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Amazon enfrenta obstáculos para lançar Kindle no Brasil

Leitor digital está presente em poucos canais de venda e tem de concorrer com a hegemonia dos tablets - e da Apple

Por Ligia Tuon - 24 fev 2013, 14h17

A Amazon entrou sem alarde no mercado brasileiro – sobretudo no que se refere ao lançamento de seu leitor digital (também chamado de e-reader), o Kindle. Com a venda restrita a apenas três canais – Ponto Frio, Livraria da Vila e quiosques em alguns shopping centers do Rio de Janeiro e São Paulo – a empresa ainda está longe de transformar seu carro-chefe em mania nacional. Enquanto a oferta de modelos de seu leitor nos Estados Unidos é ampla – em especial o Kindle Fire, que se assemelha a um tablet – no Brasil só é possível comprar o modelo básico. Versões mais turbinadas, como o Kindle Paperwhite, podem ser adquiridas apenas na loja virtual americana e enviadas ao Brasil mediante o pagamento de impostos. Segundo a coluna Radar, de VEJA, há cerca de 45 000 Kindles disputando o mercado brasileiro com nada menos que 4 milhões de tablets da Apple, os iPads – e que também podem ser usados como leitores de conteúdo da própria Amazon. Tamanha concorrência exigirá malabarismos da empresa de Jeff Bezos para conseguir algum êxito em sua empreitada local.

Falta de conteúdo – A dificuldade da companhia em emplacar seu produto em território nacional se deve a inúmeros fatores – muitos dos quais independem da própria Amazon. O movimento tardio de produção de livros digitais (os chamados e-books) por editoras brasileiras é o principal deles. “Desde o princípio, havia pouquíssimas empresas dedicadas a isso no mercado, o que prejudicou a adesão dos consumidores ao e-reader“, explica Camila Pereira Santos, analista do IDC. A oferta de livros digitais em 2010 era de meros 1 500 títulos em português. Hoje, são mais de 15 000 opções – número ainda baixo, se comparado aos 1,4 milhão de títulos em inglês vendidos pela Amazon no mercado americano. Especialistas atribuem a esse atraso o tímido hábito dos brasileiros de ler livros digitais – ainda que esse mesmo público não tenha mostrado nenhuma resistência em aderir aos tablets.

A preocupação da Amazon em relação ao uso do Kindle em mercados como o Brasil não está diretamente relacionada aos ganhos que a empresa terá com a venda do aparelho. Seu verdadeiro negócio é a comercialização de conteúdo. Em um movimento inteligente, a companhia passou a vender o leitor em 2007 justamente para garantir público para os livros digitais que lançaria naquele ano. No final de 2012, Jeff Bezos admitiu, em entrevista à rede BBC, que sua empresa não ganha nada com a comercialização do Kindle – o preço sugerido no Brasil é de 299 reais. “Nós vendemos o hardware a preço de custo, o suficiente para que o produto se pague”, disse o empresário. No Brasil, uma crescente base de consumidores de conteúdo existe – e é justamente nela que a Amazon está de olho. O grande obstáculo, contudo, é conseguir convencer essas pessoas a comprar conteúdo em seu site.

iPad lidera – A Apple guarda uma posição de liderança folgada tanto na venda de tablets, como na de e-books no Brasil. Em 2010, quando houve o ruidoso lançamento do iPad no país, a falta de conteúdo não se mostrou um entrave. Isso porque o tablet posicionou-se como um dispositivo direcionado ao entretenimento e à convergência de mídias, como imagem, música e jogos, além de funcionar como leitor digital. Assim, o aparelho abocanhou o mercado de quem cogitava adquirir um Kindle ou seus similares. E, quando as editoras brasileiras finalmente acordaram para este filão, o leitor digital já havia passado para segundo plano na ordem de preferência dos consumidores. “Entendemos que o e-reader é uma tecnologia importante para leitura, mas a maioria das pessoas que procuram livros digitais quer ler no tablet. Este será o grande vetor de desenvolvimento desse mercado daqui para frente”, aposta o presidente da Saraiva, Marcilio Pousada.

