Após derrubar inflação, Milei muda estratégia e tenta tirar economia argentina da estagnação
Base monetária cresceu 5,4% em julho, enquanto projeção de crescimento para 2026 caiu para 2,7%; peso perdeu 9,1% ante o dólar desde abril
Depois de quase três anos usando cortes de gastos, juros altos e controle da quantidade de dinheiro para derrubar a inflação, o governo de Javier Milei começa a dar mais espaço para a economia respirar.
A mudança aparece nos números. A base monetária argentina cresceu 5,4% em julho, na comparação com junho. O ritmo foi mais de duas vezes superior à inflação mensal.
Ao mesmo tempo, o peso se desvalorizou 9,1% em relação ao dólar desde meados de abril, a maior queda entre as moedas de mercados emergentes no período.
O movimento ocorre quando a economia perde força. Uma pesquisa do Banco Central argentino divulgada na semana passada mostrou que os economistas reduziram a previsão de crescimento do país em 2026 de 3,1% para 2,7%.
A expectativa para a inflação também caiu, para 29,8% no ano.
É uma mudança importante na agenda de Milei.
Quando assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, o principal problema era uma inflação que caminhava para níveis próximos de 300% ao ano. Agora, com a alta de preços muito mais controlada, o desafio passou a ser outro: como fazer a economia crescer e gerar empregos sem devolver força à inflação.
O que mudou na política econômica
A estratégia de Milei desde o início foi reduzir drasticamente os gastos públicos e impedir que o Banco Central financiasse o Tesouro com emissão de dinheiro. O governo também manteve uma política monetária restritiva e promoveu mudanças no regime cambial.
O resultado foi uma forte desaceleração da inflação. A taxa anual, que chegou perto de 290%, caiu para cerca de 30% neste ano. A inflação mensal, que estava em 25,5% em dezembro de 2023, chegou a 2,1% em maio de 2026.
Esse processo teve um custo. O ajuste reduziu o consumo, afetou setores dependentes do mercado interno e provocou perdas de empregos em partes da economia.
Agora, o Banco Central começa a admitir uma quantidade maior de dinheiro circulando.
Em uma operação recente, o Tesouro deixou de colocar no Banco Central parte dos recursos obtidos em uma emissão de dívida. Em vez disso, 3,8 trilhões de pesos, cerca de US$ 2,5 bilhões, foram distribuídos entre bancos comerciais. O objetivo foi evitar uma disparada dos juros de curto prazo e aliviar a escassez de dinheiro no sistema financeiro.
Na prática, o governo está tentando facilitar a circulação de crédito depois de um longo período de forte aperto monetário.
O presidente do Banco Central, Santiago Bausili, defende que existe espaço para essa mudança porque famílias e empresas estariam dispostas a manter mais pesos em caixa.
Mas a interpretação não é consensual.
Uma das preocupações é que, em uma economia historicamente marcada pela desconfiança em relação à moeda local, parte desse dinheiro adicional simplesmente seja convertida em dólares. Isso aumentaria a pressão sobre o peso e poderia voltar a alimentar a inflação.
A grande conquista de Milei virou o ponto de partida
A dimensão da mudança fica mais clara quando se olha para o ponto de partida.
Milei chegou à Casa Rosada prometendo uma ruptura com décadas de políticas econômicas baseadas em déficit público, subsídios e expansão monetária. Seu chamado “choque” envolveu cortes de gastos, redução de transferências para as províncias, paralisação de obras públicas e diminuição de subsídios.
O ajuste ajudou a transformar as contas públicas. A Argentina voltou a registrar superávits fiscais, enquanto a inflação despencou.
A melhora foi reconhecida inclusive por instituições que não são aliadas políticas do governo.
Em julho, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, elogiou a redução da inflação, a disciplina fiscal, o aumento das reservas internacionais e a melhora da percepção de risco da Argentina.
Agências como Moody’s, S&P e Fitch também elevaram a classificação de crédito do país.
A Moody’s, por exemplo, elevou em julho a nota argentina de Caa1 para B3, com perspectiva positiva. O prêmio de risco dos títulos do país caiu para cerca de 400 pontos-base, o menor nível em oito anos.
Ou seja: a Argentina está muito mais estável aos olhos dos investidores do que estava no início do governo Milei.
O problema é que a melhora dos indicadores financeiros ainda não chegou de maneira uniforme à população.
Duas Argentinas
Um dos exemplos mais claros dessa diferença está em Vaca Muerta, a enorme reserva de petróleo e gás de xisto localizada na Patagônia.
O setor energético se tornou um dos grandes vencedores da política econômica de Milei. A Argentina exportou US$ 11,1 bilhões em energia em 2025, recorde histórico, e a estatal YPF estima que Vaca Muerta possa gerar até US$ 50 bilhões por ano em exportações até 2031.
O salário médio do setor de petróleo e gás em Neuquén chega a cerca de US$ 5.600 por mês, contra aproximadamente US$ 1.800 no setor privado da cidade de Buenos Aires.
Mas essa prosperidade não se espalha automaticamente pelo restante do país.
