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Após liderar o boom da inteligência artificial, a Nvidia enfrenta a ameaça da concorrência

Empresa vê clientes que começam a desenvolver seus próprios chips e o ceticismo de Wall Street

Por Carolina Ferraz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 19 jul 2026, 08h00
Após liderar o boom da inteligência artificial, a Nvidia enfrenta a ameaça da concorrência Priorizar nos meus resultados Google

Em apenas seis semanas, a fabricante americana de chips Nvidia perdeu 1 trilhão de dólares em valor de mercado, recuando de 5,7 trilhões para 4,7 trilhões — o equivalente a uma queda de 18%. Embora ainda seja a empresa mais valiosa do mundo, o revés mostra a mudança de forças em curso no mercado de inteligência artificial (IA). Criada na Califórnia em 1993, a Nvidia cresceu produzindo GPUs, um tipo de chip de processamento gráfico cuja demanda explodiu com a popularização dos jogos on-line nos anos seguintes. A rapidez com que realizam cálculos complexos tornou as GPUs ideais também para o treinamento de IAs, e com isso a Nvidia ganhou um novo impulso, até se tornar a ação favorita de Wall Street. Mas como sabe todo aluno que estuda para uma prova, não basta aprender rapidamente — é necessário também lembrar o que aprendeu. A mesma lógica serve para a IA, pois os chips que aceleram seu aprendizado são diferentes dos que o armazenam e o aplicam em situações concretas. Tais componentes são desenvolvidos por outras empresas que agora dividem com a Nvidia a atenção dos investidores, à medida que o foco se desloca da criação de IAs para as aplicações práticas. “O mercado passou a olhar para outros elos que compõem a cadeia da IA”, diz William Castro Alves, estrategista-chefe da corretora Avenue.

É nesse contexto que a também americana Micron Technology desponta como a nova aposta dos financistas. Embora tenha sido fundada em 1978 — muito antes, portanto, da Nvidia —, a companhia só ganhou os holofotes neste ano, ao deter uma posição estratégica no mercado de memórias para IAs. No mesmo período em que a Nvidia sofreu na bolsa americana, as ações da Micron escalaram 46%, aumentando seu valor de mercado para mais de 1 trilhão de dólares. A alta foi impulsionada por resultados concretos. Segundo o banco suíço UBS, as vendas globais de chips de memória alcançaram 75 bilhões de dólares em junho, cravando o novo recorde mensal e beneficiando a Micron e as coreanas Samsung e SK Hynix. Entre os componentes com maior procura, estão as memórias de alta largura de banda (HBM, na sigla em inglês), essenciais para ferramentas como o ChatGPT e o DeepSeek.

A forte demanda deve dobrar o preço dessas memórias em um ano, segundo os analistas, o que favorecerá ainda mais a Micron, uma das principais fabricantes de HBMs do mundo. Atenta ao mercado, a Micron investirá 250 bilhões de dólares na expansão de sua capacidade de produção. “A demanda por memórias está em um nível sem precedentes”, afirmou o presidente da companhia, Sanjay Mehrotra, ao anunciar os novos planos. A iniciativa foi bem recebida pelos investidores. “O grande gargalo da IA é a memória”, diz João Piccioni, fundador da casa de análise Capital Pulse. “A Micron se encaixa perfeitamente nesse cenário.”

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Além disso, gigantes do Vale do Silício procuram reduzir sua dependência da Nvidia por meio do desenvolvimento de chips próprios de IA. É o caso da Meta, dona da rede social Facebook, que planeja iniciar em setembro a produção de um chip personalizado de IA, como parte de um investimento total de 145 bilhões de dólares com vistas a dobrar sua capacidade computacional no ano que vem. No mês passado, a Alphabet, que controla o Google, se uniu à Intel para desenvolver seu próprio processador. Há algumas semanas, a Anthropic, responsável pelo Claude — a IA que é a nova sensação do mercado —, sondou a Samsung com o propósito de criar seu próprio chip. Algumas empresas planejam competir com a Nvidia, como a Amazon, que pretende vender seu chip, o Trainium, para data centers que hospedam as ferramentas de IA, um filão hoje dominado pela rival.

VENTO A FAVOR - Mehrotra, da Micron: demanda sem precedentes por processador de memória para IA
VENTO A FAVOR - Mehrotra, da Micron: demanda sem precedentes por processador de memória para IA (Kyle Green/Bloomberg/Getty Images)
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Essas iniciativas deixam os investidores apreensivos sobre o futuro da empresa fundada por Jensen Huang. Ninguém está sugerindo, é claro, que a Nvidia caminha para a ruína, mas sua capacidade de reagir ditará o quanto Wall Street ainda apostará nela. Para acalmar o mercado, a empresa promete que dois novos processadores de IA — o Blackwell e o Rubin — devem gerar vendas de 1 trilhão de dólares, dos quais metade neste ano e o restante em 2027. O obstáculo é que esses chips abastecem principalmente data centers, e analistas duvidam que a expansão da infraestrutura global seja suficiente para absorver uma demanda dessa magnitude. Para uma empresa que cresceu fornecendo chips para videogames, está difícil virar o jogo e vencer o ceticismo do mercado.

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004

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