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Abílio quer ser dono do Pão de Açúcar e do Carrefour ao mesmo tempo

Empresário faz proposta de fusão de seus ativos do Pão de Açúcar com as ações do grupo francês Carrefour

Por Ana Clara Costa 28 jun 2011, 08h02

O Carrefour afirmou ter recebido, na manhã desta terça-feira, uma proposta formal de parceria estratégica com Abílio Diniz. Por meio do fundo Gama, capitalizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES) e gerido pelo BTG Pactual, as ações do empresário na Companhia Brasileira de Distribuição (Pão de Açúcar) seriam unidas às do grupo Carrefour. Se a proposta for aceita, Diniz se tornará um grande acionista de ambas as empresas varejistas. Vale ressaltar que a proposta não significa uma proposta de fusão feita pelo grupo Pão de Açúcar, e sim por Abílio Diniz utilizando sua participação acionária no grupo.

A engenharia financeira delineada no negócio permitiria a Diniz controlar as operações do grupo Carrefour no Brasil, além de fazer com que o grupo francês seja acionista indireto do Pão de Açúcar, segundo fontes ouvidas pelo site de VEJA e que participaram da operação. O fundo Gama contaria com participação acionária igualitária entre ambas as empresas. O Carrefour Brasil é uma subsidiária da matriz francesa, que possui capital aberto na Bolsa de Paris. Desta forma, o empresário se tornaria acionista da operação global do Carrefour e o fundo Gama contaria com uma cadeira no conselho de administração do Pão de Açúcar,

O Casino, que já esperava esse desfecho para as negociações, não reagiu com surpresa. Afirmou, em comunicado, se tratar de uma operação “ilegal entre Abílio Diniz e o Carrefour”. É público um artigo do acordo de união entre o varejista francês e o brasileiro, que prevê que nenhuma das partes pode negociar uma sociedade com outra empresa sem ter o aval do sócio. “Já se sabe que o Casino tentará impedir o negócio”, afirmou ao site de VEJA um executivo que participou da operação. O grupo francês Casino é dono de 37% do capital social do Pão de Açúcar.

A proposta deverá ser discutida pelo conselho de administração do Carrefour nos próximos dias – com interesse maior dos sócios Bernard Arnault (Groupe Arnault SAS) e Colony Capital, que desde 2010 se mostravam descontentes com os rumos das operações do Carrefour em mercados emergentes. Se aprovada, poderá criar o maior conglomerado de varejo do país. Ainda não se sabe se as operações se manterão separadas ou não; menos ainda sobre como Abílio Diniz fará para uni-las, sendo que em 2012, o Casino terá o direito de destituí-lo do comando do conselho de administração e eleger um novo presidente. Mas, mesmo diante de tal incerteza, a proposta relata que as sinergias poderão chegar a um total de 700 milhões de euros por ano, além de um total de 2.386 lojas situadas em todas as regiões brasileiras. O aporte do BNDES e do BTG Pactual no negócio poderá chegar a 2 bilhões de euros.

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O governo brasileiro abençoa a proposta (e a participação do BNDESPar diz tudo). Seria uma reedição do que fez o trio Jorge Paulo Lemann, Marcell Telles e Beto Sicupira, quando em 2003 viraram sócios importantes da belga Interbrew, criando a InBev. Se o negócio der certo, apenas no Brasil a nova empresa seria dona de 2 386 pontos de vendas – e Abílio terá dado a volta por cima. Aparentemente, a proposta que agora torna-se pública é a mesma que Abílio propôs ao Carrefour há dois meses, quando iniciaram conversações.

Essa resposta, aliás, poderá ser dada pelos papéis apreendidos na semana passada na sede do Carrefour francês pela Justiça francesa, a pedido do Casino. Oficialmente, Abílio dirá que foi surpreendido pela proposta e irá estudá-la. E agora cabe ao Casino dizer se quer ter laços societários com o seu maior concorente na França.

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