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Agenda de impacto socioambiental ganha espaço no mercado de ações

Empresas com mentalidade sustentável ganham tração com pandemia de coronavírus e chamam a atenção de investidores

Por Felipe Mendes - Atualizado em 7 jul 2020, 12h39 - Publicado em 7 jul 2020, 10h35

Com o avanço da pauta climática e de diversidade no mundo, alguns atores conservadores do mercado financeiro decidiram encabeçar uma mudança de filosofia e cobrar posturas a favor de uma agenda sustentável de governos e empresas. Exemplos não faltam. A Moody’s Corporation, dona de uma das principais agências de classificação de risco, adquiriu há pouco menos de um ano uma participação majoritária na consultoria Four Twenty Seven, que fornece dados e análises relacionados a riscos climáticos. Por volta da mesma época, o banco americano Goldman Sachs formou um grupo de finanças sustentáveis interno para oferecer uma consultoria voltada a investimentos que tenham poder de gerar impacto para o futuro do planeta. Mas não parou por aí. No início de 2020, o presidente da instituição, David Solomon, afirmou que a partir de 1º de julho não estruturaria mais aberturas de capital (IPO, na sigla em inglês) de empresas que não tenham mulheres em seus conselhos de administração. Agora mais do que nunca parece que as empresas que não levarem as iniciais ESG (ambiental, social e governamental) ao pé da letra ficarão para trás.

No Brasil, a filosofia de investimentos ESG ainda não se popularizou. Em 2000, a Bovespa, atual B3, lançara o Novo Mercado, que estabeleceu um padrão de boas práticas de governança corporativa, levando maior transparência e segurança aos investidores. Para promover mais ações voltadas às demais letras da sigla, a estratégia foi criar, em 2005, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), que permite com que investidores comprem papéis de uma cesta de companhias com boas práticas ambientais e sociais. Mas, os desastres socioambientais das cidades mineiras Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019, colocaram em xeque a sobrevivência da cesta, já que a mineradora Vale, protagonista daquelas tragédias, estava listada no ISE em ambas as oportunidades. “No Brasil, os pilares E e S ainda são muito vulneráveis”, diz Louise Barsi, cofundadora do Ações Garantem o Futuro. “Daqui para frente, eu vejo como inevitável que os outros pilares, do meio ambiente e de impacto social, entrem definitivamente na pauta de casas de análises, de grandes investidores institucionais e também por parte dos investidores pessoa física”, complementa Barsi.

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De olho em uma tendência inexorável, vista no mercado financeiro mundo afora, a XP Investimentos lançou uma área de “sustainable wealth” há duas semanas. É a primeira instituição financeira brasileira a abrir uma frente específica para integrar os temas ambientais, sociais e de governança à gestão de patrimônio de seus clientes. O projeto é encabeçado por Marina Cançado, fundadora da Converge Capital, que desenvolve um trabalho de debate e consultoria para herdeiros de famílias ultrarricas. Como head da área, ela pretende ampliar o potencial de sua palavra para milhares de agentes autônomos e de famílias que gerenciam recursos de mais de 10 milhões de reais. “O tema de investimento sustentável já vem acontecendo há alguns anos pelo mundo com mais força. No Brasil, ainda é uma novidade”, diz Cançado, que acompanhou a jornada de investimento da família Rockfeller, nos Estados Unidos. Seu trabalho na XP será fazer com que os investidores tenham um olhar holístico sobre seus ativos. “Isso passa tanto por ajudar a família a fazer uma filantropia mais estruturada, mais estratégica, mas também a olhar para o seu portfólio e entender quais eventuais substituições podem ser feitas”, corrobora.

A pandemia do novo coronavírus escancarou a necessidade de investimentos de impacto social no mundo. Sairão na frente as companhias que entenderem como gerar valor, sobretudo, à sua cadeia de atuação. Maior gestora de ativos do mundo, a BlackRock comprometeu-se a colocar a mudança climática no centro de seu processo de investimentos, a aumentar o quadro de afrodescendentes em 30% até 2024 e a incentivar propostas semelhantes no setor. “As empresas têm um papel relevante e fundamental na história econômica e social daqui para frente, não só nesse momento de crise, mas principalmente nos desdobramentos depois dela”, diz Rodrigo Pipponzi, cofundador da Editora Mol. Ele cita como exemplo a resposta das empresas com doações e medidas para o combate à Covid-19 no país. Dados consolidados pelo Monitor das Doações mostram que já foram arrecadados 5,9 bilhões de reais por mais de 440.000 doadores no país — as empresas representam 82% deste montante, campanhas e lives 8%, indivíduos e famílias 4%, e fundações e fundos filantrópicos 3%. A pandemia seria, portanto, um ensejo para aumentar o número de doações no país. “O brasileiro ainda doa pouco”, diz Paula Fabiani, diretora-presidente do Instituto para o Desenvolvimento Social, o Idis. Segundo uma pesquisa realizada pela entidade, os brasileiros doam, em média, 0,23% correspondente ao Produto Interno Bruto (PIB), com doações mensais que variam entre 20 reais e 40 reais.

Como diria o ditado: nem tudo que reluz é ouro. Se em tempos de pandemia, o número de empresas com ações de impacto socioambiental cresce. Também há mais campo para a prática do greenwashing, termo inglês conhecido por indicar a injustificada apropriação de virtudes ambientalistas por parte de organizações — sejam empresas ou governos — mediante o uso de técnicas de marketing e relações públicas. Algumas empresas, portanto, praticam as boas práticas somente por interesse ou pela cobrança de uma parcela da sociedade, não sendo, de fato, engajadas com as causas que dizem defender. Para Fabiani, uma forma de evitar isso é engajar-se em uma pauta que tenha valores intrínsecos à própria existência da companhia. “É mais duradouro quando a empresa tem um alinhamento com a sua atividade. Quando há uma troca de valores, ela pode fazer ações socioambientais sem deixar de trazer valor para sua própria cadeia. O Instituto C&A, por exemplo, apoia uma série de ONGs que trabalham na cadeia da moda para evitar trabalho escravo, exploração e promover boas condições de trabalho”, diz ela. Restam poucas dúvidas de que o maior comprometimento de empresas e investidores com a pauta socioambiental deixará um legado duradouro na maneira como o mundo investe atualmente.

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