Enquanto empresas de energia investem e contratam, a indústria e a construção enfrentam dificuldades. A abertura às importações aumentou a concorrência sobre fabricantes argentinos, enquanto o corte de obras públicas reduziu a atividade da construção.
Segundo o centro de estudos Fundar, cerca de 28 mil empresas fecharam desde a chegada de Milei ao poder, o equivalente a 5,5% do total.
É daí que surge uma das principais contradições da atual economia argentina: setores ligados a petróleo, gás, mineração e exportações estão crescendo, enquanto empresas mais dependentes do mercado interno ainda enfrentam dificuldades.
O emprego é o próximo teste
A taxa de desemprego também se tornou um problema maior.
A Argentina encerrou 2025 com desemprego de 6,4%, acima do nível registrado quando Milei assumiu. O mercado de trabalho também passou por aumento do trabalho por conta própria e da informalidade.
Para o governo, a lógica é que os trabalhadores deixem atividades pouco competitivas e migrem para setores com maior produtividade, como energia, mineração e agropecuária.
O problema é que essa transição não acontece automaticamente.
Um trabalhador que perde o emprego em uma fábrica de Buenos Aires não necessariamente consegue se mudar para Neuquén e conseguir uma vaga em uma empresa de petróleo. A distância, a qualificação profissional e o custo da mudança criam barreiras.
É justamente esse ponto que economistas próximos ao próprio governo vêm colocando em discussão.
A expansão de Vaca Muerta exige dezenas de milhares de novos trabalhadores qualificados.
A indústria de petróleo e gás estima a necessidade de 30 mil a 43 mil trabalhadores adicionais nos próximos anos. Mais de 17 mil pessoas já se candidataram a programas de formação criados para atender essa demanda.
O desafio é fazer essa transformação chegar a uma parcela muito maior da população.
Por que Milei precisa de crescimento agora
A queda da inflação foi politicamente importante para Milei. Pesquisas realizadas ao longo deste ano mostraram recuperação de sua aprovação quando os preços passaram a subir mais lentamente.
Em maio, a aprovação estava em cerca de 40%, segundo levantamento da AtlasIntel para a Bloomberg News.
Mas a situação social continua difícil.
A queda da inflação não significa que os preços tenham voltado aos níveis anteriores. Significa apenas que eles estão subindo mais devagar. Aluguel, transporte, serviços públicos e alimentos continuam pesando sobre o orçamento das famílias.
A Associated Press relatou em agosto que a combinação de queda de salários e aposentadorias com aumento de custos de transporte, serviços públicos, aluguel e alimentação levou milhões de argentinos a recorrer ao endividamento.
É nesse ponto que a política econômica de Milei entra em uma segunda fase.
Na primeira, a prioridade era impedir a inflação de sair de controle. Na segunda, o governo precisa mostrar que a estabilização pode produzir empregos, crédito, investimento e aumento de renda.
A pesquisa do Banco Central mostra justamente essa dificuldade: apesar de ainda prever crescimento de 2,7% em 2026, o mercado vem reduzindo suas projeções.
O risco de acelerar cedo demais
O governo precisa, portanto, calibrar a quantidade de dinheiro que volta à economia.
Se a liquidez continuar muito apertada, o crédito pode permanecer caro e o consumo fraco, dificultando a recuperação.
Se o governo liberar dinheiro em excesso, porém, a demanda pode aumentar sem que a oferta acompanhe. Em uma economia que ainda convive com inflação próxima de 30% ao ano, isso poderia reacender a pressão sobre os preços.
Há ainda o risco cambial. Se os argentinos decidirem transformar os pesos adicionais em dólares, a procura pela moeda americana pode aumentar e provocar nova desvalorização do peso.
Esse risco é particularmente relevante porque o peso já perdeu 9,1% de seu valor frente ao dólar desde abril.
A própria estratégia de Milei continua baseada na ideia de que a estabilidade monetária depende de disciplina fiscal. Em julho, o presidente apresentou um projeto para reforçar a autonomia do Banco Central e impedir que a instituição financie direta ou indiretamente o Tesouro. A proposta mantém no centro da política econômica a promessa de não voltar à emissão de dinheiro para cobrir déficits.
A eleição de 2027 está no horizonte
Há ainda uma dimensão política.
A Argentina terá eleições presidenciais em 2027, e a economia será novamente o principal teste do governo Milei.
O presidente terá de apresentar ao eleitorado não apenas uma inflação muito menor, mas também uma melhora perceptível no emprego e na renda.
Ao mesmo tempo, a Argentina terá de enfrentar um pesado calendário de pagamentos externos. O país tem cerca de US$ 32,3 bilhões em compromissos de dívida em moeda estrangeira previstos para 2027, segundo o FMI.
Por isso, o governo precisa crescer, gerar dólares, acumular reservas e manter a confiança dos investidores sem abandonar a disciplina que ajudou a estabilizar a economia.
É uma tarefa mais complexa do que simplesmente continuar cortando gastos.
A primeira batalha de Milei foi contra a inflação. A segunda será provar que a estabilidade pode melhorar a vida de quem ainda não sentiu a recuperação. E a decisão de colocar mais dinheiro em circulação mostra que essa segunda etapa já começou.







