximos meses ainda divide economistas. Contra todas as expectativas, a produção industrial de janeiro, divulgada nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acelerou em relação a dezembro. “Os últimos documentos divulgados pelo BC mostram que o banco acredita em desaceleração, mas eu, particularmente, ainda acho que a demanda está muito aquecida”, defende Maristella Ansanelli, economista do Banco Fibra.

Alerta – Para 2012, já existe uma expectativa de queda do IPCA para patamares mais próximos à meta de 4,5%. Ainda assim, cabe um alerta. Em 2012, a regra de reajuste do salário mínimo, que prevê aumento de cerca de 13%, vai complicar a administração dos já elevados preços de serviços – que são fortemente influenciados pelo comportamento do mínimo. “Ou seja, ao fim e ao cabo, o grosso do ajuste macroeconômico terá de ser feito por meio da política monetária. E aí, reside uma incerteza muito grande com relação à disposição de se prosseguir com o remédio amargo, caso fique mais evidente que a dosagem deverá ser maior”, explica Fonseca.

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