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Após anos de terror, Irlanda do Norte aposta na solução pacífica de conflitos

Judith Mora.

Belfast (R.Unido), 19 mai (EFE).- Para modificar a imagem manchada por décadas de conflito entre católicos e protestantes, a Irlanda do Norte busca se afirmar como polo de pacifismo com a transformação de uma de suas prisões mais degradantes em uma entidade de resolução de controvérsias.

A antiga prisão The Maze (O labirinto), onde entre 1971 e 2000 foram encarcerados membros do Exército Republicano Irlandês (IRA) e grupos leais à Coroa britânica, como a UDA e a UVF, será habilitada agora como parte de um complexo para mediação internacional.

O centro de resolução de conflitos, que será inaugurado em 2015, conta com o respaldo da União Europeia (UE), que fornecerá 12 milhões de libras (cerca de R$ 38,2 milhões) a um orçamento de 60 milhões de libras (R$ 232,2 milhões), diz à Agência Efe Tim Losty, responsável autônomo do projeto.

‘Queremos que seja um lugar de troca de opiniões, com representação de todos os pontos de vista (combatentes, políticos e vítimas). Não para dizer às pessoas o que devem fazer, mas para mostrar nossa experiência e as conclusões que extraímos’, explica.

A ideia de reutilizar uma área tão controversa – onde ainda está de pé parte dos blocos-H, onde presos do IRA como Bobby Sands fizeram greve de fome em 1981 – é fruto da negociação entre os partidos que, em 1998, assinaram o Acordo de Sexta-Feira Santa, que deu início ao processo de paz nesta província britânica.

Embora haja o receio de que o centro se transforme em um altar à causa republicana – com conotações mais românticas que a dos unionistas protestantes -, todas as partes entendem que esta representa uma oportunidade de avanços para a Irlanda do Norte.

O terreno do centro de mediação – uma antiga base da Real Força Aérea britânica de mais de 141 hectares, situado na cidade de Lisburn – acolherá outras instalações, como complexos esportivos e de conferências, para atrair o turismo e investidores. ‘Queremos enviar uma mensagem clara de que as coisas mudaram aqui’, ressalta Losty.

Apesar de a Irlanda do Norte não viver conflitos armados oficialmente há 14 anos, ninguém neste território dá por terminado o processo de paz, já que ainda ocorrem atentados isolados por parte de grupos dissidentes.

‘É algo gradual, que deve ser trabalhado diariamente’, reconhece Gérard O’Reilly, ex-membro do IRA e atual vereador de Belfast pelo partido republicano Sin Féinn, que trabalha em bairros conflituosos dessa cidade para diminuir as tensões.

Segundo ele, ‘ainda há muito ressentimento entre as comunidades católicas e protestantes, frequentemente fruto da ignorância, e é isso o que tentamos combater, mostrando as vantagens que a paz oferece’.

O objetivo da Intercomm, a ONG que O’Reilly lidera, é que, com o tempo, os altos muros que ainda separam republicanos e unionistas nos pontos quentes da capital possam ser derrubados.

Enquanto antigos paramilitares republicanos estão no governo de poder compartilhado e continuam lutando democraticamente por seu sonho de uma Irlanda do Norte unida, os ex-combatentes pró-britânicos se sentem ‘abandonados’, descreve à Efe Frankie Gallagher, ex-dirigente da Associação de Defesa do Ulster (UDA), que agora trabalha como assistente social.

Muitos membros antigos da UDA e da Força de Voluntários do Ulster (UVF), tal como alguns republicanos, ‘estão caindo em uma espiral de drogas e crime organizado’, assinala.

Gallagher, que agora lidera a Charter NI, uma organização que facilita a transição social do conflito para a paz, destaca que a comunidade unionista está ‘desenganada’ com alguns representantes políticos que, durante anos, os utilizaram como soldados e que, com a instauração da paz, os abandonaram à própria sorte.

‘Os republicanos têm seu lugar na nova sociedade, puderam limpar seu nome, ocupar cargos públicos e continuar lutando por sua causa, o que está indo muito bem. Mas nós agora não temos nada, só problemas como desemprego e marginalização social’, lamenta.

Para Gallagher, a solução para este vazio é que seus correligionários voltem a se conectar com a política em ‘futuros partidos de centro-esquerda que recolham as verdadeiras preocupações dos cidadãos’. EFE