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ANÁLISE-Dúvidas sobre biodiesel ameaçam metas verdes da UE

Por Charlie Dunmore e Ivana Sekularac

BRUXELAS/AMSTERDÃ, 5 Mar (Reuters) – A União Europeia quase que certamente não cumprirá suas metas de corte nas emissões dos combustíveis do setor de transportes se os formuladores de políticas públicas agirem com base nos alertas científicos sobre o impacto dos biocombustíveis no clima.

Diversos estudos têm questionado os benefícios do biodiesel produzido a partir da colza na Europa e óleo de palma e de soja importados, e alguns argumentam que o biodiesel gera emissões que afetam o clima tanto quanto o diesel convencional.

Como dois terços do biocombustível da UE está projetado para vir do biodiesel, é crescente o consenso de que qualquer iniciativa para excluir matérias-primas agrícolas, tais como os EUA vêm propondo no caso do óleo de palma, poderá deixar as metas fora de alcance.

Mesmo que a Europa tentasse elevar o uso de bioetanol e biocombustíveis avançados, produzidos sem o uso de produtos alimentares, as barreiras técnicas e a crescente demanda da UE por diesel ainda deixariam o bloco abaixo de sua meta.

“Etanol e os biocombustíveis de segunda geração podem cobrir a diferença, mas não até 2020”, disse Sven-Olov Ericson, uma autoridade sênior do Ministério de Empreendimentos, Energia e Comunicação da Suécia à Reuters.

Esta constatação tem um peso sobre a paralisação na elaboração do esboço com as regras baseadas nos estudos, com as propostas políticas da Comissão Europeia já com mais de um ano de atraso.

Ignorar os alertas poderia resultar em uma custosa política de biocombustíveis com benefícios incertos. Agir com base nestes estudos poderá afetar fortemente a indústria do biodiesel que movimenta 13 bilhões de euros (17,2 bilhões de dólares) por ano e demandaria uma reorganização da política de transporte.

METAS VERDES

A UE implementou duas leis em 2009 para estimular o uso de biocombustíveis. A diretiva para energia renovável requer que os países atinjam a participação de 10 por cento de energia verde no transporte rodoviário até 2020, a e vasta maioria deverá ser cumprida por meio dos biocombustíveis.

O grande influenciador do mercado, entretanto, está relacionado à diretiva de qualidade do combustível, que força as companhias de petróleo a cortar o conteúdo de carbono nos combustíveis na área de transportes em 6 por cento até 2020, novamente sendo capitaneada pela mistura com biocombustível.

Em ambos os casos, foi reconhecido que promover o uso de biocombustível à base de produtos alimentares poderá aumentar a demanda global por terras agrícolas e pode indiretamente incitar o desmatamento e outros usos da terra em países como a Indonésia e a Malásia.

A UE está encaminhando suas metas para biocombustíveis, mas pediu à comissão para avaliar os riscos das emissões a partir da “mudança no uso indireto da terra” (Iluc) e propõe avaliar como contabilizá-los nos cálculos de economias de emissões de gases efeito estufa a partir dos biocombustíveis.

Se a UE penalizar o biocombustível de safras específicas por conta de suas estimativas de emissões (Iluc), qualquer incentivo dos governos e empresas para promover biodiesel de colza, óleo de palma e soja desapareceria.

Susan Hansen, analista da unidade holandesa do Rabobank, disse que o debate em torno do Iluc está levantando dúvidas sobre as metas da UE.

“É consenso é que o biodiesel enfrentará mais problemas em cumprir o Iluc do que o etanol”, disse ela. “Será um desafio chegar à meta de 10 por cento até 2020, porque de acordo com os planos em ação do programa de energia renovável (do governo), a UE apostará primariamente no biodiesel.”