Ciente desse cenário, a Amazon lançou o Kindle Fire nos Estados Unidos em novembro de 2011, com sistema operacional Android, para concorrer diretamente com o iPad e o iPad Mini, a um preço mais democrático: 199 dólares, contra 499 dólares do iPad e 329 dólares do iPad Mini. A Amazon não divulga números oficiais sobre as vendas do aparelho, mas a consultoria Forrester estima que mais de 7 milhões de unidades tenham sido vendidas nos Estados Unidos desde o lançamento do produto. Esse movimento mostra um distanciamento da ideia de segmentação e uma preocupação maior com a convergência, tal como previa Steve Jobs em meados de 2009, quando questionado pelo jornal The New York Times sobre o futuro do Kindle. “Deve haver alguma vantagem em algo que faça apenas uma coisa. Mas acho que, no fim das contas, os dispositivos com múltiplas funções ganharão, porque as pessoas provavelmente não vão querer pagar por um aparelho de uso restrito”, disse o fundador da Apple.

E-readers encalham – Se o mercado brasileiro tem sido espinhoso para uma empresa pioneira no setor, como a Amazon, fabricantes nacionais passam por dias ainda mais sombrios. Os que tentaram a sorte no mercado de leitores digitais acabaram cancelando a fabricação do produto depois de poucos meses de experiência, como é o caso da Positivo Informática e da Elgin, que anunciaram o fim de seus modelos, Alfa e ER-7001, respectivamente, no final de 2012. Segundo fontes do setor ouvidas pelo site de VEJA, a Positivo não conseguiu até agora vender os dispositivos produzidos em 2011. Esse encalhe fica evidente em uma pesquisa da consultoria IT Data de 2012, que mostra que apenas 1 000 leitores foram importados oficialmente no país (e nenhum fabricado) no ano passado, enquanto a importação e a fabricação de tablets chegaram a 3 milhões de unidades no mesmo período. Isso significa que o produto é financeiramente inviável se não estiver inserido em uma cadeia horizontalizada, onde a empresa que o comercializa também vende o conteúdo digital para abastecê-lo.

A Livraria Cultura ensaia montar uma dinâmica viável. Fez uma parceria com a fabricante canadense Kobo e acaba de lançar um modelo de leitor com tela sensível ao toque e algumas funcionalidades multimídia por um valor a partir de 289 reais. Para o presidente da Cultura, Sergio Herz, trata-se da única forma de tornar o negócio rentável, tendo em vista que o Brasil não dispõe de tecnologia barata para produzir o aparelho a um preço competitivo. “Se a receita da empresa depender só do desenvolvimento de hardware, o e-reader terá de ser muito caro para que dê retorno”, diz Herz. Um exemplo da inviabilidade da produção nacional foi Alfa, da Positivo. O equipamento chegou às lojas custando mais de 800 reais – valor suficiente para comprar um modelo de tablet de 7 polegadas. Especialistas acreditam que a pouca demanda por leitores digitais que ainda há no Brasil terá, necessariamente, de ser suprida por fornecedores estrangeiros que trabalhem com uma ampla escala e margens reduzidas.

Tal demanda tímida e, de certa forma, estagnada, tende a ser o futuro dos leitores digitais daqui para frente, segundo a avaliação de Ivair Rodrigues, diretor de pesquisas da IT Data. “O futuro desse mercado vai ficar restrito a um nicho muito pequeno não só aqui, mas no mundo todo. E, no Brasil, especialmente, dependerá da Amazon, que está praticamente sozinha nessa briga”, prevê. Na feira anual de tecnologia Consumer Electronics Show, em Las Vegas, onde as grandes empresas do setor lançam tendências e expõem gadgets inovadores, as ausências de determinados produtos são encaradas, na maioria dos casos, como um sonoro adeus. E, curiosamente, na edição de 2013, netbooks e leitores digitais desaparecerem dos estandes.

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