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Artigo: como reaquecer a economia trabalhando ‘apenas’ 4 dias por semana

O neozelandês Andrew Barnes, empresário criador da ideia, detalhou a VEJA como a rotina mais flexível pode contribuir na retomada pós-Covid-19

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 26 Jun 2020, 13h44 - Publicado em 26 Jun 2020, 13h31

A Nova Zelândia, pequeno país da Oceania, se tornou uma das referências globais no combate ao coronavírus. O arquipélago conseguiu erradicar o vírus em seu território a partir de rigorosas medidas de isolamento e, já com o comércio reaberto e abraços liberados, busca maneiras de como reaquecer sua economia. Uma das sugestões levantadas pela primeira-ministra neozelandeza, Jacinda Ardern, apontada como uma das mais eficientes lideranças mundiais durante a pandemia, reacendeu um debate sobre os eventuais benefícios de reduzir as jornadas de trabalho.

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Jacinda aconselhou empregadores a estabelecer uma rotina mais flexível, com apenas quatro dias de trabalho por semana, o que poderia impulsionar o turismo local e trazer maior equilíbrio e saúde mental aos funcionários nesta retomada. A ideia não é uma novidade na Nova Zelândia: em 2018, a Perpetual Guardian, uma empresa sediada em Auckland que gerencia bens e testamentos, ganhou repercussão mundial ao implementar a medida, que foi seguida por algumas companhias ao redor do mundo, inclusive do Brasil. Seu fundador, o empresário Andrew Barnes, autor do livro The 4 Day Week (A Semana de Quatro Dias, ainda sem tradução para o português), conta em artigo para VEJA sobre a filosofia de trabalho e os impactos que ela pode ter na retomada pós-Covid. Leia a íntegra da proposta nos parágrafos a seguir:

PRODUTIVIDADE MÁXIMA (E EM MENOS TEMPO)

por Andrew Barnes

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É, sim, plenamente possível trabalhar apenas quatro dias por semana, sem corte salarial. Há mais de dois anos, implementei esta filosofia em minha empresa na Nova Zelândia, com base na regra 100: 80: 100, que significa: pagamento de 100% em 80% do tempo, desde que com 100% produtividade. Os resultados sempre foram excepcionais. Naquela época, eu já estava convencido de que o modelo de oito horas de trabalho por dia, cinco dias por semana, não era mais adequado à finalidade da Quarta Revolução Industrial, a era da hiperconectividade digital, em que as pessoas nunca estão realmente “fora do expediente”. O surgimento da pandemia de Covid-19 trouxe perturbações monumentais à atividade econômica e às relações profissional e privada em todo o mundo e, ao mesmo tempo, jogou uma luz mais brilhante na equação produtividade-tempo – e no potencial da semana de quatro dias.

Na Nova Zelândia, nossa primeira-ministra Jacinda Ardern chegou a mencionar nossa filosofia para sugerir um curso de volta à normalidade, com máxima produtividade e estímulo à recuperação de empregos e boa saúde mental. Com um dia livre a mais, empresas e governos podem concentrar suas energias em estimular a economia, além de promover a limpeza do ar e a redução do estresse causado pelo trânsito com zero produtividade. Um fator importante em tempos de crise é o turismo, setor crucial para muitas nações, incluindo o Brasil. Fronteiras internacionais devem permanecer fechadas por algum tempo, mas em breve será possível viajar pelo próprio país e a redução da semana poderia estimular o trânsito interno. Ter um dia a mais de “fim de semana” pode ajudar na retomada de negócios que mais sofreram o efeito da pandemia, como hotéis e restaurantes.

A filosofia da semana de quatro dias pode funcionar em qualquer negócio ou país. Há culturas que valorizam o descanso, como a siesta espanhola ou a prática do Shabat na fé judaica; outras são mais baseadas em festividades, como o Carnaval brasileiro. A redução da jornada de trabalho protege todas as tradições e estilos de vida, fatores importantes para a coesão familiar, qualidade de vida, bem-estar mental e senso de comunidade. O importante é sempre focar na produtividade.

Em algumas nações, empresas em perigo vêm adotando o sistema alemão de seguro-desemprego chamado kurzarbeit (algo como “trabalho curto”), no qual o funcionário tem expediente e salário reduzidos de forma equivalente. O governo, então, assume formas de compensação, como realizar parte do pagamento ou oferecer cursos ao funcionário em seu dia “livre”, enquanto os patrões se comprometem a retomar a normalidade dentro de seis meses ou um ano. É uma forma interessante de preservar empresas e funcionários e também uma boa oportunidade para o funcionário mostrar ao chefe que é possível manter a mesma produtividade com menor tempo no expediente. Se os governos puderem se comprometer com isso, com o tempo veremos a produtividade permanecendo saudável enquanto as pessoas retornam a um salário completo em uma semana de 4 dias, tudo dentro de um período relativamente curto.

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Uma das questões fundamentais para a redução de jornada é que o expediente deveria funcionar em espaços semipúblicos, como locais de trabalho compartilhados – permitindo que as pessoas deem o seu melhor tanto no trabalho quanto em casa. Nos últimos dois ou três meses, o coronavírus fez com que o lar se tornasse o local de trabalho para muitas pessoas. A filosofia do home office dominou o mundo de maneira forçada. Muitas empresas, como Twitter e Square, já informaram que não exigirão o retorno de seus funcionários a um escritório centralizado neste ano.

