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Ação do BCE reforça tendência de alta do real ante o dólar

Analistas apontam que a trajetória da moeda brasileira, apesar da queda pontual desta quarta-feira, é de apreciação

O anúncio desta quarta-feira do segundo leilão de refinanciamento do Banco Central Europeu (BCE) – que emprestará 529,53 bilhões de euros a 800 instituições financeiras europeis – confirma a expectativa de que as moedas dos países emergentes, como o real, prosseguirão sua trajetória de valorização. A principal explicação, segundo economistas, é que esse volume de recursos deve provocar nova expansão da liquidez internacional. Com mais dinheiro nas carteiras, investidores de todo o mundo tendem a olhar com maior interesse as nações em desenvolvimento. Além de oferecerem projeções mais favoráveis de crescimento do PIB, estes países já não são percebidos como tão arriscados e possuem taxas de juros mais elevadas. O Brasil, com uma taxa de juro básica que deve fechar o ano em 9,5%, é candidato natural a receber recursos.

O movimento de busca dos investidores por moedas com potencial de ganho maior já foi verificado em dezembro, quando o BCE fez o primeiro leilão de refinanciamento, ofertando 489,19 bilhões de euros para 523 bancos. “A reação inicial foi negativa porque o número de bancos que recorreu ao leilão foi grande, mas logo em seguida prevaleceu a leitura de que mais dinheiro deve aumentar a procura pelos países emergentes com as características do Brasil”, disse gerente de operações do Banco Indusval, Alberto Félix de Oliveira Neto.

O economista Juan Jensen, da consultoria Tendências, explica que a primeira intervenção do BCE, no final do ano, serviu para mudar a percepção dos investidores quanto ao cenário europeu. A operação bem-sucedida afastou o temor de que alguns países, sobretudo a Itália, tivessem dificuldade para rolar suas dívidas soberanas. Logo, além da injeção bilionária de recursos no mercado, a ação também permitiu com que todos ficassem menos inseguros com o futuro – algo que, no jargão do mercado, é tratado com ‘menor aversão ao risco’. A nova ação do BCE desta terça-feira só reforça essa tendência; “Esse leilão, aliado à expectativa de menor risco, significa, em bom português, mais dinheiro no mercado mundial – e parte desse dinheiro será investido no país”, declarou.

Nos mercados europeu e americano, por outro lado, as taxas de juros estão perto de zero – num cenário, aliás, que não deve ser revertido tão cedo. O Banco Central dos Estados Unidos (Fed) já declarou que as taxas seguirão reduzidas pelo menos até o final de 2014 numa tentativa de estimular a recuperação da atividade no país. Diante disso, os investidores devem seguir em busca de rentabilidade mundo afora. O Brasil contará, neste ano, também com o reforço da balança comercial, que, apesar de ter iniciado 2011 deficitária, deve chegar em 31 de dezembro com um superávit de 25 bilhões de dólares, conforme projeção da Tendências.

Curto prazo – No meio da manhã e ao longo de toda a tarde, a cotação da moeda americana em reais mostrou comportamento oposto ao dos últimos dias. Desta maneira, em vez de cair, a divisa fechou o pregão desta quarta-feira com alta de 0,82%, para 1,7160 real. A principal explicação para este movimento foi o fato de o Banco Central ter realizado duas intervenções no mercado – em uma estratégia, aliás, repetida ao longo de seis dias consecutivos.

Os operadores de câmbio já não disfarçam o temor de que ocorra forte intervenção neste mercado. É que tanto o ministro da Fazenda, Guido Mantega, como o presidente do BC, Alexandre Tombini, afirmaram, diversas vezes, que um patamar inferior a 1,70 real é ruim para a economia brasileira. Eles têm dito, inclusive, que possuem outras armas para conter a valorização da moeda brasileira. Os economistas, contudo, não creem na eficácia destas medidas se nada muito heterodoxo – como uma taxação dos investimentos estrangeiros diretos (IED) – for anunciado. A explicação é que o poder de fogo do governo, ainda que não seja desprezível, é pequeno ante a movimentação global dos fluxos financeiros que determinam os valores das moedas.

(com Agência Estado)