‘Alguma tarifa virá’, acreditam economistas sobre audiência nos EUA
A avaliação da postura de Flávio Bolsonaro até agora
A audiência realizada em Washington sobre a investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil reforçou a percepção de que a aplicação de tarifas sobre produtos brasileiros continua no radar da Casa Branca.
Seção 301
A investigação, baseada na Seção 301 da legislação americana, questiona pontos como o funcionamento do Pix, questões ambientais ligadas ao desmatamento e alegações sobre trabalho análogo à escravidão.
A decisão final sobre a adoção, adiamento ou isenção das tarifas está prevista para o dia 15 de julho.
Impacto
Na avaliação do economista Reinaldo Cafeo, o impacto potencial para a balança comercial brasileira pode variar entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões, atingindo setores importantes da pauta exportadora, como café, suco de laranja, carne bovina, produtos florestais, aço, ferro e equipamentos químicos.
Fragilidade americana
Para ele, parte das justificativas apresentadas pelos americanos é frágil ou baseada em argumentos antigos, enquanto as críticas ao Pix estariam ligadas à proteção das empresas americanas de cartões de crédito.
“O discurso nacionalista do Trump tenta proteger as bandeiras de cartão de crédito que ele enxerga nesse modelo do Pix”, afirmou.
Dificuldade, mas não impossibilidade
Cafeo avalia que uma isenção completa das tarifas dificilmente será concedida. Segundo ele, o cenário mais provável é uma flexibilização parcial ou até mesmo um adiamento da medida por razões políticas. “Me parece pouco provável que a isenção seja na totalidade” e “dificilmente 100% do que está sendo colocado vai ser ou adiado ou isentado”, destacou o economista ao analisar as possibilidades de negociação entre os dois países.
‘Improvável’
O economista-chefe da Fórum Investimentos, Bruno Perri, compartilha uma visão semelhante e acredita que a reversão ampla das tarifas também é improvável.
As estimativas da instituição apontam que entre 25% e 30% da pauta exportadora brasileira destinada aos Estados Unidos poderá ser atingida, principalmente produtos manufaturados.
“A expectativa é de que não vai ser possível conseguir uma reversão tão grande”, afirmou.
Prejuízo à economia americana
Perri chama atenção para um efeito que vai além das exportações brasileiras. Segundo ele, as tarifas também tendem a prejudicar a própria economia americana, já que elevam o custo de insumos e produtos utilizados pela indústria local.
“São bens que muitas vezes vão encarecer a estrutura produtiva norte-americana, que também são inflacionários”, explicou.
Para o economista, tarifas de importação acabam pressionando os preços internos e elevando custos para consumidores e empresas nos Estados Unidos.
Governo negocia com a Casa Branca
Ainda no programa Mercado desta segunda-feira, o repórter de finanças de Veja Negócios, Bruno Andrade, contou que enquanto as negociações seguem em curso, o governo brasileiro reforça sua defesa técnica.
Pix, desmatamento e lei trabalhista
O argumento, segundo Bruno, é de que o PIX oferece tratamento igualitário a empresas nacionais e estrangeiras, que o desmatamento na Amazônia apresentou redução recente e que a legislação trabalhista brasileira é mais rígida do que a americana.
Flávio Bolsonaro
Paralelamente às tratativas diplomáticas, o tema também ganhou forte componente político, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.
Cafeo lembra que em carta enviada por Flávio Bolsonaro aos EUA, o parlamentar defende o adiamento da adoção das medidas para depois das eleições brasileiras, e não a retirada definitiva das tarifas.
“Essa postura de pedir apenas o adiamento gera um duplo entendimento”, na visão do economista a medida eleva a expectativa do mercado para a decisão que será anunciada pela Casa Branca no próximo dia 15 de julho.







