Aos 50 anos, Fundação Dom Cabral amplia atuação para além do mundo empresarial
Presidente da instituição, Antônio Batista diz que conceito tradicional de escola de negócios já não dá conta de seu novo papel
A Fundação Dom Cabral (FDC) chega aos 50 anos neste mês de agosto e passa por um processo de reposicionamento. Os programas abertos da instituição figuram na 4a posição do ranking internacional do jornal Financial Times, divulgado em maio – reconhecimento que motiva a FDC a tentar voos mais altos. Hoje o foco é ampliar a atuação entre gestores públicos, empreendedores populares, organizações sociais. Há 37 anos na FDC e há dez na presidência da instituição, Antônio Batista explica a mudança e discute o futuro da educação executiva.
Depois de 50 anos formando principalmente empresários e executivos, por que a FDC decidiu ampliar seu público?
Nós nascemos com o objetivo de desenvolver a sociedade por meio do desenvolvimento de empresas e executivos. Durante quatro décadas conseguimos reconhecimento internacional e um ótimo posicionamento no mundo corporativo. Hoje nosso foco é mais ampliado: queremos formar líderes e organizações. Queremos formar do CEO de uma pequena empresa e de um empreendedor popular na favela ao CEO de uma multinacional; de um gestor público ao dono de uma empresa familiar; de um jovem chegando ao mundo profissional ao profissional em pós-carreira.
Com a expansão para governos e lideranças comunitárias, chamar a FDC de “escola de negócios” ficou ultrapassado?
A gente tem quebrado a cabeça com essa discussão. No planejamento estratégico que acabamos de fazer, estamos nos denominando uma Business Government Community School, mais do que uma Business School, porque essa roupa não está servindo mais. Muitas escolas ainda têm uma visão muito século XX, fechada no negócio pelo negócio. Isso é importantíssimo, mas o papel que uma escola pode ter como ator da sociedade e agente de transformação é muito grande.
Na prática, como a FDC está deixando de ser uma escola voltada apenas a empresas e executivos?
Criamos um centro de gestão pública e hoje temos uma atuação grande com prefeituras, governos estaduais e governo federal. Também queremos levar educação de qualidade para a base da pirâmide e desenvolver empreendedores populares e organizações sociais.
Por que o modelo tradicional de formação de executivos deixou de ser interessante?
O século XX tinha uma característica empresarial muito específica. Sobretudo na segunda metade, as empresas se concentraram em crescer, expandir e aumentar a produtividade. O que se esperava era que fossem lucrativas e dessem retorno aos acionistas. Não que isso tenha acabado, mas essa era a primazia.
O século XXI entrou com crises sociais e políticas, disrupção tecnológica, novas guerras e uma pauta de sustentabilidade muito forte. Se hoje Theodore Levitt escrevesse o livro Miopia em Marketing (1960), talvez falasse em “miopia social”. Só sobreviverão ao final do século XXI as empresas que, além de receita e lucro, tiverem sustentabilidade, atenção aos stakeholders, propósito e forem socialmente liberadas para operar.
Se o CEO sempre foi cobrado por resultados, o que a sociedade passou a exigir dele além de performance?
Um dos nossos conselheiros fala em três Rs: receita, reputação e respeito. Sem lucro, a empresa não vai a lugar nenhum. Mas é importante trabalhar a reputação. E receita com reputação traz respeito, que é o legado que a organização constrói. O CEO sempre foi pressionado para entregar resultados. Hoje, além de performance, ele tem que entregar progresso para a sociedade.
De inteligência artificial a desigualdade, quais transformações mais vão pressionar empresas e líderes?
Nós identificamos cinco grandes megatendências: tecnologia e inteligência artificial; fragmentação e reorganização geopolítica; crise climática; segurança alimentar, energética e dos recursos naturais; e desigualdade, exclusão social e pressão por um desenvolvimento inclusivo. A geopolítica hoje é uma pauta central das empresas. Antes era uma reflexão distante. Hoje os sistemas estão instáveis, interdependentes e muito politicamente tensionados.
Se os desafios dos líderes mudaram, o que as escolas de negócios precisam passar a ensinar?
Não dá para ensinar apenas estratégia, marketing, finanças, operações e estatística. Temos que trazer outras disciplinas. Há também uma discussão importante sobre ética. Estamos discutindo muito pouca ética. Escândalos no mundo político associados ao empresarial são intoleráveis, e as escolas de negócios deveriam trazer essa discussão.
A inteligência artificial será a principal transformação para a educação nos próximos anos?
Quando o computador e a internet chegaram, achamos que iriam revolucionar a educação. Revolucionaram a prática e facilitaram muita coisa, mas não acho que o ensino tenha melhorado na escala esperada. Agora apostamos que a inteligência artificial pode favorecer a aprendizagem e gerar ganhos de produtividade. Mas ainda é uma aposta. Só a história vai dizer.
A IA tem potencial adaptativo e permite uma hipercustomização da aprendizagem. Mas não traz duas coisas fundamentais a tomada de sentido e o julgamento. Isso é, por enquanto, absolutamente humano. O importante não será simplesmente dominar a IA, mas saber usá-la e fazer as melhores perguntas.






