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Alan Krueger, o quarto Nobel de Economia, que morreu antes do prêmio

Parceiro de Card e de Angrist em seus pioneiros estudos do começo dos anos 1990, o economista americano foi assessor de Clinton e Obama, e se matou em 2019

Por Carlos Valim Atualizado em 11 out 2021, 19h49 - Publicado em 11 out 2021, 19h43

Na manhã desta segunda-feira, 11, o Prêmio Nobel de Economia de 2021, batizado Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, foi concedido, dividido pela metade, para o canadense David Card e, em outra metade, em conjunto, para o americano Joshua Angrist e o holandês Guido Imbens. Card recebeu “por suas contribuições empíricas para a economia do trabalho”. Já Angrist e Imbens foram reconhecidos “por suas contribuições metodológicas para a análise de relações de causas”.

Mas, nos documentos oficiais de informações sobre os premiados, o comitê responsável pelo reconhecimento deixou bastante claro que uma quarta pessoa também deveria ser laureada se não fosse por seu suicídio. O economista americano Alan Krueger, ex-assessor dos presidentes Bill Clinton e Barack Obama e subsecretário do Tesouro entre 2009 e 2010, co-assinou alguns dos mais importantes e pioneiros trabalhos realizados por Card e por Angrist no começo dos anos 1990. Mas, em março de 2019, antes que merecesse o reconhecimento do Nobel, foi encontrado morto aos 58 anos de idade, em Princeton, onde lecionava.

Na época, a revista britânica The Economist dedicou um obituário de página inteira a Krueger. Sobre sua morte, outro de seus notáveis parceiros de pesquisa, o psicólogo e economista israelense Daniel Kahneman (ele próprio um Nobel de Economia, em 2002), afirmou não crer que “ser interessado intelectualmente em bem-estar tenha muito impacto no bem-estar pessoal de uma forma ou de outra”.

Mas, se os feitos de Krueger vão além de sua produção acadêmica, analisando as pesquisas que realizou com os vencedores de hoje, seriam elas que provavelmente garantiriam a ele um reconhecimento do Nobel tanto por suas contribuições para a economia do trabalho quanto por aprimorar as metodologias dos experimentos naturais.

Em um pioneiro estudo do começo da década de 1990, Krueger e Card testaram a tese bastante aceita na época de que aumentos nos salários mínimos causavam desemprego, por aumentar os custos das empresas. Estudos anteriores mostravam relação entre os dois fatores, mas havia a suspeita de que seria, na verdade, uma causa reversa. Por essa teoria, quando o desemprego cresce, os empregadores poderiam praticar salários menores, o que acabaria acarretando em demandas para aumentos do salário mínimo.

Para avaliar a tese, os dois brilhantes economistas aproveitaram uma oportunidade única para fazer um experimento natural — o que era uma grande novidade em relação aos testes clínicos, que permitem controle completo por parte dos pesquisadores, mas que não costumam estar acessíveis a pesquisas em ciências sociais. O estado de Nova Jersey havia aumentado a hora de trabalho de 4,25 dólares para 5,05 dólares. Card e Krueger, então, compararam a evolução do emprego de trabalhadores de restaurantes de fast food do estado com os da mesma atividade que viviam na fronteira da vizinha Pennsylvania, que não receberiam o aumento. A conclusão foi de que não houve variações significativas de empregos dos dois lados da fronteira. Estudos posteriores de Card comprovaram a observação.

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Mas as contribuições de Krueger para as ciências econômicas e sociais, como um todo, não terminaram aí.  Em um estudo clássico de 1991, ele e Angrist fizeram outro experimento natural, comparando os alunos nascidos no primeiro trimestre do ano com os do quarto trimestre. Como nos Estados Unidos as crianças podem deixar as escolas quando completam 16 ou 17 anos — de acordo com cada estado –, eles perceberam que as nascidas no início do ano passaram menos tempo em educação, e também que mais à frente na vida tiveram rendimentos menores do que as que faziam aniversário no fim de ano e que, por isso, precisavam cumprir o período letivo até o final, antes de decidirem pelo abandono.

O curioso é que a pesquisa concluiu que um ano a mais de estudos garantia 9% mais de renda, enquanto estudos anteriores demonstravam que, em média, um ano adicional de estudo dava renda 7% maior. Imaginava-se, antes disso, que uma pesquisa natural mostraria correlação menor do que 7% e não maior, afinal, o tempo de estudo poderia ser afetado não apenas por conta de mais horas de aprendizado, mas também porque as pessoas que acabavam permanecendo na escola já eram mais dedicadas ou mais afeitas a isso, ou mesmo que pertenciam a famílias mais bem estruturadas e que priorizavam a educação. Mas o puro acaso da data de nascimento, que isolava essas variáveis da análise, desmentiu a tese. Essa observação trouxe novas questões sobre como interpretar os experimentos naturais, às quais acabaram sendo respondidas por Angrist e Imbens, em descobertas sobre como aplicar melhor a metodologia dessas pesquisas e tirar dados mais confiáveis e precisos.

  • Um terceiro estudo importante de Krueger neste campo, ao lado de Card, tratava do impacto de recursos escolares no futuro dos alunos no mercado de trabalho. A ideia deles foi comparar os resultados de alunos que estudavam no mesmo estado, mas que cresceram em unidades da federação diferentes. Por exemplo, explica o texto de apresentação dos premiados pelo Nobel deste ano, eram comparados estudantes que vinham de Alabama e Iowa, mas que se mudaram para a Califórnia. A conclusão foi de uma relação positiva entre desempenho e quem vinha de locais com mais densidade de professores pela população. Hoje, é bastante aceita a tese de que o sucesso no mercado de trabalho está relacionado a investimentos educacionais, e que essa correlação é mais forte quando envolvem alunos de origens mais pobres.

    O único dos principais estudos pioneiros, do começo da década de 1990, citados pelo Nobel para justificar o prêmio deste ano que não envolveu Krueger foi um realizado por Card para analisar como o mercado de trabalho era afetado pela imigração. Para evitar variáveis como os imigrantes preferirem se colocar em regiões de mercado crescente, ele aproveitou dados de Miami da época que Fidel Castro surpreendentemente deixou 125 mil cubanos se mudarem para os Estados Unidos, em abril de 1980.

    Como, de repente, dezenas de milhares entraram de uma vez na economia da Flórida, sem que houvesse qualquer preparação para isso ou causa maior do mercado local, foi possível perceber o impacto de um aumento repentino de 7% da força de trabalho da cidade praiana. Apesar do forte impacto, Card não encontrou efeitos negativos para os residentes com menor educação. “Os salários não caíram e o desemprego não aumentou em relação a outras cidades”, conta o texto do Nobel. Estudos posteriores sofisticaram esta conclusão ao mostrar que, na verdade, um aumento de imigração tem impacto positivo para os nativos do país, que trocam de empregos para posições que exigem mais capacidade de linguagem, enquanto pessoas que imigraram anteriormente são prejudicadas, por sofrerem maior competição. Se as suas contribuições para descobertas como essas e para a ciência em geral são óbvias para seus pares, é uma pena que Krueger, no entanto, não tenha vivido para receber o maior reconhecimento de sua carreira.

     

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