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Aviação: empresas de baixo custo aterrissam no mercado brasileiro

Tarifas de voos para o exterior devem cair — e a Azul ocupa o vácuo deixado pela Avianca

À primeira vista, o céu de quem pensa em embarcar num avião no Brasil não é de brigadeiro. O dólar já passou dos 4 reais, e teima em não baixar. A quebra da Avianca cortou drasticamente a oferta de voos. O combustível de aviação também está em alta. Tudo parece conspirar para que o preço das passagens aéreas dispare — e, de fato, elas estão, em média, 35% mais caras do que no ano passado, segundo dados do IBGE. As birutas, porém, indicam mudança dos ventos. Na quarta-feira 4, uma reunião entre o CEO da JetSmart, Estuardo Ortiz, o presidente da Anac, José Ricardo Botelho, e o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, definiu os detalhes para a entrada da aérea chilena low cost no Brasil.

Quarta e última empresa do segmento a ingressar no mercado nacional, a JetSmart conseguiu autorização para iniciar suas operações por aqui no primeiro trimestre do ano que vem, com voos de ida e volta para destinos no Chile e na Argentina. “Os preços reduzidos criam um estímulo imenso, e os brasileiros certamente vão fazer mais viagens internacionais”, comemora Ortiz. A companhia se une à escan­dinava Norwegian — que já comercia­liza bilhetes de voos que partem do Brasil para onze países, nove na Europa mais Argentina e Estados Unidos —, à também chilena Sky e à portenha Flybondi, que oferecem rotas de ida e volta para seu país de origem.

A vantagem da entrada das empresas aéreas consideradas de baixo custo não se restringe ao preço de seus tíquetes. A mera existência delas faz com que a concorrência tradicional também se mexa para oferecer condições mais convidativas: o valor médio de uma passagem do Rio de Janeiro para Londres, por exemplo, caiu 24% desde que a Norwegian começou a operar a rota, segundo levantamento encomendado por VEJA ao Voopter, site dedicado à comparação de preços de bilhetes aéreos. Uma pesquisa feita no próprio site da Norwegian mostrou que o tíquete mais barato para Nova York em 28 de março de 2020 — a data mais distante oferecida pela companhia — custa 1 442,69 reais, gritantes 40% menos do que a média das passagens mais baratas cobradas por Azul, Gol e Latam no mesmo dia.

A razão para os preços aterrissarem dessa maneira extraordinária respeita um mandamento para que uma empresa aérea possa ser, realmente, considerada de baixo custo: margens de lucro finas como uma navalha e cobrança de qualquer serviço ou conforto à parte — de bagagens e refeições a marcação de assento. “O conceito se distingue em relação a serviços. As tarifas não incluem nada além do direito de o passageiro entrar no avião, e as companhias oferecem destinos diferentes dos das empresas tradicionais”, explica Juliana Vital, diretora-geral do Voopter.

O desembarque das companhias low cost no mercado brasileiro começou em 2018, graças a uma resolução da Anac no ano anterior que permitiu a cobrança à parte do despacho de bagagens. O interesse inicial tem sido por rotas internacionais. Por enquanto, os trechos domésticos ainda não entraram no radar dessas empresas. Pode-se compreender o porquê. A complicação do sistema tributário nacional e os altos encargos aero­por­tuá­rios são entraves significativos para que as estrangeiras se disponham a bater de frente com as três maiores companhias do país, que concentram mais de 90% das linhas para viagens internas. Os passageiros mais frequentes vão se lembrar que a Latam chegou a tentar o modelo de baixo custo nos itinerários domésticos, cobrando pelos lanches a bordo, mas a estratégia durou pouco tempo. “A regulamentação fiscal torna o modelo impossível aqui. A gente precisava recolher imposto até mesmo do que não vendia. Cada estado tem um tributo diferente. Imagine o trabalho que dá fazer essas contas”, lamenta Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil.

As low cost não são a única boa novidade na aviação brasileira. Com a saída da Avianca do mercado, a Azul aproveitou para ocupar o espaço de alter­nativa à Latam e à Gol. No dia 29 de agosto, o presidente da empresa, John Rodgerson, embarcou no Embraer 195 pela manhã para cruzar, pela primeira vez, a ponte aérea que liga o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, ao Santos Dumont, no Rio de Janeiro — a rota mais movimentada e a mais lucrativa do país. Na estreia, a Azul chegou a oferecer bilhetes por 99 reais o trecho, e para o voo inaugural teve festa no saguão do aeroporto paulista, com direito a banda ao vivo. Quem pode comemorar mais é o consumidor. Mesmo com a crise econômica, o convite para o embarque está no ar.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2019, edição nº 2651