As previsões preocupantes de órgãos brasileiros para o Super El Niño
INMET considera plausível um episódio de intensidade recorde e aponta riscos para soja, milho, café e trigo; MME admite reforçar medidas de proteção
O Brasil já trabalha com a possibilidade de enfrentar um dos episódios de El Niño mais intensos já registrados. Em resposta à VEJA, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) afirmou considerar plausível que o fenômeno alcance intensidade recorde em 2026 e apontou uma série de riscos para a safra, do plantio da soja à florada do café.
O alerta brasileiro vem na esteira de uma projeção divulgada pelo National Climate Center, da China, segundo a qual o aquecimento das águas do Pacífico equatorial centro-leste pode chegar a uma anomalia de 3,2°C a 3,5°C por volta de novembro.
O INMET faz uma ressalva importante: o número chinês não pode ser comparado diretamente aos índices usados pela NOAA, dos Estados Unidos. A metodologia americana utiliza o RONI, indicador que desconta parte do aquecimento global dos oceanos. Por isso, as projeções americanas aparecem numericamente menores.
Isso não significa, porém, que haja divergência entre os centros meteorológicos. Segundo o INMET, consideradas as diferenças de metodologia, as projeções são compatíveis e indicam que o El Niño deve atingir a categoria de muito forte até o fim do ano.
No campo, os efeitos já entraram no radar do governo. Para soja e milho, as principais áreas de atenção estão no Centro-Oeste, no norte de Minas Gerais e no Matopiba. Uma regularização mais tardia das chuvas pode restringir a umidade do solo, atrasar a semeadura da soja e, na sequência, reduzir a janela disponível para o milho de segunda safra.
O instituto também prevê temperaturas acima da média, o que aumenta a demanda hídrica das lavouras e amplia o risco de períodos de deficiência de água.
No café, Minas Gerais e Espírito Santo merecem atenção especial. A combinação de temperaturas mais elevadas com chuvas irregulares pode afetar a recuperação das plantas e a uniformidade das floradas — etapa decisiva para a safra de 2027.
Para a cana-de-açúcar, o problema pode ser o excesso de precipitação em partes do Centro-Sul, com impacto sobre operações de campo. No trigo, sobretudo no Sul, chuvas frequentes elevam o risco de doenças e podem dificultar a colheita.
A preocupação se estende ao setor elétrico. Também em resposta ao Radar Econômico, o Ministério de Minas e Energia afirmou que as medidas preventivas para garantir o abastecimento “são atualizadas e reforçadas à medida que aumentam as necessidades de proteção do sistema”.
Entre as providências previstas pelo governo estão o despacho antecipado de termelétricas em cenários de grandes ondas de calor, o uso complementar de geração térmica, a redução de vazões para preservar reservatórios e planos de contingência que incluem antecipação da compra de combustíveis, peças e outros insumos para as usinas.
O MME informou ainda que o cenário será novamente avaliado na próxima reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), prevista para a próxima semana.
Os dados mais recentes reforçam o sinal de atenção. Pesquisadores consultados pela VEJA apontam que 89% da Região Sudeste já está enquadrada em alguma categoria de seca, acima dos 76% registrados no levantamento anterior. Em Minas Gerais, as regiões do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba e Sul/Sudoeste concentram cerca de dois terços da produção de café do estado e estão entre as áreas mais expostas à combinação de calor e irregularidade das chuvas.
O cenário ainda pode mudar nas próximas semanas. Mas os sinais emitidos pelos próprios órgãos brasileiros já indicam que o Super El Niño deixou de ser apenas uma previsão distante e passou a integrar o planejamento da safra e da segurança energética do país.