Isso representa um desafio para muitos funcionários que estão levando o trabalho para casa, em tempo integral, para a primeira vez. O fato de não haver um horário definido de início ou término pode representar um perigo para a saúde mental das pessoas. Muitos reclamam de estar mais cansados e trabalhando mais. O tempo que estariam se locomovendo para ir até o escritório ou até mesmo a hora de refeição vira hora-extra de serviço, o que não é correto. Novamente, a semana de quatro dias pode ser uma solução, pois prioriza a produtividade e oferece aos trabalhadores três dias definidos no qual devem se desligar totalmente do trabalho.

Para explicar como isso é possível, darei o exemplo do meu negócio, a Perpetual Guardian. Após testes, implementamos uma semana de quatro dias de forma permanente em 2018. Quando o lockdown do coronavírus foi anunciado na Nova Zelândia no final de março de 2020 – o país virou modelo no combate rápido e eficiente ao vírus, que em poucas semanas foi erradicado –, meus 240 funcionários fizeram a transição para o home office e mantiveram um dia a menos de trabalho. Temos como regra que, no dia de folga semanal, a qual todos têm direito, ninguém deve ser contatado para falar de serviço, exceto em casos de extrema emergência. Nem e-mails, nem telefone, nada deve ser utilizado. A empresa e os gerentes respeitam seu tempo pessoal e não se intrometem nele.

Isso também se estende às ferramentas de mídia social, como Messenger, Whatsapp e Slack. Se um funcionário tiver seu dia de folga semanal na quinta-feira, mas permanecer observando as mensagens no grupo de trabalho, isso gerará uma distração ao que deveria ser sua prioridade – focar em atividades que o permitam ser o melhor funcionário possível no retorno ao trabalho. Na folga, os funcionários devem silenciar esses canais e receber o apoio (ou melhor, a instrução) de seus gerentes. Caso contrário, estar em casa será o mesmo que estar no escritório e alguns benefícios importantes da semana de quatro dias serão desperdiçados.

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Em contrapartida, funcionários em home office (supondo que tenham o apoio necessário para cuidar dos filhos ou realizar outras obrigações) não devem sofrer as distrações comuns ao escritório. Foco na missão é essencial. Um quiz sobre gerenciamento de tempo proposto pela empresa LeadershipQ obteve mais de 6.000 respostas, com 71% dos os entrevistados relatando interrupções frequentes durante o expediente – muitos dos quais não poderiam ser ignorados, mesmo que brevemente, como um colega que aparece na sua mesa para fazer uma pergunta. Para que a Semana de 4 dias seja bem-sucedida em qualquer contexto ou cenário e, portanto, para que os trabalhadores atinjam saúde mental, bem-estar geral e gerenciamento do estresse, os princípios da redução de tempo, que exige disciplina e foco total na produtividade, devem ser observados por todas as partes envolvidas.

Nem só home office, nem só escritório. Na realidade, o futuro do trabalho será uma combinação entre espaço privado (o lar) e espaços públicos. O tempo social e a interação humana são críticos para a saúde mental e os trabalhadores devem ser incentivados a se encontrar pessoalmente, toda semana, para socializar e acompanhar as prioridades de trabalho compartilhado.

Antes da Covid-19, apenas uma minoria de empregadores considerava seriamente a semana de quatro dias como ferramenta para investir na saúde mental e no bem-estar físico dos trabalhadores mantendo a produtividade total e o desempenho da empresa, ainda que diversos bons exemplos já os direcionassem a este caminho. Grandes empresas de vários países já testaram e comprovaram o sucesso da redução das jornadas de trabalho. A Microsoft do Japão anunciou um aumento de 40% na produtividade ao deixar as sextas-feiras livres para todos os seus funcionários. No Brasil, a Unilever ganhou notoriedade ao implementar um sistema de job sharing (cargo compartilhado) em seu setor de RH, no qual duas funcionárias dividem um mesmo cargo e trabalham três dias da semana cada uma.

Agora tudo mudou, haverá um novo mundo pós-coronavírus. O foco no emprego e no bem-estar dos trabalhadores fará parte da restauração das principais indústrias e da atividade econômica saudável. Os empregadores estão pensando mais lateralmente sobre como reter funcionários e direcionar seus negócios para ter rentabilidade – e para isso, eles precisam de uma força de trabalho saudável e engajada, que use todas as tecnologias disponíveis para conseguir se organizar. É essencial mantermos todos os benefícios de produtividade que o trabalho em casa nos trouxe, enquanto ajudamos as empresas a permanecerem firmes e os setores voltarem ao normal. Temos de ser ousados com o nosso modelo e aproveitar esta oportunidade para uma redefinição maciça em escala global. A semana de quatro dias é uma ferramenta para proteger o trabalho em todos os aspectos, tornando este modelo ainda mais relevante para o novo mundo em que nos encontramos. Um futuro sustentável e lucrativo, no qual trabalhamos menos e melhor, engajados e satisfeitos, está ao nosso alcance. É uma revolução do trabalho cuja hora chegou.

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