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Artilharia do BC é pouco eficaz e mostra o óbvio: dólar alto veio para ficar

Mesmo com o leilão de 497,9 milhões de dólares em contratos de swap cambial, dólar sobe a 2,38 reais e evidencia o novo patamar ao qual o Brasil terá de se habituar

Por Ana Clara Costa - 26 ago 2013, 19h54

A queda de 3,2% da cotação do dólar na última sexta-feira, quando a moeda recuou para 2,35 reais, deu um pouco de alívio ao stress do mercado de câmbio – mas não o suficiente para que o real parasse de se desvalorizar. Mesmo com o anúncio de um plano de injeção de 100 bilhões de dólares até o final do ano para conter a alta da moeda americana, a cotação voltou a subir para 2,38 reais nesta segunda-feira, dia em que o BC ofertou 497,9 milhões de dólares em leilão de contratos de swap cambial – o equivalente à venda de dólares no mercado futuro.

A decisão da autoridade monetária brasileira em desenhar uma ofensiva para estabilizar o câmbio foi elogiada pelo mercado porque estabelece, ao menos, uma estratégia. Porém, é ponto pacífico entre economistas que tais leilões não conseguirão reverter a tendência de alta ou impedir a oscilação abrupta do câmbio, enquanto as notícias vindas dos Estados Unidos continuarem provocando sobressaltos. “O BC não vai conseguir levar o dólar a 2,20 reais, mas pode tentar evitar que ele chegue em 2,70 reais rapidamente”, afirma André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos.

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A moeda brasileira tem se desvalorizado num movimento conjunto com outros países emergentes, que também são penalizados pela saída de capital. Esse fluxo de dólares que derrubou as divisas de países como Brasil, Índia e África do Sul partiu em direção aos EUA, atraído pela possibilidade de o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) aumentar sua taxa básica de juros. Com isso, os títulos do Tesouro americano que são atrelados aos juros se tornam mais atrativos aos investidores estrangeiros.

Apesar das ações do BC sobre o câmbio, os efeitos são praticamente nulos. E essas ações são uma repetição de uma história de três anos atrás – mas contada ao inverso. A partir do final de 2010, o ministro da Fazenda Guido Mantega foi parar nas manchetes de toda a imprensa internacional ao criticar o Fed por promover uma “guerra cambial”. Segundo Mantega, a política de estímulos criada pelo banco central americano, que consiste na compra de títulos de bancos como forma de injetar liquidez na economia, era nociva porque fazia com que esse capital viesse aos países emergentes como forma de investimento especulativo.

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Mantega pregava que o fluxo de dólares criado pela compra de títulos entrava como avalanche em países como o Brasil, fazendo com que o real se valorizasse de maneira artificial. Ainda que desejasse, o ministro, obviamente, não conseguiu fazer com que o Fed mudasse sua política. Assim, para conter a entrada de dólares, criou uma série de barreiras cambiais usando, sobretudo, o imposto sobre operações financeiras (IOF).

O ministro foi amplamente criticado pelas medidas. Economistas afirmavam que a valorização do real era reflexo dos fundamentos da economia brasileira, que crescia a um ritmo de 7% naquele ano, e não do dinheiro especulativo dos fundos americanos. Justamente por essa razão, as barreiras impostas pela equipe econômica tinham pouco – ou nenhum – sucesso em sua tarefa de desvalorizar o real.

Se por um lado a moeda americana se desvalorizava – um dólar chegou a ser cotado a 1,55 real em julho de 2011 -, por outro a China mantinha o yuan artificialmente desvalorizado para estimular suas exportações. Assim, as barreiras protecionistas criadas pelo ministro também visavam um real mais barato para competir com os produtos chineses.

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Mesmo com as intervenções do governo, o dólar continuou desvalorizado até o final de 2011, quando a euforia em relação ao Brasil – e aos emergentes – começou a se dissipar, puxada pelo desempenho abaixo das expectativas do Produto Interno Bruto (PIB) do país naquele ano – alta de 2,7%. De lá pra cá, o dólar se valorizou em 35%, enquanto o PIB desacelerou ainda mais: o crescimento econômico ficou em 0,9% em 2012 e 0,6% no primeiro trimestre de 2013, número bem abaixo das expectativas do mercado e do próprio governo. Nesse período, todas as medidas cambiais protecionistas desenhadas, sobretudo pela Fazenda, foram desfeitas como forma de estimular a entrada de dólares – o que não ocorreu.

A experiência passada se repete. Hoje, a atuação do BC é pouco útil para balizar a cotação da moeda, por mais que tenha como objetivo conter a volatilidade e evitar que a disparada do dólar pressione a inflação. A estratégia é positiva porque mostra que a autoridade monetária está atenta e alinhada no que se refere ao mercado cambial – ou seja, não deixará que a moeda ultrapasse, livremente, os limites do que é viável para a economia brasileira. Diversas declarações de membros do governo deram a entender que o patamar aceitável é de 2,30 a 2,40 reais.

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Segundo análise do economista Alexandre Schwartsman, as medidas do BC podem ter algum efeito na suavização do problema, mas não resolverão as causas globais – relacionadas ao fim dos estímulos do Fed -, e tampouco as questões locais que exacerbam a saída de capital do país, como o crescente déficit externo e a piora da situação fiscal. Novamente, assim como em 2010, o governo atua para assumir o controle da situação errada – quer resolver os sintomas, mas os problemas continuam lá.

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