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Baixa atividade econômica do país leva à queda de empregos formais

Segundo especialista, expectativa de PIB menor arrasta para baixo a geração de postos de trabalho

A redução no número de empregos formais em março no Brasil reflete a baixa atividade da economia neste ano, segundo especialistas ouvidos por VEJA. De acordo com o Cadastro Nacional de Empregados e Desempregados (Caged), que contabiliza os postos formais, o saldo de empregos no país ficou no vermelho, em março, com o fechamento de 43.196 vagas –o pior desempenho para o mês desde 2017.

O Caged é um dos primeiros números reais da economia. O resultado confirma as expectativas criadas de uma atividade econômica mais fraca”, afirma Daniel Duque, pesquisador da área de economia aplicada do FGV IBRE.

Para Clemente Ganz, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), “não há nenhuma evidência de que o Brasil tenha uma trajetória interna de retomada do crescimento econômico”. Além disso, segundo Ganz, existe no cenário externo uma sinalização forte de que a economia internacional está desacelerando.

De acordo com a Secretaria de Trabalho e Previdência, responsável pelo Caged, o resultado negativo tem relação com o desempenho positivo de fevereiro, quando 173.139 vagas foram criadas. “Os setores que normalmente admitiam nesta época do ano anteciparam as contratações para fevereiro, e aqueles que demitiam concentraram as demissões em março. O fato provocou tendências opostas entre os meses”, informa, em nota.

No entanto, para Duque, do FGV Ibre, a explicação do governo não é a única nem a principal influência nesses dados. Segundo ele, já era esperado um desempenho negativo para março, mas não com essa intensidade. “Não é um resultado em linha com uma economia em recuperação”, afirma. Além disso, Duque destaca que o resultado positivo no trimestre ficou abaixo do esperado. No período, foram abertas 179.543 vagas com carteira assinada.

Indicadores econômicos divulgados neste ano já preveem uma recuperação bem mais lenta da economia brasileira do que o projetado no começo do ano. O mercado financeiro, por exemplo, diminuiu nesta semana, pela oitava vez seguida a previsão do produto interno bruto (PIB) do país em 2019, agora em 1,71%. Em janeiro, a previsão era de 2,53%.

Para Duque, os números de emprego, ao mesmo tempo que influenciam as projeções econômicas, também são influenciados por elas. “É uma relação em que a expectativa leva para baixo a geração de empregos, mas, por outro lado, a própria atividade mais fraca confirma essas expectativas”, explica.

Comércio tem desempenho fraco

A questão de calendário apontada pelo governo, apesar de não explicar os dados como um todo, ajuda a entender o desempenho do comércio, conta Ganz. O setor foi o que teve maior queda no número de empregos formais, com o fechamento de 28.803 postos. A diferença foi grande para o segundo colocado, a agricultura, que terminou março com 9.545 vagas a menos. 

“Os setores de comércio e serviços tendem a contratar mais no fim do ano, fruto da característica da nossa economia. E, agora, ocorreu a desmobilização das vagas que vinham sendo abertas”, afirma o diretor técnico. 

Trabalho intermitente aumenta

Outro destaque do Caged são as 6.041 vagas geradas de contrato intermitente, um aumento de 88% em relação a março do ano passado. Nessa modalidade, prevista pela reforma trabalhista, o trabalhador tem carteira assinada, porém só recebe se é convocado a prestar serviço pelo patrão. Ou seja, o trabalhador pode ter carteira assinada sem estar efetivamente trabalhando.

Para Ganz, do Dieese, o aumento mostra uma clara tendência de diminuição do trabalho tradicional, de oito horas e com carteira assinada. Segundo ele, o resultado é fruto de duas principais transferências: “de trabalhadores tradicionais para essa nova modalidade; e de trabalhadores do setor informal, sem carteira assinada, para o intermitente, com carteira assinada”, explica ele.